Enquanto governo prepara pacote, EXTRA traz 8 dicas para começar a acertar suas finanças
A sete meses da eleição presidencial, o governo Lula corre para tentar reduzir o alto nível de endividamento que corrói a renda de boa parte da população. É uma tentativa de não descumprir uma das principais promessas da campanha eleitoral que o levou ao Planalto pela terceira vez.
O petista prometera criar uma saída para as famílias com dificuldades de lidar com contas em atraso, atacando os níveis recordes de endividamento do fim do governo de Jair Bolsonaro, na esteira da pandemia. Lançou o programa Desenrola, de renegociação de débitos, logo em 2023, mas não alcançou as condições fiscais para ajudar o Banco Central derrubar os juros. Após três anos, o endividamento está no mesmo patamar de 2022, com o agravante de que a parcela da renda do brasileiro destinada ao pagamento de dívidas aumentou.
Agora, o plano em discussão com os bancos é um novo programa de renegociação de dívidas em atraso, em formato mais simples e mais curto que o Desenrola. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve-se dar um desconto de até 80% na dívida, com o refinanciamento do restante. Ainda está em discussão se será imposta uma taxa para os novos contratos.
A proposta inicial é restringir as negociações a débitos no cartão de crédito, no cheque especial e no crédito pessoal sem garantia.
O programa também deve incluir uma solução para evitar que as pessoas se endividem novamente. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo cogita impor algum veto a apostas em bets para quem ingressar no programa e estender os benefícios a pequenos empreendedores com CNPJ, como microempreendedores individuais.
Para quem não quer esperar o programa para começar a se organizar financeiramente, o EXTRA traz ao lado oito dicas para já ajustar seu orçamento
O auge do endividamento ocorreu em julho de 2022, quando a relação entre o saldo das dívidas das famílias e a renda acumulada em 12 meses chegou a 49,9%, desconsiderando o financiamento da casa própria. No fim daquele ano, quando Lula derrotou Bolsonaro, a taxa era de 49%. Em janeiro deste ano, último dado disponível, era de 49,7%. A parcela do orçamento familiar gasto com o pagamento das parcelas da dívida hoje é recorde: 29,3% (também sem considerar o crédito imobiliário).
Um dos autores de um estudo do Cemif/FGV, o professor de Finanças Rafael Schiozer afirma que, nas faixas de renda mais baixas, a inclusão no mercado de crédito nos últimos anos se deu majoritariamente por meio do cartão, cuja oferta tem sido “menos discriminada”, principalmente nos bancos digitais.
Mais oferta de crédito com fintechs
O aumento do uso das linhas de crédito mais caras — cujo acesso foi facilitado pela proliferação de fintechs — em um contexto de juros altos é apontado por especialistas como a principal causa do salto no endividamento e, principalmente, no comprometimento de renda, mesmo com o crescimento da média salarial.
Somente o montante financiado no rotativo do cartão (quando o titular paga só uma parte da fatura e deixa o restante para a próxima) cresceu 32,7% nos 12 meses encerrados em fevereiro, a maior expansão entre as linhas do crédito livre para pessoas físicas. É a modalidade mais cara do mercado, com cobrança de juros de 15% ao mês ou 435% ao ano, mas muito usada por famílias sem renda suficiente para fechar as contas do mês.
Nem todos têm acesso ao consignado
Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria, Isabela Tavares, o governo teve uma boa iniciativa ao criar o crédito consignado privado, mas grande parte da população não tem carteira assinada para ter acesso à modalidade e acaba recorrendo ao cheque especial ou ao rotativo do cartão:
— As pessoas com dificuldades, precisando de dinheiro para pagar contas, não conseguem modalidades melhores, porque os bancos estão mais seletivos, e acabam pegando crédito em condições piores.
O analista João Vitor Fonseca, de 40 anos, conseguiu quitar uma das dívidas por meio do Desenrola, em 2024, mas o programa não funcionou para outros débitos. Ele segue inadimplente e sem acesso a crédito.
— O sistema financeiro engole a gente, a ponto de você submergir em valores tão altos que impossibilitam o pagamento da dívida real. Hoje, devo R$ 100 mil derivados de um valor original em torno de R$ 40 mil. Tenho que comprar tudo à vista ou pedir cartão emprestado — diz Fonseca: — Eu tinha uma dívida de dois cartões de R$ 6 mil com juros. O valor original era de R$ 2 mil. Quitei pagando seis parcelas de R$180 pelo Desenrola, que me ajudou, mas não contemplou todas os débitos.
