Encontro em Guilin destaca literatura como ponte entre China e América Latina

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Representantes de instituições editoriais, escritores, tradutores, diplomatas e profissionais da área cultural da China e da América Latina participaram nesta quarta-feira (4) do encontro “A literatura como ponte: cruzando montanhas e mares — intercâmbio editorial entre China e América Latina”.

Realizado na sede da Editora Lijiang, em Guilin, na região de Guangxi, o evento teve como objetivo fortalecer a cooperação literária e ampliar a circulação de obras entre as duas regiões. A iniciativa foi organizada pela Corporação Nacional de Importação e Exportação de Publicações da China (CNPIEC) e pela Associação de Escritores de Guangxi.

As discussões abordaram as oportunidades de cooperação entre editoras chinesas e latino-americanas, a tradução de obras, o intercâmbio de direitos autorais, a realização de visitas recíprocas de escritores e a ampliação dos canais de distribuição e publicação. O encontro também esteve relacionado à terceira edição do Prêmio Literário Lijiang, que inclui uma categoria dedicada à tradução literária e busca apresentar obras estrangeiras ao público chinês, promovendo o intercâmbio entre diferentes culturas.

A programação integra a iniciativa “A literatura ilumina a vida”, que tem a literatura como instrumento de aproximação entre sociedades e de compartilhamento de experiências. Durante as intervenções, representantes das instituições de Guangxi destacaram a importância de ampliar a presença internacional da produção literária da região e de fortalecer a cooperação com países latino-americanos.

Guangxi foi apresentada como uma região estratégica para a abertura da China ao Sudeste Asiático, por sua posição de conexão com o interior do país, sua proximidade com os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e sua diversidade étnica e cultural. Os representantes ressaltaram que a cooperação editorial pode aproximar a literatura original chinesa e latino-americana por meio de projetos de tradução, publicação conjunta, intercâmbio de direitos autorais e visitas de escritores.

Também destacaram o papel da Editora Lijiang e da Editora da Universidade Normal de Guangxi na ampliação das parcerias internacionais e na divulgação de autores da região no exterior. A Associação de Escritores de Guangxi defendeu que a distância geográfica, as diferenças linguísticas e os fusos horários não impedem a aproximação entre as duas regiões.

A instituição destacou a necessidade de aproveitar a posição de Guangxi para ampliar o intercâmbio internacional e construir relações duradouras com organizações literárias e editoriais latino-americanas. A cooperação foi apresentada como um processo de mão dupla: ao mesmo tempo que a tradução permite levar a literatura latino-americana aos leitores chineses, também cria oportunidades para que obras chinesas sejam publicadas em espanhol e português.

Nesse sentido, os participantes apontaram a importância de desenvolver projetos conjuntos, promover visitas recíprocas, compartilhar canais de distribuição e ampliar a colaboração entre escritores, tradutores e editores. Uma das intervenções abordou a trajetória da literatura latino-americana no mercado editorial chinês.

O escritor argentino Jorge Luis Borges foi um dos exemplos apresentados. Seus primeiros contos foram traduzidos para o chinês em 1979, em uma iniciativa de Wang Yangde que incluiu “O jardim dos caminhos que se bifurcam”.

Uma antologia de seus contos foi publicada em 1983. A partir de 2015, a Shanghai Translation Publishing House passou a lançar suas obras completas em fascículos.

Outro autor mencionado foi Julio Cortázar, cujo romance “O jogo da amarelinha”, traduzido por Sun Jiameng, foi apresentado como uma obra frequentemente chamada de “Ulisses da América Latina”. Também foi destacada a presença do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias, cujo livro “Homens de milho” recebeu o primeiro Prêmio Nacional de Excelência em Livros de Literatura Estrangeira.

A literatura brasileira também foi lembrada na apresentação. Jorge Amado esteve entre os primeiros escritores do país traduzidos para o chinês.

Machado de Assis foi citado no contexto da trajetória das traduções brasileiras, assim como Paulo Coelho, cujo romance “O Alquimista” chegou ao mercado chinês em 1997 e vendeu milhões de exemplares na China continental. A obra também foi apresentada em uma tradução cujo título em chinês corresponde a “A fantástica jornada do jovem pastor”.

A escritora Clarice Lispector passou a ter obras traduzidas para o chinês a partir de 2013, contribuindo para a redescoberta de sua produção ligada ao modernismo brasileiro. Também foi mencionada a tradução direta do português de “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa, realizada por Pu Yuzhi.

