Fabricio Bloisi, CEO da Prosus Getty Images
A vitória decisiva do presidente Lula, com diferença de cerca de 4,5 milhões de votos, só deve aumentar o mau humor da Faria Lima nesta segunda-feira (26) e o receio de que a oposição receba mal a derrota (Flávio Bolsonaro disse que vai pedir anulação do segundo turno por conta da extensão do horário de votação).
A relação com o Congresso também é tema de tensão. Empresários e CEOs ouvidos pelo Pipeline esperam que a nova gestão de Lula - um inédito quarto mandato - faça enfim um plano de austeridade fiscal, para que os juros possam cair.
O aperto de renda da população pode ser um motivador. Há uma pilha de temas pendentes no curto prazo, que podem escorregar para o ano que vem, como regulamentação da nova jornada de trabalho e algum ajuste no calendário da reforma tributária.
Há ainda temas usados com fim de campanha eleitoral que podem ser revistos. O novo mandato pode ser também uma oportunidade para novas políticas de Estado e uma maior aproximação do setor privado.
“Muitos dos meus pares deixaram de ir a Brasília porque o ranço ficou tão grande que não queriam mais encontrar o Lula ou Haddad”, diz um empresário, que prefere não ser identificado. Entre aqueles que mantiveram a ponte do diálogo, alguns encontros até fizeram efeito, mas temporário.
A demanda da indústria e varejo local por isonomia tributária de sites internacionais levou à taxa das blusinhas. No entanto, ela foi extinta pelo governo na campanha eleitoral.
“Tem que ter uma aproximação maior sim, mas por meio das associações de classe e institutos setoriais, para não cairmos no capitalismo de compadrio”, diz Frederico Trajano, CEO do Magalu. “Os empresários precisam se envolver para não deixar o país somente nas mãos de políticos de carreira”, diz Wilson Poit.
Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza
Divulgação Reeleito, o presidente Lula terá de reprogramar os gastos públicos para reduzir os juros.
“O capital é o combustível da iniciativa privada. Se o custo de capital está alto, a gente não consegue usar esse combustível”, diz.
O executivo defende que o governo aumente o diálogo com o setor privado, que foi reduzido ao longo das últimas gestões. “A responsabilidade é de mão dupla: as empresas devem dedicar mais tempo a Brasília e explicar suas dores a todos os Poderes, porque decisões públicas muitas vezes decorrem de desconhecimento.
Isso deve ser feito pelas entidades de classe, para evitar o capitalismo de compadrio", diz. Após mais uma eleição polarizada, Trajano diz que o reeleito deve governar para todos, e não para a fatia que votou nele.
“Tem que construir pontes e pontos de convergência pelo diálogo.” Paula Harraca, CEO da Ânima Educação
Paula Harraca assumiu a Ânima Educação em 2024 Divulgação
O Brasil já teve grandes agendas nacionais, como o controle da inflação, e a próxima grande agenda precisa ser a transformação do país pela educação e a transformação da Educação do país, diz a executiva. “Estamos vivendo uma revolução tecnológica que, antes de tudo, é uma transformação humana.
A IA está mudando o trabalho, as profissões e a maneira como vivemos. Precisamos preparar nossas crianças e nossos jovens”, avalia.
“E isso exige uma mudança de perspectiva: educação não pode ser apenas um plano de governo. Precisa ser uma Política de Estado." Um bom começo é valorizar o professor.
“A IA pode potencializar sua capacidade de ensinar, mas precisamos também conectar melhor aquilo que já temos. Universitários podem atuar como tutores de estudantes da educação básica, universidades podem abrir seus laboratórios para atividades no contraturno, e escolas, empresas e startups podem trabalhar juntas para que os jovens aprendam resolvendo problemas reais da sociedade."
Jorge Gonçalves Filho, presidente do IDV Alguns assuntos urgentes estarão na mesa do presidente antes mesmo de entrar na sala, diz Jorge Gonçalves Filho, à frente do Instituto de Desenvolvimento do Varejo.
Durante a corrida eleitoral, Lula acabou com a taxa das blusinhas. “Vamos continuar pressionando por isonomia para a indústria nacional”, diz.
Lula também proibiu as bets e a MP caduca no ano que vem. Filho acha mais provável uma restrição nos moldes da aplicada ao cigarro.
“Manter a proibição total seria uma boa surpresa.” O IDV também menciona a falta de detalhamento da nova jornada e da reforma tributária, ambas escorregando para o novo mandato presidencial. “Na jornada, o texto precisa ser cruzado com o restante da CLT (acordos coletivos, hora extra, descanso remunerado e não remunerado), e isso não ficará esclarecido a tempo.