Educação financeira
Orçamento
Faça um check-up financeiro para saber qual é o seu custo de vida e a sua renda real (com todos os descontos no salário). Se o custo está maior do que a renda, não adianta tentar resolver a dívida. É preciso reduzir os gastos ou elevar os ganhos antes.
Soma dos débitos
Faça o levantamento das dívidas, com valor original e valor atualizado.
Cartão e cheque
Com o cartão de crédito rotativo cobrando 435,9% ao ano e o cheque especial em 147% ao ano, ambos devem ter prioridade na quitação. Siga a ordem de ataque: cartão rotativo e parcelado, cheque especial, crediário e financiamento de loja, empréstimo pessoal e, por último, crédito consignado (juro menor).
Faça proposta
Na negociação, comece oferecendo 30% a 40% do valor à vista. Se não tiver um desconto satisfatório, peça para dividir no menor número de vezes. Grave conversas e guarde comprovantes dos acordos. Priorize os que limpam o nome imediatamente (evite promessas de “até cinco dias úteis”).
Corte o ciclo
Enquanto não estabilizar a situação, evite parcelamentos em lojas, compras no crédito rotativo, saques no cheque especial e tomar crédito para pagar outro empréstimo.
Orçamento realista
Defina quanto pode destinar às dívidas sem comprometer despesas com moradia, alimentação, transporte e saúde. A regra 50-30-20 costuma funcionar: 50% para necessidades básicas, 30% para quitar dívidas e 20% para emergências.
Faça renda extra
Use a renda extra para o abatimento das dívidas. Venda itens não essenciais (roupas, eletrônicos antigos e móveis), faça trabalhos freelancer (Workana, 99Freelas e GetNinjas) ou serviços sob demanda (delivery e pequenos reparos) e monetize suas habilidades (aulas particulares, consultorias etc).
Negocie na internet
A Serasa (serasa.com.br) oferece propostas de negociação com descontos
Jovem compromete quase toda a renda e adia planos de sair de casa
Yan de Paula Teixeira tem três cartões de crédito
Arquivo pessoal
Aos 26 anos, o bombeiro civil Yan de Paula Teixeira, morador de Duque de Caxias (RJ), vive uma realidade comum a muitos brasileiros, ele apesar de ter renda fixa, não consegue avançar financeiramente. Com salário mensal de R$ 1.820, um salário mínimo, ele chega a comprometer até R$ 1.500 apenas com faturas de três cartão de crédito, o que tem travado planos como comprar um carro ou sair da casa dos pais.
O contato com o crédito começou cedo, aos 18 anos, quando conseguiu seu primeiro cartão. Desde então, o uso frequente se tornou parte da rotina. Hoje, Yan acumula contas em diferentes instituições financeiras e admite que, em alguns meses, precisa parcelar a fatura para conseguir manter os pagamentos em dia.
— Eu sempre achei normal ter cartão. No começo era só pra uma coisa ou outra, mas quando vi já estava usando pra tudo — conta.
Entre os principais gastos estão roupas, acessórios e viagens. Ele reconhece que tem dificuldade em reduzir o consumo, mesmo sabendo do impacto no orçamento.
— Eu sei que estou gastando muito, mas é difícil parar. Às vezes aparece uma promoção, uma viagem com os amigos, e eu acabo indo. Na hora parece que dá pra pagar depois — diz.
A facilidade dos meios de pagamento digitais também influencia o comportamento. Para Yan, o dinheiro desaparece de forma menos perceptível quando não envolve cédulas físicas.
— Você faz um pix, passa o cartão, parcela... não tem aquela sensação de que o dinheiro está indo embora. Quando vê, já foi quase o salário todo — afirma.
Mesmo morando com os pais, ele contribui com despesas da casa, como a conta de luz, o que reduz ainda mais sua margem financeira. Ainda assim, acredita que poderia estar em uma situação melhor.
— Eu ajudo em casa, mas não tenho outras contas grandes. Era pra eu conseguir guardar dinheiro, só que nunca sobra — relata.
A instabilidade nas finanças faz com que Yan recorra, com frequência, ao parcelamento das faturas — uma prática que pode aumentar o valor da dívida ao longo do tempo.
