A chegada de empresas chinesas ao mercado brasileiro de biotecnologia agrícola deve ampliar a concorrência em um segmento dominado por poucas multinacionais, mesmo que os primeiros produtos não tragam uma ruptura em relação às tecnologias já disponíveis.
A avaliação é de representantes de empresas brasileiras de sementes ouvidos pela reportagem, que consideram que o impacto inicial pode estar ligado a preço e estratégia comercial.
O mercado também vê com atenção a capacidade chinesa de investimento, que pode tornar a concorrência mais acirrada nos próximos anos.
Ao menos três empresas chinesas avançam no mercado brasileiro de biotecnologia agrícola.
Uma delas, a DBN Biotech, já conta com liberação comercial de eventos tecnológicos (traits) em território brasileiro, e pretende lançar o primeiro produto no país em 2028.
LongPing e KingAgroot também estão entre as companhias chinesas que buscam avançar no desenvolvimento de tecnologias para o mercado brasileiro.
Essas duas empresas foram procuradas pela reportagem, mas não se manifestaram.
As companhias buscam entrar em um mercado bilionário no Brasil.
Apenas o mercado de sementes de soja movimenta mais de R$ 30 bilhões ao ano.
Um representante de empresa brasileira do segmento, que preferiu não ser identificado, disse não enxergar, no curto prazo, uma ruptura tecnológica em relação às principais plataformas já disponíveis ou em desenvolvimento no Brasil.
“O diferencial inicial dos chineses pode estar justamente na competitividade comercial, na velocidade de adoção e na estratégia de posicionamento das tecnologias”, analisa.
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Por outro lado, essa mesma fonte acredita que seria um erro analisar a China apenas como um competidor de menor custo.
Ele ressalta a capacidade de investimento, escala, pesquisa e velocidade de desenvolvimento dos chineses, e aponta que empresas como a DBN estão investindo de forma consistente em biotecnologia e melhoramento genético.
“Talvez o impacto mais relevante não seja somente o que essas empresas oferecem hoje, mas principalmente o que poderão oferecer em cinco ou dez anos.”
O evento tecnológico da DBN que deve chegar ao Brasil em 2028 tem como foco a resistência a insetos e a tolerância a herbicidas, características já encontradas nos produtos disponíveis hoje no mercado.
Um representante de outra empresa do segmento afirma que a entrada da DBN no Brasil é uma forma de os chineses conhecerem o mercado, aprenderem com o ambiente regulatório brasileiro e ganharem experiência regulatória internacional.
Um exemplo de prática que seria considerada “disruptiva” pelo segmento é o controle do percevejo, apontado como uma das lacunas tecnológicas na cultura da soja.
A DBN informa que há novos eventos tecnológicos em fase de testes para médio e longo prazo contra sugadores, doenças, nematoides e plantas daninhas.
Representantes do setor de sementes no Brasil preferem não “pagar para ver”, e acreditam que a capacidade chinesa de inovar pode surpreender.
“Eles entram em cada mercado para aprender, trabalhando com produtos genéricos ou off-patent, e depois de alguns anos se tornam muito competitivos”, diz uma fonte.
O setor avalia que os primeiros lançamentos dos produtos chineses no mercado serão apenas o primeiro passo.
“Para além da questão do estímulo à competitividade, o que é positivo para qualquer cadeia, você eleva o nível da competição, e isso traz benefícios não só para os elos da cadeia, mas para a ponta, que é o agricultor”, observa o presidente da Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil (Amssoja), André Schwening, que também esteve na China.
Os chineses desembarcam no mercado brasileiro justamente no momento em que a China anuncia que pretende reduzir a necessidade de importação em itens estratégicos, como a soja.
Essa aparente contradição esconde uma dose de prudência, na avaliação de quem acompanha o setor.
“Eles não vão colocar todos os ovos na mesma cesta.
O Brasil vai continuar sendo um grande fornecedor”, resume o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno.
Apesar disso, o pesquisador considera importante que o Brasil agregue valor à soja em forma de proteína animal para reduzir a dependência da exportação do grão.
“Atualmente, o Brasil é um mercado estratégico para nós.
Já temos produtos e instalações relacionadas à biotecnologia no país, mas queremos prestar um serviço ainda melhor ao mercado brasileiro.
Por isso, queremos estabelecer um centro de P&D [pesquisa e desenvolvimento] no Brasil”, disse o vice-presidente da DBN Group, Song Weiping, a jornalistas em Pequim.
*O jornalista viajou a convite da DBN
