Cada um no próprio carro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente pelo PL, chegaram a um hub de tecnologia da Prefeitura de São Carlos, a cerca de 230km da capital paulista, para um ato de campanha em conjunto. Era 4 de setembro, uma sexta-feira quente. A corrida eleitoral tinha começado fazia três semanas, mas tratava-se do primeiro evento “solo” da dupla — antes, estiveram juntos apenas em encontros promovidos por terceiros, como a Festa do Peão de Barretos. Apuração: Acompanhe aqui todos os resultados pelo Brasil 'Com 17% de indecisos na espontânea, tudo pode acontecer': Em live, colunistas do GLOBO veem disputa presidencial aberta Depois de se encontrarem no estacionamento, os dois aliados foram para um espaço montado com tenda, cadeiras, telão e púlpito. Concederam uma rápida entrevista e saíram, cada um em seu carro, para um segundo compromisso, uma visita ao Mercado Municipal. Lá, protagonizaram um rápido corpo a corpo com eleitores. Primeiro Tarcísio, depois Flávio. Quando ambos finalmente subiram juntos em um trio elétrico, diante do público vestido de verde e amarelo, não teve abraços entre eles, apenas rápidas menções um ao outro nos discursos. “Apoia, mas não abraça” As cenas de São Carlos seguiram um script planejado por Tarcísio desde antes da campanha: não entrar de cabeça na corrida de Flávio ao Planalto. Ou, nas palavras de pessoas próximas ao governador: “ele apoia, mas não abraça”. A tática teve três motivos principais: fugir das “encrencas” de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, e o filme “Dark horse”; evitar desagradar a eleitores dispostos a votar em Tarcísio e Lula (o voto “Tarula”); e manter aberto o caminho do governador para a eleição presidencial de 2030. O cenário só começou a mudar há cerca de duas semanas, quando Tarcísio, favorito para vencer o ex-ministro Fernando Haddad (PT) já neste primeiro turno, gravou uma live com Flávio, seguida de três atos conjuntos — um rodeio em Jaguariúna (dia 25), uma caminhada pelo Brás, a maior área de compras populares de São Paulo, e uma tumultuada visita ao Mercado Municipal (ambas no dia 28). Diante da competitividade que a candidatura Flávio demonstrou na reta final, ficou impossível se desconectar do aliado. Preterido por Jair Bolsonaro para disputar a eleição presidencial, mesmo com a preferência da Faria Lima e do Centrão, Tarcísio, caso confirme o favoritismo e siga mais quatro anos no Palácio dos Bandeirantes, se mantém como um dos principais nomes para 2030. Mas, para isso, vive uma espécie de paradoxo. Caso Flávio perca a eleição, os caminhos do governador ficam mais livres. Se vencer, porém, o candidato natural da direita nas próximas eleições quase certamente será Jair ou o próprio Flávio (caso descumpra sua promessa e tente um segundo mandato). Em março, Flávio protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da reeleição, como uma sinalização para que partidos e políticos de seu campo embarcassem em sua empreitada eleitoral. Dois meses depois, num evento em Santa Catarina, afirmou que, caso eleito, seu governo pode durar “até oito anos”: — O meu sonho, e o que eu vou realizar, é acabar o governo, Jorginho (Mello, governador de SC), seja daqui a quatro, daqui a cinco, daqui a oito anos, onde a gente vai poder bater o peito e falar: “Menos pessoas dependem de políticos para levar comida para dentro de casa e levar dignidade para as suas famílias”. Para Tarcísio, Flávio, se eleito, honraria o fim da reeleição. — Flávio procurou fazer um gesto, ser signatário de uma emenda de fim da reeleição. Porque alguma coisa deixa de ser feita.... Porque aquele incumbente pensa: “tenho que me reeleger, não posso fazer isso, é impopular”. A gente precisa de pessoas que tomem o desgaste, que façam aquilo que precisa ser feito. Acredito que Flávio, caso seja eleito, vai honrar (o fim da reeleição), até porque ele é signatário da PEC — afirmou Tarcísio, em sabatina dos jornais O GLOBO e Valor e da Rádio CBN, em agosto. As esperanças de Tarcísio, porém, não são corroboradas por analistas. — Caso o Flávio vença, ele será candidato à reeleição. A não ser que ele passe por uma crise gigantesca e inviabilize o nome da família, os Bolsonaro não abrirão mão do poder — afirma o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV). — O futuro da família passa pela eleição do Flávio. Já o futuro do Tarcísio passa pela derrota do Flávio. O eventual revés do filho de Bolsonaro nestas eleições abriria mais portas para a candidatura de Tarcísio, mas também não há