247 – A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) associou a renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, a uma derrota política para o bolsonarismo e seus aliados na América do Sul. A parlamentar se manifestou nesta quinta-feira (5), após Peña anunciar sua saída do cargo, pressionado pelo colapso do banco digital Ueno e pela perda de apoio no Congresso paraguaio.
A crise financeira, que deixou milhões de clientes sem acesso às contas bancárias, também levou à abertura de um processo de impeachment contra o mandatário. Em publicação na rede social X, Erika Hilton descreveu Peña como “o segundo maior aliado do bolsonarismo e de Donald Trump na América do Sul” e o comparou ao presidente argentino Javier Milei, a quem se referiu como “o fracassado Javier Milei”.
A manifestação expressa a avaliação política da parlamentar sobre o impacto regional da saída do presidente paraguaio. Peña apresentou sua renúncia enquanto a Câmara dos Deputados discutia uma acusação constitucional contra ele, motivada por denúncias relacionadas à administração e à fiscalização do Ueno Bank.
O presidente havia perdido o respaldo de setores importantes do Partido Colorado, legenda que sustentava seu governo desde a posse, em agosto de 2023. O ex-presidente paraguaio Horacio Cartes, dirigente do Partido Colorado e principal patrocinador político de Peña, anunciou apoio ao processo de impeachment.
A decisão foi acompanhada por parlamentares governistas e oposicionistas, consolidando uma maioria favorável ao afastamento do presidente. A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos, a acusação contra Peña, mesmo depois do anúncio da renúncia.
O processo foi encaminhado ao Senado, responsável por decidir sobre a continuidade do julgamento político e a aceitação da saída do chefe do Executivo. O pedido de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana, por sua vez, foi rejeitado por 48 votos a 30.
A decisão abriu caminho para que Alliana, também integrante do Partido Colorado, assumisse o comando do país, conforme as regras constitucionais de sucessão. Colapso do Ueno Bank desencadeou crise política
A crise que levou à renúncia de Santiago Peña começou a se agravar na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai determinou a intervenção no Ueno Bank, após identificar problemas graves de solvência relacionados à concessão de empréstimos a empresas vinculadas ao grupo controlador.
A instituição financeira atendia aproximadamente 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos, incluindo recursos destinados à previdência social. A suspensão das operações deixou correntistas sem acesso a economias, salários e benefícios, provocando manifestações em Assunção e outras localidades.
Peña manteve participação acionária no grupo empresarial proprietário do Ueno até março de 2025. A relação comercial anterior passou a ser questionada pela oposição, que levantou suspeitas de conflito de interesses, favorecimento regulatório e falhas na fiscalização bancária.
A crise também atingiu o comando do Banco Central paraguaio. Carlos Carvallo, que havia presidido o Ueno antes de assumir a autoridade monetária, renunciou ao cargo na terça-feira (3), após o agravamento das denúncias.
O Ministério Público abriu uma investigação criminal para apurar possíveis irregularidades nas operações do banco. Oito dirigentes e ex-dirigentes foram detidos, enquanto 27 pessoas passaram a responder a acusações relacionadas ao caso.
Peña alegou necessidade de preservar a estabilidade do Paraguai O presidente paraguaio anunciou a renúncia por meio de uma mensagem gravada e divulgada nas redes sociais.
Ao explicar a decisão, afirmou que pretendia evitar o agravamento da crise institucional. “Faço isso tendo em mente a estabilidade do nosso país, a paz social e a necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, declarou Peña, conforme tradução da fala divulgada pela agência Reuters.
O mandatário também manifestou preocupação com os clientes do Ueno Bank e defendeu medidas para garantir a devolução dos depósitos. Apesar disso, não assumiu expressamente responsabilidade pelas irregularidades que levaram à intervenção na instituição financeira.
O governo apresentou propostas para acelerar os pagamentos aos correntistas e proteger recursos públicos mantidos no banco. As iniciativas ocorreram paralelamente ao avanço das investigações e à intensificação da pressão parlamentar.
Sucessão presidencial e consequências do impeachment O vice-presidente Pedro Alliana deve concluir o mandato presidencial, previsto para terminar em agosto de 2028, caso o Congresso formalize a aceitação da renúncia de Santiago Peña.
A decisão dos parlamentares sobre o impeachment também poderá afetar a situação jurídica do presidente que deixa o cargo. Pelas regras constitucionais paraguaias, ex-presidentes que encerram seus mandatos sem destituição podem assumir a condição de senadores vitalícios, com prerrogativas parlamentares.
A destituição por julgamento político impediria Peña de obter essa condição. Setores da oposição defendem a continuidade do impeachment justamente para evitar que a renúncia resulte na concessão dessas prerrogativas ao presidente investigado.
A sucessão, entretanto, não representa uma transferência automática do poder para a oposição. Alliana pertence ao mesmo Partido Colorado de Peña, legenda que mantém influência decisiva no Congresso e na estrutura política paraguaia.
Brasil 247