Existe uma mudança em curso nas recomendações médicas sobre o uso de medicamentos para emagrecimento durante a amamentação. A principal novidade é que, embora esses remédios continuem contraindicados na gravidez, novas diretrizes americanas admitem avaliar seu uso durante a amamentação, em determinadas circunstâncias.
O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), entidade americana de referência em obstetrícia e ginecologia, publicou suas primeiras diretrizes específicas sobre o uso de medicamentos da classe GLP-1 durante a gravidez e a amamentação. A orientação é interromper o tratamento de um a dois meses antes de tentar engravidar e não utilizar esses medicamentos durante a gestação.
Na amamentação, porém, a conduta pode ser individualizada. Até então, muitos médicos recomendavam evitar os medicamentos até o fim da amamentação.
As novas diretrizes propõem uma avaliação individual dos riscos e benefícios, em conjunto com o médico, e recomendam esperar até que o bebê tenha pelo menos um mês de vida antes de considerar o tratamento. Isso não significa que o ACOG tenha declarado esses medicamentos seguros durante a amamentação.
A entidade ressalta que ainda faltam evidências para avaliar seus efeitos sobre a mãe e o bebê. Yvette LaCoursiere, obstetra e ginecologista, professora da Universidade da Califórnia e uma das autoras das diretrizes do ACOG, explica que as novas diretrizes não devem ser interpretadas como um aval ao uso de medicamentos GLP-1 durante a amamentação.
“Sabemos que os GLP-1 têm impacto na absorção de calorias e nutrientes. Como isso afeta o leite materno? Não sabemos.
Acredito que essa diretriz permite que os profissionais acompanhem os dados à medida que forem divulgados e discutam o assunto com suas pacientes para que possam tomar uma decisão.” Os primeiros resultados são promissores, mas insuficientes.
Um pequeno estudo não detectou semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — no leite materno de mulheres que utilizavam a versão injetável do medicamento. O resultado sugere que a passagem da substância para o leite pode ser limitada, mas não comprova a segurança para o bebê.
Ainda não há dados suficientes sobre possíveis efeitos dos medicamentos na quantidade e na composição do leite, no ganho de peso dos bebês e no desenvolvimento infantil a longo prazo. Por isso, a recomendação é evitar as versões em comprimidos durante a amamentação.
Se o tratamento injetável for considerado, o ganho de peso do bebê deve ser monitorado de perto, e os medicamentos não devem ser usados por mães que amamentam bebês prematuros. Muitas mulheres têm recorrido a grupos nas redes sociais para compartilhar experiências e informações sobre o uso de GLP-1 durante a amamentação.
Um grupo no Facebook dedicado ao tema já reunia mais de 10 mil integrantes. Sara Blouin, moderadora de um grupo no Facebook sobre amamentação e medicamentos GLP-1, relata que começou a tomar Mounjaro enquanto ainda amamentava a filha.
Segundo ela, sua produção de leite diminuiu, embora não seja possível estabelecer que o medicamento tenha sido a causa. “É muito difícil se manter hidratada e consumir calorias suficientes tomando um GLP-1.”
Uma das mulheres entrevistadas conta que retomou o Mounjaro enquanto ainda amamentava a filha. Ela relata uma redução significativa na produção de leite e dificuldade para se manter hidratada e consumir calorias suficientes.
Não é possível afirmar com certeza que o medicamento tenha sido a causa direta dessa redução. Uma análise de dados de seguros de saúde comerciais, publicada como carta de pesquisa no periódico JAMA, identificou um aumento de 24 vezes na proporção de mulheres que iniciaram tratamento com GLP-1 nos seis meses seguintes ao parto entre 2018 e 2025.
A taxa passou de 0,08% para 1,9%. Os médicos ouvidos pela reportagem dizem que recebem cada vez mais perguntas de mulheres que já utilizavam esses medicamentos antes de engravidar e querem retomá-los, mas também de mulheres que passaram a considerar o tratamento depois do parto.
Para Caroline Apovian, diretora do Integrated Weight Center do Mass General Brigham, em Boston, é importante prestar atenção no efeito cumulativo do ganho de peso após várias gestações. “Se você não perder o peso, pode acumular quilos na segunda ou na terceira gravidez e, quando chegar à menopausa, estará com cerca de 27 quilos acima do peso.”
Caroline afirma que consideraria prescrever um GLP-1 para uma mulher que já tivesse parado de amamentar e atendesse aos critérios clínicos para o tratamento, mesmo que não se qualificasse para ele antes da gravidez. Os especialistas destacam que a decisão de iniciar o tratamento deve levar em conta o histórico de saúde da mulher, incluindo obesidade, diabetes gestacional, hipertensão e outras condições que possam se beneficiar da medicação.
Amanda Velazquez, diretora de medicina da obesidade do Center for Weight Management and Metabolic Health do Cedars-Sinai, em Los Angeles, alerta contra a pressa em recuperar o peso anterior à gestação. “Pode levar de um a dois anos para que seu corpo volte ao peso que tinha antes.
Cada paciente é diferente. Pode ser prematuro tentar iniciar um medicamento de longo prazo depois de três meses.” Amanda acrescenta que algumas mulheres que já usavam GLP-1 antes da gravidez ficam ansiosas para retomar o tratamento, o que pode influenciar até mesmo o tempo pelo qual decidem amamentar.
A recente mudança de orientação não decorre de evidências conclusivas de segurança, mas de uma abordagem que admite ponderar os benefícios para a mãe diante das incertezas existentes. Os dados preliminares sobre a semaglutida injetável são um primeiro sinal, mas permanecem lacunas importantes sobre a produção de leite, a nutrição infantil e os efeitos de longo prazo.
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