Equador mobiliza 10 mil soldados para reforçar guerra contra o narcotráfico

 

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Dez mil soldados foram enviados na sexta-feira a três províncias costeiras do Equador para reforçar a luta contra a violência de grupos do narcotráfico. O governo do presidente Daniel Noboa está determinado a agir com rigor contra esses grupos, no momento em que o país registra recordes de homicídios e outros crimes.

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Centenas de soldados de forças especiais chegaram ao aeroporto de Guayaquil para "reforçar as operações de segurança" nas províncias vizinhas de Guayas, Manabí e Los Ríos, informou o general Mauro Bedoya, da Força Aérea Equatoriana. Ali se intensificou a guerra entre organizações do narcotráfico ligadas a cartéis internacionais, que disputam entre si o negócio das drogas.

Bedoya informou que militares também desembarcaram em Manta, onde fica o principal porto pesqueiro do país, e que registra níveis elevados de violência.

Devido ao pico de homicídios nos últimos dias, Noboa suspendeu suas férias e se reuniu com ministros da área de segurança e comandantes militares e policiais na sede da Presidência.

O centro colonial de Quito permanece sob forte vigilância. "A prisão ou o inferno para quem ameaçar a segurança", diz um comunicado divulgado pelo Ministério da Defesa, cujo titular, Gian Carlo Loffredo, ordenou que o comando militar opere por tempo indefinido a partir de Guayaquil, onde militares inspecionam os portos, estratégicos para o narcotráfico.

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O Equador está localizado entre a Colômbia e o Peru, maiores produtores mundiais de cocaína. Até uma década atrás, o Equador era um país tranquilo, mas se tornou o mais violento da região, com 52 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2025, ou um por hora, segundo o Observatório Equatoriano de Crime Organizado.

Em novembro, um novo relatório da consultoria International Crisis Group (ICG) revelou que o Equador vive sua pior crise de segurança em décadas, consolidando-se como um dos principais centros do narcotráfico para a Europa. A publicação, intitulada “Paradise Lost? Ecuador’s Battle with Organised Crime” (Paraíso Perdido? A batalha do Equador contra o crime organizado, em tradução livre), mostra que, sem sinais de diminuição da violência, o governo pretende intensificar sua postura repressiva, ampliando a cooperação com as Forças Armadas dos Estados Unidos e empresas de segurança privada. A relação do presidente equatoriano, Daniel Noboa, com o americano, Donald Trump, isenta-o da pressão militar de Washington, como a exercida sobre a vizinha Venezuela, ou ainda de sanções, como as aplicadas sobre o chefe de Estado colombiano, Gustavo Petro.

Segundo a ICG, o país tornou-se o mais violento da América do Sul em menos de uma década. O relatório associa a explosão da criminalidade à reconfiguração das rotas do tráfico após o acordo de paz na Colômbia em 2016, que "favoreceram a transformação do Equador em uma plataforma de exportação de drogas" — especialmente dos portos do Pacífico, como Guayaquil, hoje um dos principais pontos de saída dos traficantes rumo à Europa e aos Estados Unidos.

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O documento descreveu um cenário de colapso institucional e corrupção generalizada em portos, forças de segurança e no sistema prisional, que se transformou em um dos principais centros de comando das facções. Massacres dentro das penitenciárias — mais de 500 mortos desde 2021 — revelam, segundo a ICG, o domínio de gangues como Los Choneros e Los Lobos, que controlam alas inteiras e administram extorsões e tráfico a partir das celas.

O relatório reconheceu que o governo Noboa conseguiu reduzir brevemente os homicídios em 2024, mas alerta que a violência voltou a crescer neste ano, alcançando níveis recordes. A estratégia de recorrer às Forças Armadas em comunidades e presídios, afirma a ICG, tem tido efeitos efêmeros e colaterais graves, como denúncias de detenções arbitrárias e execuções extrajudiciais.

O texto ainda apontou que a militarização, somada ao enfraquecimento de instituições civis e cortes em programas sociais desde 2017, deixou comunidades pobres vulneráveis ao recrutamento por gangues. A organização recomenda que Quito "deveria fazer mais para levar serviços públicos e oportunidades econômicas lícitas aos bairros afetados pela criminalidade, ao mesmo tempo que combate a corrupção, que contribui para a onda de crimes". (Com AFP)