247 – Um levantamento apontou que o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC) somam R$ 184,76 milhões em acordos, patrocínios e emendas parlamentares com verbas públicas, informa o G1. As duas entidades são comandadas pela empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL).
Do montante global mapeado, ao menos R$ 133,18 milhões já foram quitados às instituições, enquanto o valor restante compreende emendas ainda retidas e parcelas contratuais pendentes de confirmação de pagamento. Investigações da Polícia Federal, da Polícia Civil e da Controladoria-Geral da União (CGU) apuram se verbas de projetos governamentais e de emendas destinadas às organizações teriam sido desviadas para bancar a produção cinematográfica, embora a mera existência dos contratos não confirme que o longa-metragem tenha sido financiado com esses recursos.
A maior fatia dos repasses origina-se da Prefeitura de São Paulo, que firmou em junho de 2024 uma parceria de R$ 108 milhões com o ICB para implementar 5 mil pontos de internet sem fio em comunidades vulneráveis. Um aditivo posterior elevou o contrato para R$ 157,18 milhões, dos quais R$ 113,9 milhões foram pagos até maio de 2026 para a instalação de 3,2 mil pontos.
Relatório da Polícia Civil paulista contesta a execução e indica que, em determinado período, os serviços prestados equivaleriam a R$ 43 milhões, enquanto R$ 69 milhões foram repassados, gerando uma diferença investigada de R$ 26 milhões. Após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o bloqueio das verbas para as entidades de Karina, a gestão municipal paralisou os repasses e solicitou prazos para substituir o instituto a fim de manter o serviço ativo.
Em nota, a prefeitura paulistana declarou não ter identificado irregularidades na celebração do acordo nem repasse de verbas municipais ao filme, destacando que a Controladoria-Geral do Município instaurou apuração em maio de 2026. Além da conectividade, o ICB possui R$ 7,15 milhões em outros compromissos com o município de São Paulo, divididos entre o Encontro Literário IDE de 2018 (R$ 2,5 milhões), edições do evento educacional Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora (RIEFA) de 2023 a 2025 (R$ 2,05 milhões ao todo), uma imersão tecnológica (R$ 100 mil) e patrocínio da São Paulo Negócios para o Tech Friday Santa Ifigênia (R$ 2,5 milhões).
No caso do evento de 2018, a prestação de contas foi aprovada com ressalvas no Diário Oficial em 2020. Fora da capital paulista, o levantamento identificou repasses de outros órgãos e esferas governamentais:
Sesi: O Conselho Nacional da entidade repassou R$ 11,98 milhões ao ICB entre 2017 e 2019. Auditorias da CGU apontaram sobrepreço de R$ 270 mil no projeto Fórmula Truck Kids e de R$ 1,31 milhão em feiras no Pará.
Em 2023, o Sesi acionou a Justiça em nove ações buscando reaver cerca de 70% do total concedido. Governo do Distrito Federal: A Fundação de Apoio à Pesquisa do DF destina R$ 5 milhões ao projeto de transformação digital escolar Steam Maker.
Emendas federais: O deputado federal Mario Frias (PL-SP) direcionou R$ 2 milhões ao ICB. O Ministério da Ciência reprovou a prestação de contas do projeto Jovem Empreendedor 4.0 (R$ 1 milhão) e exigiu a devolução integral das verbas por falta de comprovação de treinamento, enquanto a Polícia Federal apura uma transferência de R$ 750 mil enviada pela fornecedora do convênio à produtora Go Up.
Frias negou qualquer irregularidade e classificou as apurações como “cortina de fumaça”. O projeto Lutando Pela Vida (R$ 1 milhão), via Ministério do Esporte, segue registrado como em execução.
Emendas estaduais e outras destinações: O ICB recebeu R$ 100 mil de uma emenda da deputada estadual Valéria Bolsonaro (PL-SP) para compra de equipamentos. Já a ANC teve confirmados R$ 200 mil da Secretaria de Cultura de SP enviados pelo deputado Gil Diniz (PL-SP) para a obra Heróis Nacionais.
Outras emendas para o mesmo projeto documental — R$ 1 milhão do deputado Marcos Pollon (PL-MS) e R$ 150 mil da deputada Bia Kicis (PL-DF) — não foram liberadas por ausência de comprovação de direitos autorais. Pollon declarou não conhecer Karina, afirmou ter solicitado em março de 2026 o cancelamento e a transferência do recurso para o Hospital de Amor de Barretos e enfatizou que “nenhum valor de sua emenda foi repassado à ANC ou utilizado para financiar Dark Horse”.
A fiscalização dos recursos continua sendo analisada por diferentes instâncias de controle. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo avalia as contas do exercício de 2025 entregues em 2026.
Por sua vez, o Tribunal de Contas da União confirmou a realização de uma auditoria para verificar a eventual aplicação indevida de verbas públicas, emendas e benefícios fiscais na realização do longa-metragem sobre o ex-presidente.
Brasil 247