Em mensagens, Vorcaro diz que Ciro Nogueira é 'grande amigo' e celebra emenda que favorecia Master

 

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Mensagens reforçam a relação de amizade entre Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira e mostram que o banqueiro celebrou uma emenda do parlamentar a um projeto que favorecia o Banco Master. Em conversas privadas de 2024, Vorcaro qualificou Nogueira como um 'grande amigo de vida'.

A emenda citada nas conversas foi apresentada por Ciro durante a tramitação da PEC que tratava da autonomia orçamentária do Banco Central. A sugestão de Ciro, que não foi contemplada em texto final do Congresso, sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para um R$ 1 milhão por depositante.

A proposta também defendia que o fundo deixasse de ter gestão privada. Hoje, esse montante é administrado pelas próprias instituições financeiras. Segundo o texto de Nogueira, isso passaria para a alçada do BC.

A ideia foi recebida com resistência pelo setor bancário, que avaliou que a mudança poderia elevar custos e alterar o funcionamento do sistema de garantia de depósitos. Em defesa, Ciro Nogueira disse que 'mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas'.

A mensagem veio à tona nesta quarta-feira (4), dia em que Vorcaro voltou à cadeia após nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude no Master.

A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, citou a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Além de Vocaro, também foi preso o cunhado dele, o empresário Fabiano Zettel, e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como 'Sicário', apontado como responsável por planejar ataques contra adversários do banqueiro.

Nessa quarta, a Polícia Federal informou que vai abrir um procedimento para investigar as circunstâncias de uma tentativa de suicídio praticada por Luiz Phillipi. A PF disse que 'Sicário' tentou tirar a própria vida, após ter sido preso, na cela em que estava, na Superintendência da corporação em Belo Horizonte.

A Secretaria de Saúde de Minas Gerais afirmou que ele está sob cuidados no CTI do Hospital João 23, onde teve morte cerebral constatada. Luiz Phillipi executava ordens de monitoramento de alvos, extração ilegal de dados em sistemas sigilosos e ações de intimidação física e moral, segundo a polícia.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro revelaram a existência de um grupo de WhatsApp, chamado 'A Turma', no qual eram discutidas ações de perseguição, intimidação e até violência contra adversários, incluindo jornalistas.

Um dos alvos era o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo e da CBN. O banqueiro teria autorizado simular um assalto para 'quebrar os dentes' do jornalista. Em outro momento, Vorcaro relatou ameaças de uma empregada e ordenou que Sicário obtivesse o endereço dela. Na mensagem, o banqueiro disse 'tem que moer essa vagabunda'.

Vorcaro e o cunhado Fabiano Zettel tiveram a prisão preventiva mantida e foram levados ao Centro de Detenção Provisória de Guarulhos, na Grande São Paulo.

A defesa de Vorcaro afirmou que ele 'sempre esteve à disposição das autoridades' e negou qualquer tentativa de obstrução. Segundo os advogados, as mensagens atribuídas ao empresário foram 'tiradas de contexto' e ele jamais teve a intenção de intimidar jornalistas. Zettel declarou que está à disposição da Justiça.

O jornal O Globo informou que a empresa e os jornalistas não se intimidarão com ameaças e continuarão acompanhando o caso e divulgando as informações de interesse público.

O avanço da investigação demonstrou a possibilidade de o grupo do banqueiro ter acesso indevido a sistemas sigilosos da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até da Interpol. Além da rede de influência com políticos e autoridades, a apuração mostra que pessoas próximas do empresário acessavam informações privilegiadas.

Na decisão, Mendonça também destacou a interlocução do empresário com dois servidores do Banco Central que deveriam atuar na fiscalização da instituição financeira, mas foram cooptados para prestar serviços a Vorcaro.

Conforme a apuração, o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe de departamento de Supervisão Bancária do BC Belline Santana atuaram como 'consultores informais' de Vorcaro de dentro do Banco Central.

Eles teriam recebido mesada para ajudar o Master a driblar a fiscalização do BC. Há suspeitas até de auxílios para viagens a Disney, em Orlando.

Os diretores foram afastados dos cargos em janeiro, por determinação do próprio Banco Central, que abriu investigação para apurar o caso.

A PF também descobriu que Vorcaro pode ter acessado informações sobre o inquérito sigiloso aberto contra o Master para investigar as fraudes nas carteiras de crédito vendidas ao Banco de Brasília.

A Segunda Turma do Supremo vai avaliar se mantém a prisão de Vorcaro a partir do dia 13 de março.