Em discurso no Congresso dos EUA, Charles III diz que aliança entre Washington e Londres é 'insubstituível e inquebrável'

 

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No primeiro discurso de um monarca britânico ao Congresso dos EUA no Século XXI, o rei Charles III defendeu a união entre dois aliados históricos, classificada de "insubstituível e inquebrável" e chamada de "uma das alianças mais importantes da História”. Foi um dos pontos altos de uma viagem cercada de polêmicas, que tem entre seus objetivos aparar as arestas entre Londres e Washington neste segundo mandato do presidente Donald Trump.

— Nos encontramos em tempos de grande incerteza; em tempos de conflito da Europa ao Oriente Médio, que representam imensos desafios para a comunidade internacional e cujo impacto se faz sentir em comunidades por toda a extensão dos nossos próprios países. — afirmou Charles III, sob aplausos de uma plateia que reuniu parlamentares, integrantes do governo federal, das Forças Armadas, da Suprema Corte e de outros campos da sociedade dos EUA. — Quaisquer que sejam nossas diferenças, quaisquer que sejam as nossas divergências, permanecemos unidos em nosso compromisso de defender a democracia e proteger todo o nosso povo de qualquer mal.

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Segundo o monarca, a relação entre EUA e Reino Unido "foi nascida da disputa, mas nem por isso é menos forte", referência ao passado colonial e à luta pela independência americana.

— Assim, talvez, com este exemplo, possamos entender que nossas nações são, de fato, instintivamente semelhantes em termos de mentalidade, um produto das tradições democráticas, jurídicas e sociais comuns nas quais nossa governança está enraizada até hoje — afirmou. — O vínculo de parentesco e identidade entre os Estados Unidos e o Reino Unido é inestimável e eterno; é insubstituível e inquebrável.

Em uma mesma parte do discurso, Charles III levantou dois temas frequentes nas queixas públicas de Trump: o primeiro, a crise climática (o monarca é um defensor de ações para conter o aquecimento global, negado pelo líder americano), com uma menção ao derretimento do gelo no Ártico.

— Nossa geração precisa decidir como lidar com o colapso de sistemas naturais críticos, que ameaça muito mais do que a harmonia e a diversidade essencial da natureza — disse, tratando a crise do clima como uma questão de segurança nacional e global.

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O segundo, a Otan, a principal aliança militar do Ocidente, da qual o republicano com frequência ameaça sair, especialmente depois da recusa dos países da organização em se juntarem à sua guerra contra o Irã.

— Essa é era que, em muitos aspectos, é mais volátil e mais perigosa do que o mundo ao qual minha falecida mãe se referiu, nesta Câmara, em 1991 — disse, em menção ao discurso da rainha Elizabeth II no Congresso naquele ano. — Os desafios que enfrentamos são muito grandes para que uma nação os enfrente sozinha. Mas, neste ambiente imprevisível, a nossa aliança não pode assentar em conquistas passadas, nem presumir que os princípios fundamentais simplesmente perduram.

Em outro tópico delicado, pediu que o mesmo apoio global dado aos EUA após os ataques de 11 de Setembro de 2001 seja oferecido "para a defesa da Ucrânia e do seu povo corajoso — para garantir uma paz verdadeiramente justa e duradoura". Trump, ao contrário de seu antecessor, Joe Biden, jamais foi um entusiasta do apoio irrestrito a Kiev.

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CHIP SOMODEVILLA / Getty Images via AFP

À maneira da realeza britânica, que se expressa mais nas entrelinhas do que nas aspas, Charles III citou uma fala do novelista irlandês Oscar Wilde — “Hoje em dia, temos praticamente tudo em comum com os Estados Unidos, exceto, é claro, o idioma!” —, e fez referência à tentativa de ataque contra um jantar de correspondentes na Casa Branca, no sábado, que teria Trump como alvo principal.

— Permitam-me afirmar com uma resolução inabalável: tais atos de violência nunca terão sucesso — declarou.

Mas também disse que "as palavras dos Estados Unidos têm peso", quiçá uma menção indireta à verborragia trumpista em discursos, entrevistas, reuniões e redes sociais.

