Professor da USP e autor de “História do PT”, Lincoln Secco afirma que o fim da escala 6x1, pauta que surgiu de fora do governo antes de ser encampada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ilustra como o partido estava desconectado de demandas da sociedade. O mesmo vale, diz, para o “exército” do deputado André Janones (Rede-MG), figura alheia à sigla e que foi responsável por mobilizar a campanha digital no segundo turno.
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No novo mandato, aponta o historiador, Lula terá o desafio de conciliar demandas das ruas com a realidade política de Brasília. Enquanto isso, Secco já vê o lulismo como uma cultura política semelhante ao peronismo argentino, repleto de correntes que passeiam pela esquerda e o centro.
Leia a seguir a entrevista: Quando Lula foi preso, em 2018, falou-se muito na necessidade de produzir novos nomes.
O lulismo ainda é muito refém de seu grande líder? Mais do que um movimento, o lulismo já se trata de uma cultura política.
Embora tenha origem na trajetória do Lula, é muito provável que sobreviva ao fim biológico dele, de uma forma talvez parecida com a do peronismo na Argentina. Quando olhamos para as experiências latino-americanas, e o peronismo é a mais importante delas nesse sentido, dá para projetar que já existe um lulismo de centro, outro de direita, um de esquerda mais radicalizado.
O peronismo teve essa característica. Dentro do governo atual e do PT, há alas mais liberais, e ao mesmo tempo Lula fez uma radicalização à esquerda do programa no segundo turno.
Foi a campanha petista mais mobilizada que o senhor já viu? Em 1989, a campanha de Lula teve uma grande adesão espontânea e massiva no segundo turno, mas naquela época as pessoas tinham uma relação mais orgânica com os partidos, sobretudo o PT.
Na de agora, a participação massiva veio de pessoas que têm relação menos orgânica com partidos, milhões de jovens que provavelmente participaram de sua primeira campanha eleitoral. Pegavam a bandeira do PT porque era a que estava à disposição, não significa que tinham uma identificação natural com o partido.
Mas, ao mesmo tempo, o partido foi o único instrumento possível para nuclear essa participação popular, que se deu em torno do PT e de Lula. Dificilmente aconteceria com outro partido hoje.
O historiador Lincoln Secco compara a mobilização em torno da campanha de Lula, no segundo turno de 2026, com o movimento das Diretas Já na década de 1980 Reprodução
Na Nova República, vê algum movimento de rua tão forte quanto esse tendo como objetivo algo institucional? É diferente de junho de 2013, por exemplo. Se pensarmos nos grandes movimentos de massa da Nova República, teve o de agora, o de junho de 2013, que foi muito ambíguo do ponto de vista político, as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor e a maior de todas, que foram as Diretas Já.
As Diretas tinham um objetivo institucional também. Desse ponto de vista, pensando em ter um objetivo central, o que aconteceu agora é mais parecido com as Diretas Já.
Como conhecedor do partido, o que imagina que ficará de legado dessa mobilização? Veja o que aconteceu do primeiro para o segundo turno.
Quase não teve gente importante da burocracia do partido com relevância nessas manifestações. Daqui para frente, o que se desenha é um governo de bastante instabilidade e confronto por causa da composição do Congresso.
Apesar da crise do bolsonarismo com a fuga de Flávio, eles têm uma bancada ideológica que é a maior da Nova República. As ruas esperam que o governo mantenha seus compromissos do segundo turno, mas como fará isso mantendo a mesma composição de centro e até centro-direita que tem o atual governo? Lula tem capacidade de mobilizar as pessoas, mas esse não é o padrão do PT enquanto governo desde 2003.
Qual é o tamanho do fim da escala 6x1, que originalmente não era uma pauta do governo, à luz da história do PT no mundo trabalhista? Essa pauta ajuda a mostrar como a direção do PT estava desconectada da sua base social histórica.
O mesmo vale para o exército digital do Janones. Foi preciso que um deputado que não é do PT, com estrutura mais precária, criasse algo que podia ter nascido da estrutura do partido, que tem muito mais recursos para isso.
No caso da 6x1, a defesa da diminuição da jornada de trabalho é uma pauta clássica dos trabalhadores desde o século XIX, mas isso precisou vir de um influenciador do Rio de Janeiro (Rick Azevedo), depois eleito, que iniciou um movimento que não veio das centrais sindicais. Há uma desconexão com a demanda dos trabalhadores.
O fim da 6x1 ainda é uma pauta muito focada no trabalho formal. As mudanças no mundo do trabalho são o principal desafio do partido?
Esse assunto é mal compreendido pela direção do PT. Falam como se a classe trabalhadora como um todo agora fosse de aplicativos.
Quando olhamos os números, é uma categoria relevante e multifacetada, não uma coisa única. Ao mesmo tempo, não é dominante.
Por incrível que pareça, ainda temos mais trabalhadores da indústria do que de aplicativos, além de categorias mobilizadas com as quais o partido não fala mais. É um desafio, mas o governo e o PT não podem responder só com discurso de ideologia do empreendedorismo, que tem sido a resposta.
Uma coisa é reconhecer que existe um discurso de autonomia e liberdade desses trabalhadores, mas sem esquecer que trabalham para aplicativos que são grandes empresas. Vale lembrar também que um dos motes do do atual mandato era reindustrializar o país.
O Globo