A apresentação incluiu ainda a escritora chilena Teresa Wilms Montt, com as obras “Inquietudes sentimentales” e “En la quietud del mármol”, além das coleções “Piedra de Sol” e “Palo de Brasil”. Entre os lançamentos recentes, foram citadas obras cubanas, incluindo “A viagem de ninguém”, de Alpidio Alonso Grau.

O intercâmbio literário também foi relacionado à influência de autores latino-americanos sobre escritores chineses. Mo Yan, por exemplo, mencionou Gabriel García Márquez e William Faulkner entre seus autores favoritos e referências literárias.

Os participantes observaram que a circulação de obras chinesas em espanhol e português vem ampliando o diálogo entre as duas regiões. A tradução, nesse contexto, deixa de ser uma via de mão única e passa a integrar um processo de intercâmbio cultural recíproco.

A literatura como expressão de identidade O escritor colombiano Santiago Gamboa abordou as relações entre América Latina e China a partir das experiências históricas de independência e da construção da identidade cultural latino-americana.

Ele agradeceu a recepção na Editora Lijiang e afirmou que as intervenções anteriores haviam apresentado o panorama editorial e as possibilidades de cooperação. Sua contribuição, explicou, seria oferecer uma perspectiva sobre as relações entre as duas regiões a partir da independência e da identidade.

Gamboa observou que a América Latina escreve em espanhol e português, idiomas europeus introduzidos no continente durante a colonização, há quase cinco séculos. Essa experiência pós-colonial, segundo ele, é diferente da trajetória histórica chinesa.

Ao mesmo tempo, essas línguas também foram veículos de recepção de ideias de liberdade, dignidade e luta social associadas à Revolução Francesa. O escritor lembrou que as independências latino-americanas ocorreram há aproximadamente 200 anos e que, nos países de língua espanhola, os movimentos foram liderados em grande medida por descendentes de espanhóis nascidos na América, em aliança com povos indígenas.

Segundo Gamboa, o espanhol europeu não era suficiente para descrever a realidade natural do continente. Ao chegar à América, a língua precisou incorporar palavras e expressões capazes de nomear montanhas, vegetação e outras realidades desconhecidas pelos europeus.

Assim, desenvolveu-se um espanhol americano, enriquecido por novas estruturas e referências culturais. A independência política foi acompanhada por um processo de afirmação linguística e literária.

Os latino-americanos deixaram de ser descritos apenas por outros povos e passaram a escrever sobre suas próprias realidades e identidades. A literatura passou a narrar os Andes e as histórias de seus habitantes, construindo, ao longo do século XX, uma visão do mundo a partir da América Latina.

Gamboa citou “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, como uma obra que, além de narrar a história de Macondo, também aborda a criação do mundo. Para ele, a obra alcança dimensão universal porque a criação é um tema compartilhado por todas as comunidades humanas.

O escritor afirmou que os latino-americanos são filhos de Macondo e herdeiros do coronel Aureliano Buendía. A identidade latino-americana, acrescentou, também foi construída por meio da obra de autores como García Márquez, Borges e Neruda, alguns dos quais integram o catálogo de editoras chinesas.

Embora a América Latina esteja situada no Sul do ponto de vista social e econômico, sua literatura produz, desde meados do século XX, interpretações do mundo nas quais pessoas de diferentes regiões podem se reconhecer. Ao concluir sua intervenção, Gamboa afirmou que, depois de conquistar a independência política e linguística, a América Latina busca avançar na construção de sua independência editorial.

Nesse processo, destacou a importância da colaboração, do apoio e das parcerias com editoras chinesas. Ressaltou ainda que o processo de independência latino-americano nunca terminou.

Cooperação e novas pontes literárias Ao longo do encontro, os participantes defenderam que escritores, tradutores e editoras podem desempenhar um papel central na construção de pontes entre China e América Latina.

A tradução foi apontada como instrumento para aproximar culturas e permitir que diferentes sociedades conheçam suas histórias, tradições e experiências. A iniciativa também destacou a importância de integrar os recursos editoriais internacionais da Editora Lijiang e ampliar as oportunidades de publicação de obras chinesas e latino-americanas nos respectivos mercados.

A cooperação entre instituições, a circulação de direitos autorais e a realização de atividades conjuntas foram apresentadas como caminhos para dar continuidade ao intercâmbio. A proposta sintetizada no encontro foi a de que a literatura atravesse idiomas, montanhas e mares, fortalecendo o diálogo entre China e América Latina e permitindo que as histórias de cada região alcancem novos leitores.

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