— Que nossos dois países se dediquem novamente um ao outro no serviço altruísta aos nossos povos e a todos os povos do mundo — afirmou, antes de exclamar que o caminho compartilhado por EUA e Reino Unido é de "reconciliação, renovação e parceria notável”, que fomentou "uma das alianças mais importantes da História”.

Chá e problemas na relação

Charles III chegou aos EUA na segunda-feira, acompanhado pela rainha britânica, Camila, e foram recebidos por Trump e pela primeira-dama americana, Melania, em um chá privado na Casa Branca, seguido por uma visita ao apiário da sede do Poder Executivo do país. Mais tarde, uma segunda cerimônia regada a chá ocorreu nos jardins da Embaixada do Reino Unido. Mas além de um cardápio recheado de itens clássicos da sociedade britânica, como sanduíches de pepino e tortas de frutas, o mal-estar entre os dois países estava exposto aos comensais e aos que não foram convidados.

Rei britânico, Charles III, cumprimenta convidados em recepção na Embaixada do Reino Unido em Washington

Roberto Schmidt/Getty Images/AFP

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, sua relação com o premier britânico, Keir Starmer, passou por muitos altos e baixos, com desavenças claras sobre a defesa coletiva da Europa, o futuro da guerra na Ucrânia e, mais recentemente, o conflito lançado por EUA e Israel contra o Irã. O republicano jamais escondeu sua insatisfação com a falta de apoio europeu para a guerra, e mesmo as concessões feitas por Londres, como a permissão do uso de bases militares, não melhoraram a situação.

O caso Epstein, que atinge politicamente Trump e Starmer, além da própria família real, jogou ainda mais gasolina na fogueira, e houve cobranças para que Charles III se reunisse com as vítimas do financista. Os crimes não foram mencionados explicitamente nesta terça, mas talvez nas entrelinhas.

— Em ambos os nossos países, é justamente o fato de termos sociedades vibrantes, diversas e livres que nos dá força coletiva, inclusive para apoiar as vítimas de alguns dos males que, tão tragicamente, existem em nossas sociedades hoje — disse o monarca.

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Neste contexto, a visita de Charles III soa como uma iniciativa de peso para tirar o elefante da sala. Trump tem uma fascinação herdada da mãe, Mary Anne (uma imigrante vinda da Escócia), pela família real britânica. Em fevereiro do ano passado, quando Starmer levou ao presidente uma carta do monarca, o republicano não escondeu a satisfação com as palavras e com o convite para uma visita de Estado. Para analistas, uma jogada de mestre em meio ao já caótico segundo mandato trumpista.

Horas antes de falar ao Congresso, Charles III e Camila foram recebidos por Trump com uma cerimônia formal na Casa Branca, com tropas em revista, disparos de canhão e uma banda marcial. Em rápidas declarações, o presidente evitou temas políticos, e disse que se sua mãe estivesse viva, “estaria colada na televisão”, antes de fazer uma revelação íntima.

— Também me lembro dela dizendo muito claramente: "Charles... olha, o pequeno Charles, ele é tão fofo". Minha mãe tinha uma queda por Charles. Dá para acreditar? — afirmou o presidente.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o rei britânico, Charles III, entreolham-se durante recepção na Casa Branca

Aaron Chown/AFP

Em entrevista à rede CNN, o embaixador britânico nos EUA, Christian Turner, lembrou que esta não é a primeira visita de um monarca aos Estados Unidos em tempos de crise transatlântica. Ele citou a viagem de Elizabeth II em meio à Crise de Suez, nos anos 1950, e o encontro entre George VI e o então presidente Franklin Roosevelt em Washington pouco antes do estouro da Segunda Guerra Mundial, quando Londres queria convencer os americanos a se juntarem contra o regime da Alemanha nazista.

— Nossos dois países já tiveram momentos em que as abordagens a questões internacionais foram diferentes — disse Turner. — Mas o rei está acima disso e é exatamente por isso que este é um momento para nos lembrarmos de que essa relação é profunda. Ela perdurará.