Em acordo com Japão, Governo dos EUA fica com fatia de fábrica de chips

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Durante anos, os Estados Unidos tentaram impulsionar a produção doméstica de semicondutores por meio de uma combinação de subsídios e empréstimos federais. O governo de Donald Trump está adotando uma abordagem bem diferente, canalizando dinheiro estrangeiro para o setor e exigindo, em troca, uma fatia para os contribuintes americanos.

O exemplo mais recente foi um acordo incomum para uma fábrica de semicondutores no norte do estado de Nova York, anunciado nesta semana. Bilhões de dólares em financiamento japonês foram destinados à construção de uma unidade que será operada pela fabricante americana de chips GlobalFoundries.

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Mas, diferentemente das outras fábricas da GlobalFoundries em Nova York, o projeto no norte do estado terá como coproprietários os Estados Unidos e o Japão, por meio de uma sociedade de propósito específico. Espera-se que US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50 bi) em financiamento japonês acelerem a construção da fábrica, que começará a produzir chips para carros, fábricas e data centers em 2029.

Outros US$ 10 bilhões poderão financiar uma segunda unidade, caso as partes a aprovem posteriormente. Pode-se chamar isso de financeirização do investimento público.

A parceria com o Japão é uma criação de Howard Lutnick, secretário de Comércio do presidente Donald Trump, um personagem do mercado financeiro de Nova York conhecido por adotar táticas pouco convencionais e agressivas para acumular fortuna. No segundo mandato de Trump, Lutnick tem usado a ameaça de tarifas como instrumento de pressão para arrancar grandes promessas de investimentos internacionais e transformou o Departamento de Comércio em uma operação de negociação que mobiliza esses recursos.

No caso do Japão, cuja economia depende das exportações de automóveis, tecnologia e aço, Lutnick e Trump ofereceram ao país tarifas mais baixas em troca da criação de um fundo de investimentos que o presidente poderia direcionar para projetos escolhidos por ele. Até agora, o Japão concordou em financiar uma usina de gás natural em Ohio, uma instalação para exportação de petróleo bruto na Costa do Golfo dos Estados Unidos e uma fábrica de diamantes sintéticos na Geórgia, entre outros projetos ligados à energia nuclear, minerais críticos e outras áreas.

Os lucros do projeto de chips em Nova York deverão ser divididos entre os governos dos Estados Unidos e do Japão, com a GlobalFoundries também ficando com uma parcela. A fabricante de chips também receberá uma série de taxas pelo uso de sua tecnologia e pela operação da unidade.

E o governo americano ficará com uma participação acionária na GlobalFoundries, uma das dezenas de participações em empresas privadas — entre elas a fabricante de chips Intel — adquiridas pelo governo Trump desde o ano passado. Falando na fábrica da GlobalFoundries em Nova York na quarta-feira, Lutnick exaltou os benefícios do projeto.

— Os Estados Unidos da América não apenas ganham dinheiro com as tarifas sobre o Japão, como também ficamos com 50% dos lucros de fluxo de caixa desse investimento de US$ 20 bilhões — afirmou. — E, além disso, devido à escala desse investimento, a GlobalFoundries concordou em nos dar 7% da empresa, o que, pelo valor atual de mercado, equivale a cerca de US$ 2 bilhões.

Lutnick disse que Trump ainda não havia decidido o que fazer com as ações que a empresa havia dado aos Estados Unidos, mas afirmou que, pessoalmente, era favorável a colocá-las nas "Trump Accounts", novas contas de poupança para crianças com benefícios fiscais. A GlobalFoundries, cujo acionista majoritário é o fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, há muito tempo recebe recursos e contratos do governo americano.

O governo Biden aprovou US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,5 bi) em financiamento e outros US$ 1,6 bilhão (ou R$ 8 bi) em empréstimos em 2024 para apoiar a produção de chips da empresa. A companhia também opera como uma “foundry confiável”, fornecendo semicondutores para as Forças Armadas dos Estados Unidos.

A empresa já avaliava a expansão há alguns anos e decidiu levá-la adiante após discussões com o governo e o Japão. O projeto aumentaria em 10% a capacidade do país de produzir semicondutores, usados para alimentar desde carros e torradeiras até data centers, e se tornaria uma das maiores instalações do tipo no país.

Republicanos e democratas vêm pressionando nos últimos anos pelo aumento da produção doméstica de chips, depois que a escassez durante a pandemia desacelerou a produção de automóveis e alimentou a inflação. Trump e integrantes de seu gabinete vêm promovendo investimentos no Alasca, em Iowa e na Carolina do Norte, alguns dos quais parecem mais propensos a se concretizar do que outros, enquanto tentam elevar seus índices de aprovação antes das eleições de meio de mandato.

Depois de um evento no mês passado para celebrar o que Trump disse que seria um gasoduto no Alasca financiado pela Coreia do Sul, autoridades sul-coreanas esclareceram que haviam se comprometido a levar o projeto adiante apenas se ele fosse considerado comercialmente viável. Trump tem feito repetidamente afirmações exageradas sobre investimentos estrangeiros, incluindo a de que seu governo atraiu US$ 20 trilhões para o país — uma soma equivalente a mais de dois terços do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos.

Na quarta-feira, Lutnick apresentou suas próprias contas: um compromisso de US$ 550 bilhões do Japão, US$ 350 bilhões em promessas da Coreia, além de outros US$ 500 bilhões para construir fábricas taiwanesas de semicondutores. — Ninguém jamais viu ou ouviu falar de números desse tipo antes — disse Lutnick.

Na GlobalFoundries, todas as partes manifestaram entusiasmo em avançar com a primeira fase do projeto, de US$ 10 bilhões. A segunda fase, que elevaria o investimento total para cerca de US$ 21 bilhões, ainda está sujeita a uma “decisão de avançar ou não” entre os acionistas antes do fim de 2028, informou a empresa.

Tim Breen, CEO da GlobalFoundries, disse em entrevista que a empresa queria expandir suas operações havia algum tempo, mas que o governo a havia pressionado a “pensar maior”. — Então, chegamos a esse conceito de expandir esta unidade em duas fases — acrescentou.

Pradip Singh, diretor de manufatura da GlobalFoundries, afirmou que a iniciativa seria positiva para os acionistas da empresa, permitindo que a companhia fornecesse a seus clientes chips produzidos nos Estados Unidos sem arcar com o custo adicional da expansão da capacidade. Autoridades americanas também descreveram como um benefício para os contribuintes dos Estados Unidos o fato de o Japão estar bancando o projeto.

Autoridades japonesas, que participaram da cerimônia na quarta-feira, ressaltaram que a fábrica usaria equipamentos japoneses para produzir seus chips e forneceria parte dos produtos a uma empresa de tecnologia no Japão.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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