Entre livros e cinema negro, Maré vive nova fase cultural com projetos gratuitos
Thalles Ricardo Ferreira de Oliveira, de 12 anos, morador do Complexo da Maré, sempre gostou de desenhar. Foi a partir das histórias em quadrinhos e do incentivo da mãe que ele começou a se aproximar da leitura. Depois de um período de dificuldades na escola, encontrou no projeto Leituras na Favela um espaço para recuperar o interesse pelos estudos. Gostou tanto que voltou este ano. Hoje, participa das atividades, lê mais e já se arrisca a criar suas próprias histórias.
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Retomado recentemente, o Leituras na Favela chega ao quinto ano com oficinas semanais gratuitas na Biblioteca Municipal Jorge Amado, na Areninha Cultural Herbert Vianna, com atividades previstas até o dia 12 de maio. Ao mesmo tempo, o Galpão Bela Maré vive um momento simbólico: o espaço cultural completa 15 anos em 2026 com instalações requalificadas e uma programação que reúne exposições, cursos, atividades de leitura e sessões de cinema seguidas de debate. A agenda deste mês inclui iniciativas como o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul e a exposição “Onde a língua goteja pedra”, dos artistas Carla Santa e Gilson Plano.
Criado em 2021 por Anderson Oli e Camila Mendes, educadores e moradores da Maré, o Leituras na Favela nasceu durante a pandemia, inicialmente de forma on-line, com foco em estudantes do pré-vestibular. Desde 2022, passou a acontecer presencialmente e, ao longo de cinco anos, já atendeu cerca de 450 alunos.
Visitantes no salão do Bela Maré acompanham a exposição em cartaz
Divulgação/Thaís Velancio
Atualmente, o projeto reúne crianças e adolescentes de 5 a 15 anos, estudantes da rede municipal, em encontros que combinam leitura, atividades lúdicas e rodas de conversa. A proposta é aproximar os participantes dos livros a partir de histórias que dialogam com suas vivências, com uma curadoria que prioriza autores negros, indígenas, mulheres e periféricos.
A mãe de Thalles, Taiane Ferreira, acompanhou de perto essa transformação:
— O ano passado foi essencial para o desempenho dele na escola. Ele ama o projeto e também o lanchinho que ganha no término das aulas.
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Os educadores destacam que o impacto vai além da leitura e alcança o cotidiano das famílias.
— A criança se torna uma ponte de interlocução de saberes dentro de casa. Quando a leitura reverbera na família, o impacto é muito maior. Ao longo das oficinas, os participantes ganham confiança para se expressar, ampliam o repertório e passam a se reconhecer nas histórias. Muitos começam a escrever seus próprios textos ou a se expressar artisticamente a partir das leituras. — diz Camila Mendes.
Anderson Oli, do projeto Leitura na Favela, que acontece na Maré, conta história para crianças, com tradução em Libras
Divugalção/Thiago Santos
As atividades incluem ainda música, narração de histórias e passeios culturais. No encerramento, o sarau reúne alunos e familiares em apresentações de poesias, textos e músicas.
Anderson Oli destaca que o projeto vem se tornando mais inclusivo, com a participação recente de crianças autistas.
— Neste momento, estamos atendendo algumas crianças autistas, o que não era uma realidade nas outras edições. Queremos ampliar essa participação — afirma
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Ele ressalta que o processo ainda é de aprendizado, mas já mostra resultados no vínculo com as famílias:
— Estamos aprendendo, mas o engajamento das famílias mostra como a metodologia funciona.
O interesse das crianças também chama a atenção.
— Eles querem estar ali, é uma atividade divertida. Ficam tristes quando o ciclo acaba. Nosso sonho é manter o projeto de forma ininterrupta, mas sem patrocínio ainda não é possível — completa.
Esse percurso encontra continuidade no Galpão Bela Maré, que chega aos 15 anos com novidades estruturais e uma agenda em expansão. O espaço passou por requalificação recente, com melhorias na galeria de exposições e na sala multiuso, que agora contam com nova iluminação, sistemas elétrico e hidráulico atualizados e climatização.