Na reforma tributária, varejistas e distribuidoras terão de divulgar tabelas de preço e formar estoques para o início do ano, a cerca de 60 dias, sem saber qual será a alíquota”, exemplifica. Eduardo Aroeira, presidente da CBIC
Na construção, a regulamentação da escala 5x2 e mudança no calendário da reforma tributária são vistas como os temas mais urgentes para o presidente, diz Eduardo Aroeira, à frente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, que entregou à campanha do presidente uma agenda de sete eixos em que pede que habitação, infraestrutura e obras públicas virem “prioridades de Estado”.
A proposta menciona ainda a criação de um fórum permanente do setor com o governo, para políticas de Estado, que toma como referência a experiência municipal da Codese, em que a sociedade civil se organiza, faz estudos e os apresenta a prefeituras. A expectativa, diz ele, é que o governo continue valorizando o programa Minha Casa Minha Vida.
A mudança de jornada deve aumentar em cerca de 10% os custos da mão de obra na construção, desafiando o novo governo na redução de juros. Belmiro Gomes, CEO do Assaí
A recuperação do consumo em 2027 passa pela redução do peso das dívidas no orçamento das famílias, diz o executivo. “No contato com cerca de 40 milhões de clientes por mês e um milhão de micro e pequenas empresas, acompanhamos de perto como os juros comprometem a capacidade de compra e de investimento.
Juro alto aumenta a desigualdade social: quem tem recursos aplicados recebe juros, enquanto quem depende de crédito compromete uma parcela maior da renda para pagar suas contas. O efeito é especialmente forte nas famílias de menor renda.
Juro alto pesa no prato e no carrinho”, diz Gomes. “Responsabilidade fiscal e controle da inflação são fundamentais para permitir uma queda sustentável dos juros.
Também precisamos de medidas duradouras contra os danos das apostas e dos cassinos online, com fiscalização efetiva, inclusive dos meios de pagamento das operações ilegais. Quando o jogo vira uma tentativa de pagar contas, temos um problema econômico e de saúde pública.”
Wilson Poit, fundador da Poit Energia O empresário já participou como secretário de governos de esquerda e de governos de direita e considera que mais empresários deveriam ajudar os políticos, para “o país não ficar sempre na mão de quem é político de carreira”.
Uma nova gestão, avalia, é uma oportunidade para isso. “O governo assume sem dinheiro, porque o recurso é do pagador de impostos e é limitado, e que a carga tributária e os gastos já cresceram muito sem que se discuta cortar despesas.
Temos que entrar num período de arrumação das contas, como se faz numa casa ou numa empresa”, diz. Ele lembra que a campanha ampliou as promessas, que demandam gastos e só piorariam o quadro fiscal.
“Vai ser um processo demorado e governo precisa escolher as melhores cabeças para decidir onde cortar”. Fabricio Bloisi, CEO da Prosus
Fundador do iFood, Bloisi foge dos temas políticos e partidários, mas diz que está “otimista com os próximos quatro anos do país”. Para ele, o Brasil tem desvantagens estruturais de custo de capital e de moeda, mas que também tem síndrome de vira-lata: a regulação europeia, por exemplo, é mais travada e burocrática para as empresas, também aumentando custos; os Estados Unidos também estão polarizados, exemplifica.
"A gente olha demais para o Brasil e fala assim: 'mas aqui está uma droga', mas as confusões políticas existem no mundo inteiro”, disse ele, que participou de evento em São Paulo na sexta-feira. Sobre inteligência artificial, pediu que o próximo governo "abrace mais inovação" e disse que o país fala "menos disso do que deveria".
Citou a iniciativa chinesa AI Plus, que prevê que 90% do que é vendido na China inclua IA em cinco anos. "A gente não pode ter uma nova revolução industrial em que o Brasil esteja 30, 50 anos atrasado", diz.
Pedro Cruz, CEO da Lojasmel “Minha postura diante do resultado das urnas é orientada pelo pragmatismo e pela maturidade de gestão, e não por disputas ideológicas.
O planejamento de investimento, orçamento e expansão da nossa rede se baseia estritamente em fundamentação técnica. Acima de qualquer resultado político, a construção de uma empresa resiliente depende da capacidade de execução da nossa própria equipe.
Políticas públicas criam contextos, mas são a gestão eficiente, o foco nas demandas das famílias brasileiras e a busca constante por inovação que garantem a continuidade dos nossos projetos. Acredito que a prosperidade do país e das empresas depende do nosso trabalho diário e do compromisso com o cliente, e não da expectativa depositada na política.
Isso também significa deixar de lado as emoções que o debate político costuma despertar e assumir, como empresário, a responsabilidade pelas próprias decisões e pelos resultados do negócio.”
Epoca Negócios