— Tem mês que não tem jeito, eu parcelo. Aí no outro mês já vem mais coisa e meu medo é virar uma bola de neve — diz.
Apesar das dificuldades, ele mantém o pagamento das contas em dia e não se considera inadimplente. Ainda assim, reconhece que está “estagnado”.
— Eu trabalho, ganho meu dinheiro, mas não consigo sair do lugar. Quero comprar um carro, penso em financiar ou alugar uma casa, mas não dá. Sempre tem o cartão pra pagar — afirma.
Para o futuro, Yan diz que quer mudar a forma como lida com o dinheiro, mas admite que ainda não conseguiu colocar isso em prática.
— Eu sei que preciso me organizar, gastar menos, mas é complicado. Parece que o dinheiro já vem com destino certo — desabafa.
Aposentada vê renda encolher e luta para manter o básico
Clea Machado paga as compras de supermercado com cartão
Arquivo pessoal
Aos 66 anos, vivendo sozinha e com uma renda limitada, a aposentada Clea Machado, moradora de Magé (RJ), enfrenta há pelo menos três anos os efeitos de decisões financeiras que, segundo ela, foram tomadas por necessidade — e que hoje comprometem boa parte do orçamento mensal. Com um salário mínimo de aposentadoria, ela recebe cerca de R$ 1.350 líquidos, após descontos de um empréstimo renegociado que deve seguir até 2030.
A dívida começou em um momento de urgência. Sem reserva financeira, ela recorreu ao banco para custear despesas inesperadas, como tratamento de saúde de seus dois cachorros e gastos médicos pessoais. Com o tempo, novos créditos foram sendo contratados no mesmo banco, o Itaú, até que a dívida foi consolidada em um valor maior.
— Fui passando o cartão, quando vi já estava quase R$ 3 mil. Aí fiz um empréstimo de R$ 5 mil. Passado dois anos do meu empréstimo, tentei renegociar para pegar mais um empréstimo para obra e eles juntaram tudo, e quando eu vi, já estava devendo R$ 16 mil. Já tinha pago 4 mil reais, por aí, peguei mais 6 mil e aquilo que eu já tinha pago, parece que sumiu — conta.
Hoje, ela paga cerca de R$ 270 por mês apenas do empréstimo. Além disso, lida com faturas de dois cartões de crédito, que somam aproximadamente R$ 1.500. O uso do crédito, segundo ela, virou uma forma de equilibrar as contas — especialmente nas compras maiores.
— Quando faço a compra do mês, parcelo tudo. Compro arroz, feijão, azeite, o que está faltando em casa. Depois vou só completando — explica.
Mesmo assim, reconhece que os juros pesam.
— Você parcela uma compra de R$ 400 e, quando vê, está pagando quase R$ 600 — desabafa.
O orçamento apertado se agrava com despesas fixas e custos de saúde. Só com medicamentos para dores, osteoporose e tendinite, ela gasta, em média, R$ 180 por mês. A conta de luz gira em torno de R$ 160, além do gás e outras despesas básicas.
Sem filhos ou outra fonte fixa de apoio, ela precisa recorrer a alternativas para manter o mínimo de estabilidade financeira.
— O salário não dá para tudo, não. Não dá para remédio e contas. Faço faxinas para complementar a renda, mesmo o médico indicando apenas exercício e fisioterapia, ou eu trabalho ou então vivo no limite do básico com a aposentadoria — afirma.
Apesar das dificuldades, ela tenta manter algum controle sobre o dinheiro. Diz que faz questão de não ficar completamente sem recursos após pagar as contas.
— Tem que sobrar pelo menos R$ 100, R$ 150. Para comprar um pão, uma verdura, ou se eu quiser tomar um sorvete. A gente trabalha e merece — diz.
Para ela, esses pequenos gastos não são luxo, mas parte do que considera uma vida digna. A aposentada reconhece que se “enrola” com o uso do crédito, mas também aponta a falta de orientação como um fator que contribuiu para a situação.
— O banco vai levando a gente na conversa. Quando você vê, já está devendo mais. Vou dando um jeito. Mesmo enrolada, eu me organizo. Mas só a aposentadoria é pouco para viver com dignidade de verdade — diz.
*Estagiária sob supervisão de Luciana Rodrigues
