Quanto custa criar uma startup? Para Florian Hagenbuch, cofundador da Canary, a resposta hoje pode ser radical: praticamente nada. “Eu argumentaria que hoje você precisa de zero dólar”, afirmou o investidor durante painel no VC Day, organizado pela ABVCAP (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital). A provocação resume uma transformação que a inteligência artificial está provocando no venture capital. Se desenvolver software ficou mais barato e rápido, a tecnologia em si pode deixar de ser a principal barreira de entrada de uma startup. É nesse cenário que os investidores parecem voltar a um dos fundamentos mais antigos do venture capital: apostar nas pessoas por trás das empresas. “A nossa casa é muito centrada na figura da pessoa fundadora, no founder da companhia. Sempre foi muito uma questão de apostar em gente”, disse Hagenbuch. Segundo ele, diante da imprevisibilidade criada pela IA, a Canary retorna àquilo que considera uma espécie de “unidade atômica” dos investimentos: as pessoas. “Tem muita imprevisibilidade, muitas dúvidas, às vezes mais dúvidas do que respostas. A gente volta muito para a unidade atômica que conhece, que entende e que acha resiliente em qualquer era ou transformação”, afirmou. A lógica ganhou força porque duas barreiras historicamente importantes para a criação de startups estão diminuindo simultaneamente: dinheiro e mão de obra técnica. Hagenbuch comparou o momento atual à migração dos softwares instalados localmente para a computação em nuvem. Nos anos 1990, segundo ele, uma empresa poderia precisar de dezenas de milhões de dólares apenas para colocar sua primeira infraestrutura de pé. Com a nuvem, o valor necessário para testar um negócio despencou. Agora, ferramentas de IA generativa voltam a reduzir essa conta. Em fevereiro deste ano, o Canary anunciou o Canary IV, novo fundo de US$ 150 milhões voltado para startups brasileiras, voltado para rodadas que vão desde o seed até o Série A. “Você precisa de menos talento técnico do que precisava cinco, dez ou vinte anos atrás”, afirmou. Para o investidor, isso deve ampliar a quantidade de empresas e ideias que conseguem sair do papel. Ao mesmo tempo, aumenta a importância de descobrir quem está por trás delas e se essas pessoas serão capazes de se adaptar quando a tecnologia mudar. Gustavo Ahrends, general partner da Norte Ventures, vê movimento semelhante. Segundo ele, os times técnicos ganharam ainda mais peso na avaliação dos investimentos. “A gente tem conseguido identificar times brilhantes já na formação inicial”, afirmou. No Brasil, diz Ahrends, centros de excelência em computação têm ajudado a formar empreendedores tecnicamente mais preparados. O outro lado dessa concentração de talentos é uma disputa maior pelas startups consideradas excepcionais. Quando um time se destaca, afirmou o investidor, as rodadas podem acontecer rapidamente. “A velocidade dos deals está acontecendo muito mais rápido”, disse. Para Ahrends, a capacidade de decidir rapidamente pode fazer diferença quando aparece uma companhia com potencial para se tornar um negócio global de grande escala. O interesse não está restrito aos investidores brasileiros. Segundo ele, fundos estrangeiros que historicamente tiveram pouca ou nenhuma presença no país estão olhando para o ecossistema local. A aposta é que a nova geração possa produzir mais empresas brasileiras capazes de ganhar escala internacional. O que era interessante há um ano pode não ser mais Se criar uma empresa ficou mais fácil, defendê-la também ficou mais complicado. Para Philipe Trauer, diretor da Vivo Ventures e Wayra Brasil, uma das maiores mudanças trazidas pela IA é a velocidade com que as próprias teses de investimento envelhecem. “O que um ano atrás era interessante hoje pode não ser mais”, afirmou. Isso acontece porque laboratórios de IA e grandes empresas de tecnologia estão expandindo rapidamente suas plataformas. Recursos que anteriormente sustentariam uma startup inteira podem ser incorporados a modelos ou produtos maiores em questão de meses. Trauer citou áreas como geração de código e assistentes pessoais entre aquelas que passaram a ficar mais próximas da “zona de ataque” das grandes plataformas. No mercado corporativo, ele também vê mais risco para soluções horizontais. “Até pouco tempo atrás estava interessante. Hoje eu já não sei mais”, afirmou.
Nesse ambiente, a Vivo Ventures tem olhado com maior interesse para soluções verticalizadas, voltadas a setores ou processos específicos e capazes de trabalhar com elementos como fluxos críticos, dados sensíveis e particularidades de cada indústria. ‘Daqui a seis meses virou uma feature’ A mesma preocupação aparece no Itaú Ventures. Phillippe Schlumpf, que lidera a iniciativa de corporate venture capital do banco, afirmou que o fundo tem sido seletivo justamente porque a evolução tecnológica pode eliminar rapidamente o diferencial de uma companhia. “Hoje é um negócio muito legal, daqui a seis meses virou uma feature de alguma gigante de IA”, disse. A velocidade ajuda a explicar por que as pessoas voltam ao centro da análise. Em empresas ainda jovens, investidores não estão apostando apenas no produto apresentado naquele momento, mas na capacidade dos fundadores de mudar de direção quando aquele produto deixar de ser suficiente. Hagenbuch defendeu que as barreiras competitivas mais importantes não necessariamente mudaram com a IA. Efeitos de rede, marketplaces, regulação e integrações continuam podendo proteger empresas. O que mudou, segundo ele, foi a percepção sobre a fragilidade de algumas vantagens que antes pareciam mais sólidas. “A IA deixou muito mais exposto o quão frágeis alguns desses pontos são”, afirmou. Essa lógica não vale apenas para startups. Durante o painel, Hagenbuch argumentou que a capacidade de adaptação das grandes companhias também depende das pessoas que ocupam posições de liderança. Para ele, parte relevante do valor econômico da inteligência artificial pode ser capturada justamente por empresas incumbentes capazes de entender a transformação antes que novos concorrentes utilizem a tecnologia para chegar aos seus clientes. “Tudo volta para as pessoas novamente”, concluiu. Mais Lidas
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