Ensino 4.0: IA transforma dúvidas em aulas sob demanda e personaliza aprendizado profissional

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Imagine a cena: um vendedor tenta negociar um carro recém-lançado ao cliente, mas não sabe responder algumas perguntas que ele faz. As informações haviam sido apresentadas em um treinamento meses atrás, mas não estão mais frescas em sua memória.

Pelo WhatsApp, ele consulta um tutor virtual abastecido com manuais e documentos da empresa. Em poucos segundos, a inteligência artificial esclarece a dúvida e apresenta o conteúdo necessário para aquele atendimento. Essa experiência já faz parte da rotina de algumas empresas. A inteligência artificial está transformando a microaprendizagem, método baseado em conteúdos curtos, práticos e de rápida assimilação, geralmente consumidos em até dez minutos e apresentados em formatos dinâmicos semelhantes aos popularizados pelo TikTok.

As plataformas deixam de apenas recomendar cursos de acordo com os interesses do usuário e passam a personalizar toda a jornada, reorganizando a sequência das aulas, adaptando exercícios, aprofundando temas que geram dificuldade e respondendo a perguntas em tempo real. No treinamento corporativo, as dúvidas dos funcionários também se tornam dados capazes de revelar lacunas de conhecimento e orientar novas ações de capacitação. Essa personalização é uma das principais promessas do chamado Ensino 4.0. Relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial apontou a capacidade de adaptar conteúdos e experiências às necessidades individuais como uma das quatro grandes contribuições da IA para a educação.

A tecnologia pode identificar dificuldades durante a aprendizagem, oferecer feedback mais rápido e ajustar o percurso de acordo com o desempenho, o repertório e até as necessidades de acessibilidade de cada pessoa. “Ao utilizar a IA, podemos adaptar a experiência de aprendizagem às necessidades de cada indivíduo, melhorando o desempenho acadêmico e atendendo, de forma integrada, a diversas necessidades de aprendizagem. Interfaces personalizáveis surgem como recursos valiosos, beneficiando principalmente alunos neurodivergentes e aqueles com diferentes capacidades físicas”, informou o relatório. Plataforma Ollie Divulgação A Coursera apostou nessa tendência e lançou no mês passado o Ollie, aplicativo de microaprendizagem disponível para assinantes do Coursera Plus — plano de assinatura que oferece acesso a mais de 90% do catálogo da plataforma.

A ferramenta organiza conteúdos produzidos por universidades e empresas parceiras em vídeos de aproximadamente 90 segundos, acompanhados de exercícios e recomendações personalizadas de acordo com os interesses e as interações de cada usuário. Entre as instituições que fornecem cursos à plataforma estão Google, IBM, Universidade Stanford e Universidade Duke, nos Estados Unidos, além da FIA Business School, em São Paulo. O vídeo curto é a parte mais visível da ferramenta, mas não é sua principal mudança. A diferença está na tentativa de substituir uma sequência previamente definida por uma trilha que se modifica enquanto o aluno avança. Duas pessoas interessadas no mesmo tema podem receber conteúdos diferentes conforme suas escolhas, respostas e pontos de dificuldade. “Os conteúdos são reforçados por exercícios de recuperação ativa, inteligência artificial conversacional e materiais personalizados de acompanhamento. Com isso, o aluno pode aprofundar progressivamente sua compreensão”, afirma Dorota Zawistowska-Ford, diretora de enterprise para a América Latina da Coursera.

Segundo ela, as trilhas podem abordar temas como inteligência artificial, ciência de dados e segurança cibernética, utilizando materiais já disponíveis na plataforma. Dorota Zawistowska-Ford, diretora da Coursera Divulgação Educação corporativa sob medida Na educação corporativa, a personalização avança por outro caminho. Em vez de se limitar à recomendação de aulas, grandes empresas estão abastecendo sistemas de inteligência artificial com documentos internos e transformando as plataformas em tutores disponíveis durante a jornada de trabalho. Assim, cada resposta a uma dúvida do funcionário se torna um microconteúdo produzido sob demanda. Na Revvo, esse tutor pode ser acessado pelo WhatsApp. A base de conhecimento é definida pela empresa contratante e pode reunir cursos já oferecidos, manuais de equipamentos e políticas internas. O objetivo é encurtar a distância entre o momento em que o conteúdo é ensinado e aquele em que o funcionário precisa aplicá-lo. “A gente alimenta a IA com uma base de conhecimento que pode vir do curso, do manual de um equipamento ou das políticas da empresa. Essa base é privada. O colaborador conversa pelo WhatsApp com um tutor virtual e faz a pergunta quando surge a necessidade”, afirma Richard Uchoa, CEO da edtech. Richard Uchoa, CEO da edtech Revvo Divulgação Segundo o empresário, a ferramenta também amplia o conhecimento das organizações sobre as necessidades de suas equipes. Enquanto uma plataforma convencional registra inscrições, tempo de acesso, desempenho em testes e conclusão de cursos, o tutor conversacional identifica as dúvidas que surgem durante o trabalho, inclusive aquelas que não foram previstas por quem elaborou o treinamento.

“A ferramenta descobre se existe uma dúvida comum entre os funcionários e se a empresa precisa treinar as pessoas naquele tema”, explica Uchoa. Personalização na formação docente Na formação continuada de professores, a Fundação Telefônica Vivo prepara uma transformação semelhante no Escolas Conectadas. Criada em 2015, a plataforma oferece cursos online e autoinstrucionais para professores da educação básica. A IA começa a ser incorporada por meio da Dora, assistente virtual desenvolvida para orientar a navegação, esclarecer dúvidas e facilitar a descoberta de conteúdos. O projeto prevê a evolução da ferramenta, hoje baseada em uma árvore de decisão, para uma arquitetura com múltiplos agentes de IA. A expectativa é que a Dora passe a identificar dúvidas recorrentes, recomendar conteúdos compatíveis com o repertório e as necessidades de cada professor e oferecer suporte ao longo de diferentes etapas da aprendizagem. Plataforma "Escolas Conectadas" da Fundação Telefônica Reprodução “Queremos compreender quais problemas concretos precisamos ajudar o professor a resolver. Essa mudança de perspectiva é fundamental para que a plataforma continue relevante e aderente ao cotidiano das escolas”, afirma Karina Daidone, gerente sênior de programas, plataformas e voluntariado da Fundação Telefônica Vivo. Um dos desafios é atender educadores em diferentes estágios de letramento digital. Enquanto alguns ainda desenvolvem competências básicas, outros já buscam conteúdos sobre inteligência artificial, análise de dados e pensamento computacional. Em um catálogo tradicional, cabe ao próprio usuário descobrir por onde começar. Em uma jornada personalizada, a plataforma procura reconhecer seu nível de conhecimento e indicar uma progressão adequada. De acordo com a fundação, a estratégia já se apoia em uma operação de grande alcance. O Escolas Conectadas recebe cerca de 1 milhão de acessos por ano e contabilizou mais de 590 mil inscrições de educadores nos últimos cinco anos. “A tecnologia não é apenas vitrine. Ela sustenta uma operação educacional em escala, orientada por dados e comprometida com a experiência do educador”, conclui Karina. Mais Lidas Banner da Série Tendências para o Futuro Clayton Rodrigues

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