Em recado aos democratas, candidatos apoiados por prefeito socialista de NY vencem primárias

Em recado aos democratas, candidatos apoiados por prefeito socialista de NY vencem primárias

Fonte: Bandeira



Três candidatos apoiados pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, obtiveram importantes vitórias nas eleições primárias de terça-feira nos Estados Unidos, enviando um recado ao establishment do Partido Democrata antes das eleições legislativas de novembro.


Brad Lander, ex-controlador de Nova York, derrotou o deputado Dan Goldman, que buscava um terceiro mandato. Já a deputada estadual Claire Valdez venceu o presidente do distrito do Brookly, Antônio Reynooso, na disputa uma vaga aberta na Câmara dos Deputados. Já a ativista Darializa Avila Chevalier bateu por uma pequena margem Adriano Espaillat, atual presidente do caucus hispânico no Congresso e que tentava a sexta reeleição como deputado.


Em conjunto, os resultados representam uma grande vitória para o prefeito de 34 anos, que surpreendeu o mundo político ao vencer a eleição municipal de 2025 e agora busca consolidar seu poder, transformando o Partido Democrata em uma força do socialismo democrático.


Os triunfos em Nova York vêm na esteira da vitória de candidatos socialistas democráticos em primárias para prefeito em Washington e da classificação de candidatos do mesmo campo para o segundo turno em Los Angeles.


Os esforços de Mamdani para ampliar a base do socialismo democrático nos EUA dão continuidade a um movimento iniciado há uma década, impulsionado pela surpreendentemente popular campanha presidencial do senador Bernie Sanders em 2016 e por suas iniciativas para formar uma nova geração de líderes do segmento.


Mas alguns analistas e ex-autoridades afirmam que esse movimento também reflete a insatisfação de eleitores democratas progressistas com a agenda e o estilo de governo do presidente Donald Trump, bem como com o apoio do governo Joe Biden à guerra de Israel em Gaza após o ataque liderado pelo Hamas. A resposta israelense resultou em mais de 73 mil mortes de palestinos.


“A energia da extrema direita alimenta a energia da extrema esquerda. A política é reativa”, afirmou Steve Israel, ex-membro da Câmara dos Deputados por Nova York que, nos últimos anos de sua carreira no Congresso, comandou uma operação voltada à eleição de mais democratas.


Em reação aos resultados de ontem, Trump recorreu às redes sociais. Os Estados Unidos jamais serão um país comunista!!!”, escreveu ele na Truth Social.


Divisões entre os democratas

Durante meses após Mamdani vencer as primárias de Nova York em 2025, o líder democrata na Câmara dos Deputados, Hakeem Jeffries, foi constantemente pressionado por jornalistas sobre se apoiaria seu colega nova-iorquino. Jeffries acabou declarando apoio, mas manteve a dúvida até apenas 11 dias antes da eleição geral.


Enquanto isso, o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, também de Nova York, permaneceu em silêncio sobre Mamdani durante toda a campanha.


A questão é que Jeffries está em posição de assumir a presidência da Câmara dos Deputados — tornando-se o segundo na linha sucessória presidencial — caso os democratas vençam as eleições legislativas de novembro.


O caminho para a vitória não passa pelos distritos “azuis”, fortemente democratas. Em vez disso, passa pelos distritos “roxos”, mais competitivos, onde os democratas precisam derrotar os republicanos.


Ainda assim, a derrota do deputado democrata Adriano Espaillat, no cargo há cinco mandatos, para a socialista democrática Darializa Avila Chevalier, apoiada por Mamdani, tem implicações nacionais que podem complicar a tarefa de Jeffries.


“Se um membro dos Socialistas Democráticos da América consegue derrotar o presidente do caucus hispânico do Congresso, isso pode ter importância”, afirmou Matt Bennett, cofundador da consultoria democrata centrista Third Way.


Ainda mais relevantes podem ser posições defendidas por Avila Chevalier em antigas publicações nas redes sociais, como a defesa da abolição da polícia e dos controles de fronteira, além de questionamentos sobre o direito de Israel de existir.


“Esse é exatamente o tipo de pessoa que eles (os republicanos) adoram usar como arma política contra outros democratas que disputam eleições acirradas", disse Bennett.


O ex-deputado Israel concordou e afirmou em entrevista: “Eu realmente temo que a força dos socialistas democráticos em lugares como Nova York e Califórnia seja interpretada equivocadamente como o centro de gravidade do Partido Democrata em todo o país”, seja nas eleições deste ano ou na disputa presidencial de 2028.


Desde então, Avila Chevalier apagou as publicações e pediu desculpas por parte da linguagem utilizada.


Mas, em entrevista a um consórcio de editores na semana passada, ela afirmou: “Acho que simplesmente não deveríamos ter um sistema que permita deportações (de migrantes)”, acrescentando que ele está “enraizado em uma ideologia profundamente racista”.


Em resposta às suas posições, Espaillat afirmou que Avila Chevalier “não pode simplesmente varrer essas questões para debaixo do tapete”. "Darializa adotou posições muito extremas, como refletem seus comentários nas redes sociais até pouco tempo atrás”, escreveu ele no X em 16 de junho. “Ela não está apta para exercer um cargo público, e os eleitores são inteligentes o suficiente para perceber isso.”


Alex Jacquez, estrategista progressista que foi assessor da campanha presidencial de Bernie Sanders em 2020, afirmou que grupos focais e pesquisas de opinião transmitem uma mensagem clara: o grau de insatisfação dos eleitores democratas com suas lideranças é profundo.


“É aí que realmente aparecem as linhas de fratura. Você está disposto a enfrentar os ricos, as grandes corporações e o status quo para entregar resultados? Ou não?”, afirmou, referindo-se à mensagem populista com a qual os socialistas democráticos pretendem conquistar apoio nas eleições deste ano, nas de 2028 e além.


Enquanto isso, fora dos distritos fortemente democratas de Nova York, Califórnia e outros redutos do partido, os democratas estão lançando candidatas com sólida experiência militar em estados como Flórida e Colorado, por exemplo.


“A maioria dos distritos competitivos para os democratas são distritos vermelhos ou rosados, que só podem ser conquistados por democratas em locais onde posições mais moderadas encontram ressonância em disputas contra republicanos que já ocupam o cargo”, afirmou Israel.


Uma eleição presidencial não é vencida nos estados fortemente democratas, acrescentou. “Ela é vencida em sete estados-pêndulo moderados.”