A programação atual reflete esse momento, com destaque para o cinema. A sala do CineBela vem se consolidando como espaço de exibição e debate, com sessões seguidas de conversas abertas com o público. Este mês, essa vocação ganha força com a realização do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, com três sessões ao longo da próxima quinta, levando ao espaço uma seleção de filmes voltada à presença negra no audiovisual, com curadoria do Centro AfroCarioca de Cinema.
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Além do encontro, o CineBela mantém sua dinâmica de cineclube, promovendo sessões que estimulam a troca entre público e obras exibidas, como na exibição do filme “A vida secreta de meus três homens”, que propõe reflexões sobre memória e história no Brasil.
A coordenadora Anna Luisa Oliveira destaca a importância desse movimento:
— As programações de cinema, leitura e exposições garantem o direito à arte e à cultura e abrem caminhos para que essas pessoas se reconheçam também como criadoras.
Idealizado pelo Observatório de Favelas, em parceria com a produtora Automatica, o Galpão Bela Maré foi inaugurado em 2011, na Nova Holanda, a partir da exposição “Travessias da arte contemporânea na Maré”. Desde então, o espaço se estrutura na articulação entre arte, educação e território, com o objetivo de afirmar a favela como um lugar legítimo de produção cultural.
Ao longo dos anos, o galpão ampliou suas frentes de atuação e consolidou uma programação contínua, funcionando de terça a sábado e recebendo públicos diversos. Além das exposições, o espaço oferece cursos, oficinas e atividades educativas, mantendo diálogo constante com escolas, organizações sociais e equipamentos públicos.
Um dos marcos dessa trajetória foi a criação, em 2019, da ELÃ — Escola Livre de Artes, voltada à formação de artistas de favelas e periferias. Desde então, quase cem participantes passaram pelo programa, muitos deles hoje inseridos no circuito artístico.
No dia a dia, Anna Luisa explica que o Galpão funciona como um ponto de encontro aberto, frequentado por moradores, estudantes e artistas. Ao longo das horas, o espaço se transforma com visitas às exposições, atividades formativas e a presença constante de crianças no pátio, em uma rotina que mistura convivência, aprendizado e acesso à cultura.
— Em um dia comum no Galpão, vocês poderão observar exposições de arte, atividades de leitura e sessões de cinema acontecendo. Além disso, é possível visualizar crianças brincando no pátio, estudantes de artes em formação, equipe de trabalho circulando pelo espaço, e, se for um sábado de muito calor, certamente haverá uma piscina montada e muitas crianças se refrescando — diz ela.
Os encontros do projeto Leituras na Favela são às terças-feiras na Biblioteca Municipal Jorge Amado, localizada na Areninha Cultural Herbert Vianna, na Maré. A agenda é dividida por faixa etária. Às 15h, há narração de histórias voltada para crianças de 5 a 10 anos. Em seguida, às 16h, ocorre a leitura compartilhada para jovens de 11 a 15 anos. O projeto é realizado pelo edital Territórios em Foco, com incentivo do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, via Política Nacional Aldir Blanc.
Hoje, às 13h, o Galpão Bela Maré recebe o lançamento da revista aMARélo, reunindo produções de comunicadores de diferentes favelas do Rio. Quinta, a partir das 15h, o espaço sedia o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, com exibições seguidas de debate no CineBela. Até terça, segue em cartaz a exposição “Onde a língua goteja pedra”, aberta hoje e terça, das 10h às 18h. Ao longo do restante do mês, a programação inclui encontros semanais do Clube de Leitura, às quintas, às 19h; o curso “Sinalário do Bela: afrofuturismo e Libras criativa”, às terças, das 17h às 18h, além de atividades itinerantes como o Espaço de Leitura Indica, no dia 28, às 14h; e o Espaço de Leitura Contação, no dia 30, às 16h.
O Galpão Bela Maré é apresentado pelo Ministério da Cultura e Observatório de Favelas, em parceria com a Automatica, com patrocínio de Vale, Itaú Unibanco e White Martins, e apoio do Itaú Cultural e Instituto JCA.
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