Em reação a ameaças de Trump sobre Groenlândia, Parlamento Europeu susta ratificação de acordo comercial com EUA

 

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A crise sem precedentes entre Donald Trump e seus parceiros europeus por causa da ofensiva do presidente americano para anexar a Groenlândia escalou mais alguns degraus nesta terça-feira, com o republicano aumentando suas ameaças e provocações às vésperas de sua participação do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e o Parlamento Europeu reagindo com o anúncio de que está sustando a ratificação do acordo de comércio assinado com Washington em julho passado que removeria tarifas sobre produtos industriais dos EUA. Aplicando forte pressão sobre oponentes à anexação da Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca, Trump anunciou dias atrás tarifas de 10% a oito países europeus a partir de 1º de fevereiro — e que podem aumentar para 25% em junho, até que aceitem a anexação — o que levou a reações fortes na Europa.

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O acordo cuja ratificação foi adiada deveria entrar em vigor em março ou abril, após aprovação do Parlamento Europeu e dos governos nacionais da União Europeia (UE). Com a suspensão anunciada nesta terça-feira, os parlamentares europeus querem enviar uma forte mensagem de descontentamento a Trump.

— É uma alavanca extremamente poderosa, não creio que as empresas concordariam em desistir do mercado europeu — disse Valerie Hayer, presidente do grupo centrista Renovação, aos jornalistas em Bruxelas.

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Além da suspensão da ratificação, a UE discute a imposição de tarifas retaliatórias aos EUA no valor de 93 bilhões de euros (R$ 580 bilhões), assim como restrições ao acesso de empresas americanas ao bloco europeu.

Por sua vez, em posts em rede social e declarações à imprensa, Trump publicou mapa com a bandeira americana no território semiautônomo ártico pertencente à Dinamarca, divulgou mensagem com tentativa de conciliação recebida do presidente francês, Emmanuel Macron, disse que os líderes europeus "não oferecerão muita resistência" à sua vontade de incorporar a ilha, e lembrou os aliados de que os EUA são "o país mais poderoso do planeta", garantindo a paz no mundo "através da FORÇA!".

Trump viaja nesta terça para Davos, na Suíça, em meio à maior crise aberta com aliados ocidentais em décadas por seu avanço sobre a Groenlândia. Será sua primeira participação ao vivo desde 2020, em um clima de marcada tensão pelo recente anúncio de tarifas de 10% à Dinamarca e mais sete países europeus que se opõem à sua ofensiva e enviaram pequenos contingentes militares à ilha em solidariedade ao país nórdico. De madrugada, Trump disse disse que concordou em reunir-se com outros líderes às margens do fórum, mas em entrevista publicada em paralelo deixou claro que não estará lá para negociar nada.

Montagem publicada pelo Trump

Reprodução/Truth

"Eles não oferecerão muita resistência. Temos que conseguir. Eles têm que aceitar", disse Trump a um repórter na Flórida que lhe perguntou o que ele planejava dizer aos líderes do Velho Continente que se opõem aos seus planos.

O presidente disse ter conversado com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, por telefone, e "deixado claro" que a Groenlândia é "imprescindível para a segurança nacional e mundial" — um argumento que tem reiterado.

"Não há como voltar atrás — nisso, todos concordam!", escreveu Trump, que continuou: "Os Estados Unidos da América são, de longe, o país mais poderoso do planeta. Grande parte disso se deve à reconstrução de nossas Forças Armadas durante meu primeiro mandato, reconstrução essa que continua em ritmo ainda mais acelerado. Somos a única POTÊNCIA capaz de garantir a PAZ no mundo todo — e isso se faz, simplesmente, através da FORÇA!".

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Minutos depois, o presidente compartilhou em seu perfil na Truth Social mensagens privadas enviadas por Macron em que o líder francês se oferece para organizar uma reunião em Paris, após o encontro na Suíça. Macron também convidou o presidente americano para um jantar na quinta-feira.

"Meu amigo, nós estamos totalmente alinhados sobre a Síria. Nós podemos fazer grandes coisas no Irã. Eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia. Deixe-nos tentar construir grandes coisas", diz a mensagem atribuída a Macron.

O líder francês foi um dos aliados europeus a reagirem de forma mais enérgica aos últimos avanços de Trump. Macron enviou militares franceses à Groenlândia, no escopo dos treinamentos liderados pela Dinamarca — também apontado como uma iniciativa de dissuasão a qualquer intervencionismo dos EUA. A participação colocou Paris na lista de países que Trump anunciou tarifas adicionais de 10% sobre exportações. Em seu discurso em Davos, Macron acusou os EUA de tentar subordinar a Europa por meio de uma política de tarifas que classificou como "inaceitáveis".

O presidente da França, Emmanuel Macron, participou do Fórum Econômico de Davos nesta terça-feira

Fabrice Coffrini/AFP

— A competição dos EUA por meio de acordos comerciais que prejudicam nossos interesses de exportação exigem concessões máximas e visam abertamente enfraquecer e subordinar a Europa —disse Macron, que falou às autoridades reunidas na cidade suíça usando um óculos escuro espelhado. — [Essas tarifas] somadas a um acúmulo interminável de novas tarifas são fundamentalmente inaceitáveis, ainda mais quando usadas como forma de pressionar a soberania territorial.

Ainda durante a madrugada, o presidente americano publicara duas imagens geradas por IA. Em uma delas, líderes europeus — incluindo Macron e Rutte — aparecem em volta de uma mesa, olhando para Trump, enquanto ele discursa e gesticula ao lado de um mapa, que mostra a Groenlândia, o Canadá e a Venezuela com a bandeira americana.

Em outra imagem provocativa, Trump aparece ao lado do vice-presidente americano, JD Vance, e do secretário de Estado Marco Rubio, fincando uma bandeira americana na Groenlândia em um terreno parcialmente congelado. Em uma placa visível, lê-se: "Groenlândia — território americano desde 2026".

Imagem gerada por IA mostra líderes europeus enfileirados, ouvindo Trump; ao fundo, mapa mostra Groenlândia, Canadá e Venezuela como territórios americanos

Reprodução

As provocações do presidente americano não passaram despercebidas em Davos. Em uma declaração à imprensa nesta terça-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu que a resposta da Europa às repetidas ameaças de Trump será "firme".

— Mergulhando-nos em uma espiral descendente, isso só beneficiaria os próprios adversários que ambos estamos tão empenhados em manter fora do cenário estratégico. Portanto, nossa resposta será firme, unida e proporcional — disse von der Leyen.

Von der Leyen também alertou Washington de que a imposição de tarifas punitivas aos aliados seria um erro. Ela prometeu ampliar os investimentos europeus na Groenlândia, admitindo trabalhar com os EUA.

— Estamos trabalhando em um aumento maciço de investimentos europeus na Groenlândia — disse a autoridade europeia. — Trabalharemos com os EUA e todos os parceiros em prol da segurança no Ártico em geral. Isso é claramente do nosso interesse comum.

Também em Davos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tentou acalmar os ânimos. Em uma declaração inicial, ele tentou diferenciar as tarifas relacionadas à Groenlândia das ameaçadas em resposta pela Europa e exortou todos os países a manterem seus "acordos comerciais" — a UE também ameaçou travar a tramitação de um acordo obtido anteriormente com os EUA.

Em entrevista coletiva no Fórum Econômico Mundial, Bessent pediu ainda que as pessoas "relaxem, respirem fundo e deixem as coisas acontecerem", enquanto as declarações de Trump sobre possíveis tarifas contra países europeus por causa da Groenlândia dominavam as conversas em Davos. (Com AFP e NYT)