Erasmo Carlos tem suas inquietações do início dos anos 1970 transformadas em rap
Parceiro de Erasmo Carlos em “Termos e condições”, de 2018, Emicida abre o álbum “Mano” (Universal Music) saudando o amigo morto em 2022: “Esteja onde estiver, tamo junto, essa é pra você!”. E sobre a base de “É preciso dar um jeito, meu amigo” (faixa do LP “Carlos, Erasmo”, de 1971, que ganhou popularidade ao ser incluída na trilha sonora do filme “Ainda estou aqui”), o rapper dispara versos cortantes, cita os nomes tão diversos quanto os de Aldous Huxley, Geraldo Vandré, Mário Quintana, Belchior, Maquiavel e John Coltrane.
Fábio de Melo fala da perda da mãe e de questionamentos sobre sua sexualidade: 'A vida sexual de um padre sempre gera curiosidade'
Em série para TV e disco: Artistas dão novas caras para Chico Buarque
Com oito faixas, unindo gravações de Erasmo ao rap brasileiro (além de Emicida, estão lá Marcelo D2, Criolo, Dexter, Xamã, Budah, Rael, Tasha & Tracie e Tássia Reis), “Mano” chega ao streaming no dia 5, para as comemorações dos 85 anos de nascimento do Tremendão (que também serão feitas com um show de Orquestra Imperial). O álbum é um projeto de Léo Esteves (filho do cantor e guardião da sua obra) e do produtor Marcus Preto (que esteve à frente de alguns dos seus últimos discos) para, diz Léo, botar o público em contato com a “obra dele menos incensada”.
Capa do album “Mano Erasmo Carlos”
Reprodução
A ideia era algo que não fosse óbvio mas que tivesse a cara do Erasmo. Léo pensou em um disco de remixes, ideia descartada. Marcus veio com a proposta de chamar os artistas do rap. Assim como o rap não é estranho ao seu pai, conta Léo, este também não era estranho ao rap.
— A playlist do Erasmo era uma coisa muito louca. Tinha Bob Dylan, aí vinham os Originais do Samba, aí daqui a pouco o Aswad, uma banda de reggae inglesa de que a gente gosta — lembra. — O rap vinha mais pelo discurso. O Erasmo gostava muito do posicionamento nas letras.
Marcus revela que havia conversas de Erasmo fazer uma parceria com Marcelo D2:
— Lembro de ele citar também o Criolo em alguns momentos. Tenho a impressão que essa geração do rap dos anos 2010 se impôs de uma maneira em que estava ficando quase inevitável o contato do Erasmo com o rap.
Para Léo, a ligação com o rap também tem a ver com a virada do pai dos anos 1960 para 70 — as faixas pinçadas para “Mano” vieram dos LPs “Carlos, Erasmo”, “Sonhos e memórias — 1941/1972” (1972) e “1990 — Projeto Salva Terra!” (1974).
— A Jovem Guarda tinha acabado em São Paulo, o Roberto Carlos foi ser um cantor romântico, popular e o Erasmo ficou ali perdido. A volta para o Rio foi emblemática. Ele se casou com a minha mãe, formou família, e teve contato com as drogas, que expandiram a visão dele — recorda. — Isso foi o principal motivador daquela fase, com letras mais profundas, existenciais, questionando certas coisas. Ele saiu daquela zona de segurança que era gravar um programa semanal, de grande sucesso, mas que aprisionava ele como roqueiro. Era uma época em que existia uma certa utopia, e o Erasmo sempre foi um cara muito utópico.
À beira dos 90 anos e em atividade, Tom Zé admite: ‘Não tenho queixa de nada’
E havia também na época, segundo Marcus Preto, uma ligação musical de Erasmo com “todos esses caras que foram depois sampleados e usados em produções de rap como referências fortes”.
— Em alguma medida, o Erasmo tem uma mão naquela black music brasileira do começo dos anos 1970 — diz o produtor, citando “Coqueiro verde”, samba-rock de Erasmo e Roberto Carlos regravado pelo Clube do Balanço nos anos 2000 e mostrada em show em São Paulo do qual ele lembra de ver o autor participado. — O Jorge Ben Jor, o Hyldon, todos tratavam o Erasmo como um deles. Ele é o cara da Tijuca ali, com um lugar muito parecido com o daqueles outros.
Léo conta que o pai também ouvia muito a black music americana, que seria sampleada pela primeira geração do rap, nos EUA:
— Não falo nem da Motown. O que ele gostava era da terceira a divisão, não só dos mais conhecidos. Ele gostava de Donny Hathaway e botava muito Isaac Hayes para a gente ouvir.
Para “Mano” (que sairá em vinil ainda este ano, assim como a reedição de “Sonhos e memórias — 1941/1972”), Marcus estabeleceu duas regras: os rappers não podiam perder de vista a canção original (“é pensamento de dueto, não de remix”) e tinham que interagir com aquilo. Ele distribuiu as opções, sempre com faixas compostas por Erasmo.
— Vieram muitas músicas sobre amor, mas também sobre questões muito atuais. Engraçado que a semente estava lá, e aí, nos versos novos, essas coisas afloraram — observa.
O rapper Marcelo D2
Leo Martins
Rapper do Planet Hemp (que, em sua carreia solo, trouxe gravações de Claudya e de Antonio Carlos e Jocafi para uma nova geração ao sampleá-las em “Desabafo” e “Qual é?”), Marcelo D2 ficou com “Maria Joana”, uma não tão disfarçada ode à proibida Cannabis sativa.
— Tem tudo a ver comigo, né? — reconhece D2. — A personalidade do Erasmo é uma coisa muito marcante. Venho de uma geração que preza muito pela originalidade, e ele ajudou a gente escrever nossa história de forma original.
A capixaba Budah pegou o samba “Cachaça mecânica”, para o qual escreveu os versos de “Queimando tudo dentro”.
— O Erasmo sempre representou muita personalidade e verdade. Espero que o público possa ouvir essa releitura sentindo a energia e a força dessas canções que continuam tão marcantes.
Ao mais veterano Criolo coube cantar “Gente aberta”, cujo rap resultante, “Imensamente visceral”, foi feito por Tássia Reis.
— O Erasmo faz parte das memórias lá de casa. Estava na vitrola da Dona Vilani e do Seu Cleon, meus pais — conta. — Tive a honra de ter uma produção assinada por Edy Trombone, que é multi-instrumentista, e divide essa assinatura com o Bruno Buarque.
O rapper Criolo
Lucas Tavares
Destaque do novo rap nacional, Tássia Reis também recorre a lembranças para dizer que sempre foi influenciada por Erasmo, “mesmo sem saber”:
— Muitas canções me acompanharam na infância e adolescência, e na época eu nem sabia que eram suas.
Hoje em dia empresário de Roberto Carlos, Léo Esteves se diverte com a pergunta: Quando é que você vai convencer o Roberto a deixar você fazer um disco como ‘Mano’?
— Roberto é um tipo de artista que tem uma visão muito clara do que quer. Quando Roberto Carlos quer. Ele acorda artista, pensa no artista 24 horas por dia e só vai fazer isso quando ele tiver com vontade de fazer — garante ele, refratário a comentar disputas judiciais com a viúva de Erasmo, Fernanda Esteves (que recentemente teve que deixar o apartamento em que o casal vivia). — Só falo do meu pai para falar de música, ele queria ser lembrado pelas músicas. Nunca vou falar do meu pai fora desse contexto. Então, estou fazendo exatamente o que sempre fiz, trabalhando com ele em 40 anos, e sempre vou fazer: falar de projetos, falar de música, a exaltação do nome dele é através da música dele.
