Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viram como um gesto do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ao petista, às vésperas do primeiro turno, a decisão de pautar a votação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1.
A medida é considerada um trunfo eleitoral de Lula e, diante de seu grande alcance e popularidade, pode ter impacto no resultado das eleições de domingo, de acordo com governistas. Alcolumbre anunciou na noite desta sexta-feira que levará a PEC ao plenário de votações do Senado na próxima terça-feira. Integrantes da articulação política do governo dizem que já havia sinalização do parlamentar de que isso ocorresse após o primeiro turno. A medida foi celebrada por aliados do petista diante da avaliação de que o anúncio por si só já cria um fato político importante para Lula.
A disputa para a presidência apresenta um cenário acirrado, com Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do petista. Um ministro do governo diz acreditar que o anúncio de Alcolumbre possa gerar impacto nas urnas.
Apesar dessa sinalização, um governista diz que Alcolumbre já fez gestos antes ao governo que não se concretizaram. Ele afirma que o presidente do Senado é um político habilidoso e que poderá dar ritmo diferente à votação a depender do resultado que sair das urnas no domingo, dando maior poder de influência ao parlamentar.
Lula e Alcolumbre mantinham relação próxima, mas se afastaram e ficaram cerca de três meses sem conversar após o Senado impor derrota histórica ao petista ao rejeitar a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Eles voltaram em agosto, com a proximidade das eleições.
Inicialmente, havia expectativa de que a PEC pudesse ser apreciada em setembro, na última semana de votações do Congresso antes do primeiro turno. A proposta foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas não seguiu para o plenário por falta de acordo, frustrando o Palácio do Planalto.
De lá para cá, integrantes da articulação política de Lula mantiveram contato frequente tanto com Alcolumbre quanto com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Motta se aproximou do Planalto no último ano e passou a ser considerado um ponto de governabilidade no Congresso, atuando para destravar pautas de interesse do governo no Legislativo. Agora, segundo um integrante da coordenação da campanha de Lula, o presidente e aliados deverão explorar ao máximo até domingo a notícia de que a PEC será votada na próxima semana.
A defesa do fim da escala de trabalho 6x1 foi apresentada pelo governo e passou a ser incorporada nas falas do petista, que cobrava do Congresso a aprovação do tema. Aliados diziam que essa poderia ser uma das marcas do Lula 3, além de uma vitrine para ser explorada na campanha e viam na sua aprovação uma possibilidade de melhorar a aprovação do governo.
Nas palavras de um ministro de Lula, o anúncio por si só “vai fazer um estardalhaço” junto à opinião pública e tem potencial de ter efeitos nas urnas no domingo. Nesta sexta, após a decisão de Alcolumbre em pautar a discussão, o presidente foi às redes agradecer o parlamentar e reforçar que a PEC é uma “prioridade” de seu governo.
“Essa é uma prioridade do nosso governo e uma mudança que o Brasil precisa fazer. Trabalhadores e trabalhadoras não podem viver apenas para trabalhar. Precisam ter tempo para a família, para estudar, descansar e viver, com dois dias de descanso por semana e sem redução de salário. A Câmara já deu um passo importante. Estou convicto de que o Senado também saberá ouvir a sociedade e aprovar esse avanço histórico para milhões de trabalhadores brasileiros”, escreveu Lula em publicação nas redes sociais.
A decisão de Alcolumbre em levar o tema à pauta do plenário ocorreu horas após a Petrobras informar que fez uma nova descoberta de petróleo em águas ultraprofundas na Bacia da Foz do Amazonas. A descoberta foi feita no bloco FZA-M-59, localizado no estado do Amapá, reduto eleitoral de Alcolumbre. O presidente do Senado foi um dos principais incentivadores para que a estatal brasileira conseguisse autorização para explorar o petróleo na região.
O Globo