Lourenço Mutarelli tinha um irmão mais novo que costumava lhe pedir livros emprestados. Ele os emprestava, mesmo sabendo que não voltariam. Mas havia um que queria de volta: “O clube do suicídio e outras histórias”, do escritor escocês Robert Louis Stevenson. Não conseguiu. Nem depois da morte do irmão, em abril de 2024, aos 56 anos. Luiz Fernando Mutarelli estudou Direito, foi policial civil e acabou preso por tráfico de drogas. Cumpriu cinco anos de pena. O crack, porém, o acompanhou por 30 anos. É a partir desta amarga história familiar que Lourenço resgata agora a memória do irmão nas páginas de “Me perdoe, senhor Stevenson”, uma espécie de versão, bastante pessoal e ricamente ilustrada, de “O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, a clássica novela de Stevenson (1850-1954). — Gosto de guardar o que li porque costumo grifar meus livros, e o grifo, para mim, é importante, pois eu os revisito muito — explica Lourenço Mutarelli em áudio enviado por aplicativo de mensagem. — Foi por isso que eu queria aquele exemplar de volta. O livro emprestado ao irmão — que segundo ele foi a pessoa mais silenciosa que conheceu — carregava não apenas a história de Stevenson, mas também os registros da leitura de Lourenço, que já via em Jekyll e Hyde uma metáfora para o consumo de drogas: — Acho que não tem nenhuma diferença entre o texto do Stevenson e o vício. Eu só quis evidenciar um pouco mais o que, para mim, já estava lá. Retrato do autor e ator Lourenço Mutarelli Renato Parada/Divulgação Segundo o escritor e quadrinista, nascido em São Paulo, o livro nasceu a partir de um convite de Rodrigo Teixeira, que produziu o filme “O cheiro do ralo” (2006), baseado na obra do autor. Eles acabaram ficando amigos na ocasião e, quando a situação aperta, ele liga para o produtor em busca de trabalho. No último pedido de ajuda, Mutarelli ainda passava por um momento delicado de saúde. — Eu sofri um infarto em 25 de novembro de 2020, com duas paradas cardíacas — revela o autor. — Ficou registrada só uma, mas a moça que acompanhou tudo falou que foram duas paradas. A experiência de quase morte de Mutarelli aparece de maneira indireta no recém-lançado “Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos”, seu décimo romance e uma narrativa em que envelhecimento, memória e solidão se misturam a sonhos e alucinações. — Eu nunca achei que fosse envelhecer — conta ele, que admite ainda beber e fumar, mas menos que antes. — E, com os problemas de saúde, com a parada cardíaca, de alguma forma eu tive uma morte. Então mudou a minha perspectiva. Eu não tenho muito horizonte: tenho um muro na minha frente. E isso me obriga a olhar muito para trás, a repensar muito. E vai mais longe na reflexão: — Não é só o fato do envelhecimento, né? Eu brinco que armei a cadeira de praia e, quando me sentei, tinha 17 anos. E, de repente, falaram que eu tinha 62. Eu não me preparei para a velhice. Nunca achei que eu fosse envelhecer. Nova HQ em produção Longe das HQs desde 2006, quando publicou “A caixa de areia: ou eu era dois no meu quintal” (Quadrinhos na Cia.), seu décimo álbum, Mutarelli revela que está trabalhando em uma nova narrativa do gênero, ainda em sigilo contratual e sem data de término, mas adianta que não é para o mercado nacional. — Não me vejo mais como um quadrinista que escreve romances, porque eu tinha parado com os quadrinhos — diz Mutarelli, de forma franca. — Eu fui para a literatura, que é o que eu mais gosto. Mas, curiosamente, nesse momento eu voltei a fazer quadrinhos. Então agora tenho sido um escritor que faz quadrinhos. A experiência de voltar aos quadrinhos também o fez perceber o quanto as duas linguagens são distintas: —A única coisa que acho importante é que é um pensar completamente diferente. Pensar quadrinho e pensar literatura é muito diferente. No quadrinho eu preciso elaborar muito mais. Preciso pensar como vai ser a aparência física, tenho que vestir, ambientar, pesquisar. Eu penso em enquadramento. E a literatura é como se estivesse observando algo acontecer.
Notícias
Em novo livro, Lourenço Mutarelli revisita a relação com o irmão para reflexão sobre vício, memória e perda
Fonte da notícia:
O Globo
O Globo
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site O Globo