O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) se reuniu nesta terça-feira (20) com mais de 300 influenciadores digitais, num evento promovido pelo influenciador Pablo Marçal. Em um auditório fechado em Barueri, na Grande São Paulo, Marçal falou que “está eleição não é a da esperança, é a eleição do medo”, orientou os criadores de conteúdo digital a evitarem críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) para evitar ações judiciais, e criticou o deputado federal André Janones (Rede-MG), que comanda o canal de WhatsApp a favor do presidente Lula (PT), que já supera os mais de 5 milhões de inscritos.
Ao final do evento, Flávio fez uma fila de influenciadores que gravaram vídeos de alguns segundos ao lado do candidato, com a orientação de que os materiais sejam publicados em massa a partir dos “comandos” de Marçal.
— Esses quatro dias nós não precisamos ficar pensando em lógica de voto racional, o segredo está no voto emocional – bradou Marçal, indicando que os influenciadores questionem seus seguidores se eles acham justo que um jovem de 16 anos que abusa de uma criança não seja preso. — Você vence uma ideia ou pela esperança, ou pelo prazer e, se não der conta de vencer nesses dois, vence pela dor. Se a gente não consegue vencer na esperança, o PT não consegue. Todas as pesquisas que a gente fez, ninguém acredita na esperança. Eles ganharam a presidência em 2003 pela esperança. Aí veio o prazer “agora você vai ter tal coisa”, o prazer de ter algum benefício. Só que hoje não tem nem esperança, nem prazer, a picanha acabou. Qual é a forma de fazer eles perderem votos? Medo. O medo atrai. Essa é a eleição do medo. Marçal sugere ‘marco zero’ e pede para influenciadores não falarem mal de Lula Marçal embarcou na campanha de Flávio com mais força a partir da definição do candidato no segundo turno, e inclusive o ajudou no treinamento para o debate da Band, realizado no último domingo. Ele minimizou o fato da estratégia digital mudar somente faltando quatro dias para o pleito, falando que agora será possível fazer uma “onda sobre onda” que não será possível de ser rebatida antes do dia do eleitor ir às urnas. Esse mesmo modelo foi adotado por ele na campanha da capital paulista há dois anos, mas ele ficou em terceiro lugar na disputa e não foi ao segundo turno.
Marçal chamou o encontro de “marco zero” para os influenciadores da direita nesta eleição, e atrelou a estratégia a uma outra frente da campanha, de investir em artistas sertanejos. Na tarde desta terça, o senador vai a Goiás se reunir com músicos deste segmento. As orientações não se restringiram à palestra, já que a campanha fez uma comunidade com influenciadores na qual o empresário vai dar “comandos” para publicações nos próximos dias. Esse movimento de manada foi testado no próprio evento, quando houve um pedido para que a plateia compartilhasse imediatamente um vídeo que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) havia publicado a pouco. Nesta terça, ele disse que a estratégia agora é mirar quem não decidiu o voto ainda ou quem está “magoado” com alguma fala de Jair Bolsonaro (PL) ou do filho, deve ser “não falar do PT”, destacando que Flávio seria o “remédio” para quem não gosta de Lula, mas também “não morre de amores” pelo próprio candidato do PL. Outra recomendação foi evitar fazer postagens críticas ao STF, porque essa pauta seria “antiestratégica” já que “a qualquer momento alguém pode sortear uma ação e cair na mão de quem está ameaçado”.
– Nós não vamos bater em petistas, não falaremos mal de Lula, eu não vou mais tocar no nome dele em quatro dias. Nós não tocaremos no nome dele de forma negativa, porque isso vai dar um negócio. Não tem como converter petista roxo, mas uma pessoa que está magoada com uma fala do Bolsonaro, vai tentar ouvir. Nós temos um marco zero, e a partir de agora as organizações serão diferentes — disse.
Em alguns momentos, a conversa foi sobre como se contrapor a estratégia digital da esquerda, que foi completamente transformada no segundo turno, com o engajamento explícito de influenciadores, artistas e com a ajuda de Janones por meio do canal Exército do Lula. O petista passou a postar vídeos em formato “selfie” em suas redes, incluiu em sua campanha parlamentares jovens do PT e PSOL que se elegeram graças ao grande engajamento digital que possuem e apoiadores do presidente passaram a adotar táticas de “comandos” para subir conteúdos com a mesma temática ao mesmo tempo, a fim de angariar mais visibilidade. Ao referir-se a isso, Marçal chamou a eleição de “guerra” e falou em “prever movimentos”, e chegou a dizer que Janones está “pedindo arrego”. O deputado mineiro teve uma arritmia cardíaca no último domingo e ficou internado até a manhã desta terça-feira no Hospital Vila Nova Star.
– Quando os influenciadores indecisos assistirem a gente, eles vão falar “eu vou”, porque ninguém quer ficar fora de um projeto – falou. — Por que que a gente deixou essa parte da discussão, essa parte do final? Porque depois que gera onda, não tem como invertê-la. Aí é uma onda sobre onda. Os artistas já apareceram. Tudo que o Lula tinha que fazer, já apareceu, já tirou o leite de pedra, já fez tudo. Ao discursar para a plateia de influenciadores aliados, Flávio agradeceu pelo apoio e focou na segurança pública, repetindo promessas que já vem fazendo durante toda a campanha de levar mais segurança e "prosperidade" aos brasileiros. Ele também mencionou brevemente o Bolsa Família, na esteira da fala da coordenadora econômica de sua campanha, Daniella Marques, que afirmou que se o senador foi eleito presidente, vai instituir uma regra de transição para que os beneficiários do auxílio deixem de receber o dinheiro após dois anos. O tema foi amplamente explorado pela campanha de Lula.
– Eu quero levar prosperidade para dentro das famílias. Eu quero mostrar que, se o Estado não atrapalhar, quem quer ganhar pelas próprias pernas, quem quer vencer na vida, vai. Por que a gente não pode despertar esse sonho também nas pessoas mais pobres? Elas entenderam que se o Estado precisar, vai estar lá, eu vou cuidar. Vai ter o Bolsa Família para quem precisa. Só que eu quero mais. Porque o verdadeiro sucesso do Bolsa Família se mede pela quantidade de pessoas que não precisam dessa ajuda do governo – falou o candidato.
O Globo