Empresas de alimentos deixam de monitorar riscos do clima para o abastecimento, diz estudo

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Fonte da notícia: Globo Rural Globo Rural

As empresas do setor alimentício estão expostas ao impacto de riscos climáticos para suas cadeias de abastecimento. Isso porque as ferramentas utilizadas para avaliar os impactos sobre a produção agrícola não consideram uma série de eventos extremos, alerta o novo estudo da Food and Land Use Coalition (FOLU), desenvolvido em colaboração com a Systemiq e o World Business Council for Sustainable Development (WBCSD).

O relatório, obtido com exclusividade pelo Valor, mostra que incêndios florestais, tempestades, ciclones, tornados, pragas e doenças estão entre os riscos pouco ou nada contemplados pelos modelos de avaliação das companhias de alimentos. Foram analisadas as principais ferramentas usadas pelas empresas para avaliar como as mudanças climáticas podem afetar a produtividade agrícola, com foco em culturas oleaginosas como a soja. A conclusão é que os modelos incorporam apenas uma parcela dos riscos que já afetam o abastecimento de alimentos no mundo. As secas e ondas de calor, por exemplo, são consideradas apenas parcialmente. Já tempestades, ciclones e tornados não são contabilizados pelos modelos analisados. Também ficam de fora riscos como degradação do solo, granizo, inundação costeira, redução da qualidade da água e elevação do nível do mar. Leia também Os riscos da nova safra: custos, dívidas e clima desafiam agricultores Embrapa apresenta ao governo 163 medidas para combater riscos climáticos no campo Outro ponto de preocupação é que os modelos normalmente partem da premissa de que os eventos climáticos acontecem de forma isolada. Na realidade, segundo o relatório, as mudanças climáticas aumentam a possibilidade de diferentes regiões serem atingidas ao mesmo tempo. Isso reduz as alternativas das empresas para trocar fornecedores ou substituir uma cultura por outra diante de uma quebra de produção. “Incêndios estão se alastrando, rios estão secando e colheitas estão falhando, mas as empresas do setor alimentício ainda se preparam para o futuro com ferramentas que não consideram os perigos bem diante de nós”, afirma Elinor Newman-Beckett, autora do relatório e diretora de Conhecimento Global e Engajamento da FOLU. No Brasil, o estudo cita a seca de 2021/22 no Rio Grande do Sul, que reduziu a produção de soja em mais da metade. Também são mencionados os incêndios recordes registrados em 2024, que, segundo uma estimativa do Estado de Goiás citada no relatório, provocaram R$ 181,71 milhões em perdas de produção. Investimento x despesa A falta de dados mais completos também tem impacto sobre as decisões de investimento. De acordo com a FOLU, as empresas encontram dificuldades para justificar antecipadamente gastos com solos mais saudáveis, sistemas de água e métodos agrícolas mais resilientes.

Sem uma mensuração adequada dos riscos, essas iniciativas podem aparecer como custos opcionais de sustentabilidade, e não como proteção contra futuras perdas. De acordo com o levantamento, fornecedores apoiados para implementar práticas regenerativas conseguiram continuar produzindo durante uma seca na Espanha, em 2022, enquanto concorrentes não conseguiram obter o produto. O retorno econômico foi direto, disse o estudo, mas não poderia ser previsto pelas ferramentas atuais de risco e retorno. O relatório aponta ainda um descompasso entre a capacidade de financiamento privado e os recursos destinados à resiliência climática. Newman-Beckett diz que a capacidade de recursos que o setor privado poderia fornecer aos sistemas alimentares chega a US$ 630 bilhões por ano, mas somente cerca de US$ 19 bilhões são direcionados atualmente para investimentos em resiliência ao clima. A necessidade anual é estimada em US$ 1,1 trilhão. "O setor privado poderia fornecer aproximadamente US$ 630 bilhões por ano aos sistemas alimentares globais. Investir apenas uma fração disso em sistemas agrícolas resilientes poderia ajudar a proteger contra choques alimentares”, afirma Newman-Beckett. Victoria Crawford, diretora de Agricultura e Alimentos do WBCSD, resssalta que a avaliação mais adequada permitiria às empresas compreender melhor o valor que está em risco e evitar custos inesperados, protegendo a continuidade dos negócios, a competitividade e o valor de longo prazo. A próxima etapa de análises será um relatório sobre o corredor de soja Brasil-China, com lançamento previsto para janeiro de 2027. O estudo deverá apresentar uma primeira estimativa parcial das perdas que poderiam ser evitadas e do retorno sobre investimentos em resiliência, além de avaliar quem está mais bem posicionado para investir e como esses retornos podem ser capturados e compartilhados.

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