Entre a inteligência artificial e a perda da inteligência humana

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Vive-se em uma época marcada por uma contradição curiosa. Nunca houve tanto acesso à informação e a tecnologias capazes de facilitar nossa vida, mas sugere-se que estamos perdendo algumas das capacidades mais básicas de pensar, criar, interpretar e produzir conhecimento.

A inteligência artificial (IA), apresentada como uma das maiores revoluções tecnológicas do nosso tempo, pode ser extremamente útil. No entanto, seu uso indiscriminado também merece ser questionado, principalmente quando passa a substituir aquilo que deveria ser desenvolvido pelo próprio ser humano. Na educação, essa questão se torna ainda mais preocupante. Em vez de utilizar a tecnologia como instrumento de pesquisa, apoio e aprofundamento do conhecimento, muitos estudantes recorrem a IA para realizar praticamente todas as etapas sobre pesquisar, escrever, resumir, responder e até formular opiniões. O problema não está em utilizar a IA, mas em permitir que ela pense no lugar do estudante. Se uma pessoa deixa de ler, interpretar, escrever e argumentar porque uma ferramenta faz isso por ela, o resultado pode ser uma aparente facilidade acompanhada de uma verdadeira perda de aprendizagem. A queda de indicadores educacionais em diferentes contextos deve nos levar a refletir sobre essa realidade. É evidente que não se pode atribuir problemas históricos da educação exclusivamente ao uso de tecnologias. Existem desigualdades sociais, dificuldades de aprendizagem, falta de investimentos, problemas de formação docente e inúmeros outros fatores. Entretanto, não podemos ignorar que uma geração cada vez mais acostumada a respostas instantâneas pode estar desenvolvendo menos paciência para o esforço intelectual. Aprender exige tempo, dúvida e concentração. Nem tudo que é difícil precisa ser imediatamente facilitado por um aplicativo. Essa mudança também pode ser percebida na cultura. Na música, por exemplo, plataformas digitais e seus sistemas de recomendação influenciam fortemente aquilo que ouvimos. Artistas passam a disputar espaço em um ambiente no qual algoritmos valorizam determinados formatos, estilos, durações e padrões de consumo. Como consequência, existe o risco de que a criação artística seja orientada mais pelo que funciona para o algoritmo do que pelo desejo genuíno de experimentar e criar.

O mesmo fenômeno pode ser observado nos livros e nos filmes. A produção cultural passa a conviver com algoritmos que sugerem o que devemos ler ou assistir com base naquilo que consumimos anteriormente. Isso oferece comodidade, mas também pode criar uma espécie de círculo fechado, ou seja, recebemos mais do que conhecemos e menos daquilo que poderia nos surpreender.

Não se trata de defender o abandono da tecnologia ou de imaginar que seja possível voltar a um mundo sem internet ou IA. A questão é sobre decidir quem controla a tecnologia e, principalmente, quem controla nosso modo de pensar. Uma ferramenta deveria ampliar nossas possibilidades, mas nunca diminuir nossa autonomia. Talvez uma das respostas mais simples para esse problema seja justamente recuperar hábitos que parecem antigos, mas continuam essenciais como ler, escrever, ouvir música com atenção, assistir a filmes diferentes, conhecer novos autores e desenvolver o pensamento crítico. Retomar a leitura de bons livros é uma forma de resistência em uma sociedade acostumada à velocidade. Um bom livro não entrega necessariamente uma resposta imediata, mas obriga a permanecer diante de uma pergunta, acompanhar uma ideia e construir nossa própria interpretação. A IA pode produzir textos, imagens, músicas e até roteiros em poucos segundos. Mas isso não significa que devemos entregar a nossa capacidade de imaginar, questionar e criar. O futuro não deveria ser aquele em que máquinas fazem tudo e seres humanos apenas consomem. O verdadeiro avanço será aquele em que utilizaremos a tecnologia sem renunciar àquilo que nos torna humanos, destacando valores como a curiosidade, sensibilidade, criatividade e a capacidade de pensar por nós mesmos. Mais Lidas

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