certeza de que o governador se mostrará viável. Além de deixar uma marca após oito anos no Palácio dos Bandeirantes, ele precisará construir seu nome nacionalmente. Outro fator que pode atrapalhar os planos de Tarcísio seria a ascensão de novos nomes nacionais da direita, como Michelle Bolsonaro. Além disso, não há garantias de que Flávio, se derrotado agora, não possa reaparecer como opção em 2030, segundo um coordenador de sua campanha. Para esse aliado, “ninguém acreditava na viabilidade dele”, mas a poucos dias do pleito os números mostram a corrida indefinida. Ou seja, mesmo com uma eventual derrota, Flávio vai “sair grande”, diz o colaborador. Caso Jair continue preso, a mobilização em torno de sua marca vai persistir, a despeito de seus principais atores diretos — Flávio e Eduardo — ficarem sem mandato. — Quem vai perder sempre fala que vai “sair gigante”. Que derrota deixa a pessoa gigante? Derrota é sempre derrota. Na minha leitura, a derrota de Flávio fragmenta o campo da direita e abre oportunidade de outros nomes, inclusive para Tarcísio, que é candidato mais forte. Mas isso vai depender de algumas variáveis — afirma o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Entre essas variáveis, lista Prando, está a necessidade de “sair da bolha de São Paulo” para que o governador seja conhecido nacionalmente. — Tarcísio vai precisar percorrer o Brasil, nacionalizar alguns temas. Na hipótese do Lula ser reeleito, ele terá que entrar em mais embates com o presidente — diz Prando. Nesse cenário, também pesará a situação de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão. Se Lula for reconduzido ao Planalto, o ex-presidente, com pouca possibilidade de reversão da sentença, tenderia a perder protagonismo. Nesse caso, é incerto se caberia a ele, novamente, avalizar a escolha do próximo postulante da direita. Embora o entorno de Flávio afirme que o bolsonarismo seguiria vivo, pois os filhos continuariam “no combate” e Michelle tem grandes chances ao Senado, especialistas avaliam que a tendência é o movimento perder tração. — Eu apostaria que a figura do Jair Bolsonaro vai entrar em declínio. Ele foi condenado faz um ano, faz muito pouco tempo. Antes, ele já tinha sido declarado inelegível. Foi uma coisa que gerou uma certa comoção no bolsonarismo, colocou Jair como vítima, o que também criava um problema para quem quisesse disputar sua liderança. A tendência é a força dele esmorecer. Aí o restante da extrema-direita e do Centrão poderá pressionar a família: “olha, a gente vai precisar tirar a gestão desse capital político da mão da família Bolsonaro — afirma o filósofo Rodrigo Nunes, autor do livro “Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição”. Entregas de obras em SP No primeiro mandato, Tarcísio entregou principalmente obras paradas de governos anteriores, como estações de metrô e o trecho Norte do Rodoanel (a última parte deverá ficar pronta no mês que vem). Numa nova gestão, pode deixar marcas próprias e, para isso, aposta em dois grandes projetos: a universalização da rede de esgoto, prometida para 2029, após a privatização da Sabesp; e a construção do novo centro administrativo, no Centro da capital, região da Cracolândia, que sua gestão afirma ter extinto. Tarcísio também precisará lidar com questões “mal resolvidas” nos quatro primeiros anos, nas palavras de um aliado da Assembleia Legislativa. Uma delas são as queixas das polícias: baixos salários e a constante perda de efetivo. Embora o governo diga que houve recomposição salarial para as polícias Militar e Civil, entidades ligadas às duas forças passaram quatro anos criticando as políticas de Tarcísio no setor. Há ainda problemas na educação (Tarcísio não cumpriu a meta de colocar 60% dos alunos no Ensino Médio em tempo integral), na agricultura (“o agro não recebeu o devido apoio”, diz o parlamentar da base), na segurança e na saúde. Um aliado de primeira hora do governador diz que Tarcísio vai conseguir entregar as promessas a tempo de alavancar seu nome nacionalmente, pois é “obstinado”. Perguntado sobre quando Tarcísio começará a colocar a campanha presidencial “na rua”, se de fato for reeleito hoje, ele responde sem titubear: “segunda-feira”. Cobertura do 1º turno Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal. No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado.
Entre o favoritismo e o dilema: Tarcísio já mira 2030, mas idas e vindas na relação com Flávio expõem desafio
Fonte da notícia:
O Globo
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