Já percebeu como estamos ficando parecidos? Mesma boca. Mesmo peito. Mesmo corpo, agora cada vez mais magro, impulsionado também pela popularização das canetas emagrecedoras. Mesmos tons de roupa, mesmos decotes, mesmos procedimentos, mesmos ambientes “instagramáveis”. A imposição de padrões não é nova. O que chama atenção agora é a velocidade da conformidade. A facilidade com que entramos no piloto automático sem sequer perguntar: eu gosto disso ou aprendi que deveria gostar? E a despersonalização não está apenas no corpo. Quando foi a última vez que você reparou na sua caligrafia? Durante séculos, escrever o próprio nome foi uma marca tão pessoal que virou prova de identidade. Hoje, boa parte dos documentos é assinada digitalmente. Digitamos mais do que escrevemos. A máquina corrige nossas palavras, termina nossas frases, sugere nossas respostas. Agora, com a IA, pode escrever e falar por nós. Não vejo nisso necessariamente um problema. Uso tecnologia e acredito nas possibilidades da inteligência artificial. O problema começa quando terceirizamos não apenas o trabalho, mas nossa personalidade. Outro dia fiquei pensando nas palavras que são nossas. Dengo e bunda são palavras maravilhosas do nosso pretuguês, uma vez que são de origem bantu, e alguns corretores insistem em apagar. Quando tecnologias são treinadas a partir de determinadas referências anglo-saxãs e começam a intermediar nossa comunicação, existe o risco de uma espécie de tradução permanente da nossa existência. Aos poucos, todo mundo escreve “corretamente” e estranhamente parecido. Mas nossa humanidade mora justamente no que escapa ao padrão. Está na gargalhada alta demais, no sotaque, na letra torta, no cabelo que decidiu não obedecer. Nosso nome talvez seja a unidade mais básica da dignidade humana, mas há uma constelação de pequenas características que nos transforma em alguém, e não apenas em mais um. Por isso, chama atenção outro movimento. Enquanto o mundo anuncia que tudo será cada vez mais digital, rápido e automatizado, cresce, especialmente entre as elites econômicas, uma busca pelo analógico. Cursos de caligrafia. Pintura. Cerâmica. Jantares, retiros e encontros presenciais. E aí mora uma lógica. Não acho que seja apenas nostalgia. Muitos estão percebendo que, quanto mais as máquinas fazem aquilo que fazíamos, mais valioso se torna aquilo que só conseguimos fazer sendo humanos. É num cafezinho que muitas alianças são construídas. É ali que alguém lembra do seu nome, confia em você, investe em uma ideia. Enquanto alguns recuperam deliberadamente esses espaços, outros são empurrados para uma vida vendida como mais eficiente: cursos on-line, atendimento automatizado, relações mediadas por plataformas. A tecnologia pode democratizar acessos extraordinários. Mas pode produzir nova desigualdade: alguns com direito à presença, à criação e à personalização; outros destinados à distância da interação humana. Resistir exigirá cada vez mais pequenas rebeldias. Escrever algo à mão. Usar uma palavra que é nossa mesmo quando o corretor não gosta. Telefonar em vez de mandar mensagem. Encontrar alguém sem transformar o encontro em conteúdo. Não podemos aceitar que, para sermos mais eficientes, precisemos nos parecer cada vez mais entre nós. Precisamos continuar a olhar para o outro com curiosidade. Ser humano não é ser perfeito. É ser impossível de copiar.
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Em um mundo que quer nos padronizar, ser único é uma rebeldia
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O Globo
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