Um monitoramento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) identificou indícios de irregularidades em 1.865 dos 2.624 anúncios de produtos para emagrecer analisados no Mercado Livre, o equivalente a 71% da amostra. Entre os problemas estavam promessas de efeitos medicamentosos para suplementos, informações incompletas sobre a composição e nomes semelhantes aos de medicamentos conhecidos.
A coleta ocorreu entre 15 e 19 de junho de 2026. O conteúdo dos anúncios foi confrontado com normas sanitárias e com os termos de uso da plataforma.
Nove em cada 10 anúncios avaliados, ou 2.362, foram classificados como suplementos alimentares. Dentro do grupo, 70% apresentaram ao menos uma ocorrência de irregularidade.
A mais frequente foi a promessa de efeito terapêutico ou medicamentoso, encontrada em 1.141 anúncios. “Suplemento alimentar não é medicamento.
O consumidor não pode comprar um suplemento acreditando que está levando para casa um produto com efeito medicamentoso”, afirma Sérgio Mena Barreto, CEO da Abrafarma. Segundo o nutricionista e sanitarista Clayton Personnaz, suplementos complementam a alimentação com nutrientes e outras substâncias autorizadas.
A utilidade depende dos ingredientes, das doses e das necessidades individuais, e a regularização na categoria não demonstra eficácia para tratar a obesidade. Já os medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade têm segurança e eficácia avaliadas para a finalidade indicada.
Eles podem atuar na fome, na saciedade ou na absorção de gordura, mas apresentam efeitos adversos e contraindicações, exigindo prescrição e acompanhamento. O monitoramento também registrou 538 ocorrências com referências como “Monjauro de Pobre”, “Ozempik”, “Monjaru” e “Ozemcaps”, além de promessas de perda de cinco quilos em sete dias e de até 30 quilos em um mês.
Para Mena Barreto, a semelhança dos nomes e as promessas podem levar o consumidor a acreditar que um suplemento oferece os mesmos efeitos de um medicamento sem evidências que sustentem a comparação. O levantamento enquadrou 950 anúncios no critério “produto não seguro, origem ilícita ou atividade ilegal”.
Cerca de 70% dos casos dentro do grupo envolviam ausência de declaração da fórmula nos campos analisados. A classificação reúne diferentes situações e não comprova origem ilícita em todos os casos.
Também foram encontrados 136 casos de aval atribuído a profissional de saúde não identificado, 11 de possível falsa aprovação sanitária e 11 com alegações de segurança absoluta. “Sem conhecer os ingredientes e as quantidades, não é possível avaliar a segurança ou as interações com medicamentos.
Dependendo da composição, podem ocorrer palpitações, aumento da pressão arterial, alterações da glicose no sangue e lesões no fígado”, explica Personnaz. A palavra “natural” também não garante segurança.
Um estimulante pode agravar a hipertensão, enquanto uma substância que reduz a glicose pode somar efeitos aos medicamentos para a diabetes e favorecer a hipoglicemia quando o açúcar no sangue cai além do adequado. Segundo o nutricionista, produtos irregulares podem conter substâncias farmacológicas não declaradas.
A falta de informações claras sobre composição e procedência já é motivo para evitar o consumo. Algumas avaliações públicas dos anúncios traziam relatos de vômitos, alterações da pressão, mal-estar e desmaios.
Os comentários, porém, não comprovam que os produtos tenham causado os sintomas. A análise identificou ainda 260 anúncios cuja composição declarada incluía ao menos uma substância ausente da lista de constituintes autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para suplementos.
Entre elas estavam sene, cáscara-sagrada, garcínia cambogia, berberina, sinefrina e Cissus quadrangularis. Personnaz destaca que sene e cáscara-sagrada têm ação laxativa e podem ser usados no tratamento da prisão de ventre, com indicações e cuidados específicos.
“O uso medicinal, porém, não autoriza automaticamente a inclusão em suplementos”, esclarece. O consumo excessivo ou prolongado de laxantes pode provocar cólicas, diarreia, desidratação e perda de sais minerais, especialmente potássio.
A queda do mineral pode causar fraqueza muscular e alterações no ritmo cardíaco, enquanto a desidratação grave pode comprometer os rins. Idosos, pessoas com doenças renais ou cardíacas e usuários de diuréticos precisam de atenção especial.
“A redução temporária do peso pela eliminação de água e fezes não representa perda de gordura”, explica o nutricionista. Os laxantes atuam principalmente no intestino grosso, após a absorção da maior parte dos nutrientes, e não anulam as calorias ingeridas.
O monitoramento reuniu inicialmente 7.067 anúncios, encontrados por buscas relacionadas ao emagrecimento. Após a exclusão de resultados fora do objetivo, 2.624 compuseram a análise, realizada por três profissionais, com auditoria por amostragem.
A Abrafarma defende a retirada de produtos irregulares, rastreabilidade e respostas rápidas das plataformas. Também propõe que a responsabilidade sanitária e a dispensação de medicamentos permaneçam com as farmácias na integração com canais digitais.
Para o levantamento, que será entregue à Anvisa, não houve compra dos produtos, análise laboratorial ou inspeção física, portanto, os resultados não comprovam a composição real dos itens nem representam todos os anúncios do Mercado Livre. Em nota, o Mercado Livre afirma que mantém regras de publicação, monitoramento e equipes especializadas para identificar e retirar produtos que contrariem suas políticas ou as normas aplicáveis.
A empresa diz cooperar com autoridades e acompanhar determinações sanitárias, incluindo proibições da Anvisa. Segundo a companhia, 99,7% das infrações aos seus Termos e Condições são barradas proativamente com inteligência artificial, enquanto 0,3% envolvem a atuação de equipes em conjunto com as empresas envolvidas.
O percentual informado se refere às infrações aos termos da plataforma, sem recorte específico para os anúncios de emagrecedores analisados pela Abrafarma. O Mercado Livre declara que não valida nem contesta metodologias de terceiros, mas que removerá anúncios que violem suas regras.
Também afirma que os medicamentos comercializados por farmácias na plataforma devem estar regularizados e contar com as autorizações sanitárias exigidas pela Anvisa.
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