247 – O bilionário Elon Musk, que em novembro de 2024 afirmou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perderia a eleição presidencial brasileira de 2026, terminou as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos como um dos maiores derrotados do processo eleitoral. O bilionário investiu centenas de milhões de dólares para garantir a permanência do Partido Republicano no controle do Congresso, mas assistiu a uma vitória histórica dos democratas, que conquistaram maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, em uma expressiva reação eleitoral contra o presidente Donald Trump e a extrema direita americana.
A derrota tem um significado especial para Musk. Em novembro de 2024, depois de a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, ter mandado o empresário “se foder” durante um evento paralelo ao G20, no Rio de Janeiro, o dono da rede social X respondeu com uma provocação dirigida ao governo brasileiro: “Eles vão perder a próxima eleição” (“They will lose the next election”, em inglês).
A declaração foi publicada em sua conta na plataforma em 16 de novembro daquele ano, em referência à disputa presidencial de 2026. Dois anos depois, a previsão de Musk sobre o Brasil não se confirmou: Lula venceu a disputa pela reeleição.
O empresário ainda questionou publicamente o resultado, compartilhando uma publicação que colocava em dúvida a contagem dos votos, sem apresentar provas de irregularidades. Agora, o resultado das urnas americanas impõe ao próprio Musk uma derrota política de grandes proporções.
R$ 2,6 bilhões para salvar os republicanos De acordo com levantamento do The New York Times publicado pelo UOL, Musk destinou aproximadamente US$ 474 milhões, cerca de R$ 2,6 bilhões, a estruturas políticas republicanas no ciclo eleitoral de 2025-2026.
O montante faz dele o maior doador individual conhecido das eleições legislativas americanas e um dos maiores financiadores políticos da história recente dos Estados Unidos. Entre os principais repasses estão US$ 216 milhões para o America PAC, comitê de ação política criado pelo próprio empresário, US$ 168 milhões para o Senate Leadership Fund e US$ 30 milhões para o Congressional Leadership Fund.
Os dois últimos são estruturas de financiamento voltadas, respectivamente, às disputas pelo Senado e pela Câmara. O Texas recebeu atenção especial da operação: aproximadamente US$ 212 milhões foram direcionados a iniciativas de apoio ao republicano Ken Paxton, candidato derrotado na disputa pelo Senado estadual.
Os números consideram registros disponíveis até 14 de outubro e podem não representar o total definitivo. O investimento também representou uma mudança de posição pública do bilionário.
Em maio de 2025, Musk havia declarado que pretendia reduzir sua participação no financiamento eleitoral. Na prática, voltou a despejar recursos em campanhas republicanas, especialmente em estados considerados decisivos.
Sua operação incluiu mobilização de eleitores conservadores, propaganda e ações de convencimento porta a porta. Tsunami azul atinge Trump e a extrema direita
O resultado de 3 de novembro foi uma demonstração da força da reação democrata à agenda de Trump. O partido conquistou o controle das duas casas do Congresso, ampliou sua presença em estados tradicionalmente republicanos e obteve vitórias importantes em disputas estaduais.
No Texas, um dos principais alvos da operação financeira de Musk, o democrata James Talarico derrotou Ken Paxton na disputa pelo Senado. Na eleição para governador, Gina Hinojosa também conquistou uma vitória histórica sobre o republicano Greg Abbott, tornando-se a primeira mulher latina a governar o estado.
Os democratas ainda venceram disputas importantes na Carolina do Sul e no Kansas, ampliando o alcance nacional da onda azul. A insatisfação com o custo de vida, as tarifas comerciais, a condução da guerra contra o Irã e as acusações de corrupção envolvendo o governo Trump estiveram entre os fatores que contribuíram para o resultado.
Pesquisas de boca de urna indicaram que metade dos eleitores encarou a votação como uma oportunidade de manifestar oposição ao presidente. Sete em cada dez defenderam que o Congresso exerça maior fiscalização sobre o Executivo, segundo levantamento citado pela Reuters.
A derrota republicana também representa um revés para o projeto de poder da extrema direita internacional. Musk não era apenas um financiador: tornou-se um dos principais articuladores políticos e propagandistas do movimento liderado por Trump, utilizando sua fortuna e o alcance da plataforma X para favorecer candidatos conservadores e atacar adversários.
Após a divulgação dos resultados, o empresário tentou tratar o revés com ironia. “Parece que meus lasers espaciais de interferência eleitoral não funcionaram desta vez”, escreveu no X, em referência às acusações de interferência política que frequentemente circulam sobre sua atuação.
A brincadeira, porém, não altera a dimensão da derrota: depois de investir quase meio bilhão de dólares para ajudar os republicanos, Musk viu seus aliados perderem o controle do Congresso e importantes redutos eleitorais. O resultado americano também expõe o limite do poder econômico na disputa democrática.
Mesmo com recursos financeiros extraordinários, influência sobre plataformas digitais e proximidade com o governo, Musk não conseguiu impedir que o eleitorado impusesse uma derrota contundente ao campo político que ajudou a financiar.
Brasil 247