Eleitores de Flávio Bolsonaro rejeitam contestação da eleição e cobram volta ao trabalho no Senado, aponta pesquisa

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Eleitores que votaram em Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial demonstram resistência à tentativa do senador de contestar a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo entre os apoiadores mais radicalizados, prevalece a avaliação de que o resultado das urnas deve ser aceito e de que o parlamentar precisa retomar suas atividades no Senado, em vez de prolongar a disputa eleitoral a partir dos Estados Unidos.

As conclusões são de pesquisas qualitativas conduzidas pela cientista política Esther Solano, especializada no estudo da direita brasileira, e divulgadas pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo. Os levantamentos foram realizados nos últimos dias, após a saída de Flávio do Brasil, e revelam um distanciamento entre a postura adotada pelo senador depois da derrota e as expectativas de parte de seu próprio eleitorado.

Os participantes demonstraram preocupação com o resultado da eleição e com as primeiras medidas do novo governo Lula, mas não manifestaram disposição generalizada para apoiar uma disputa judicial prolongada. O sentimento predominante é de expectativa em relação ao futuro político do país, acompanhado da percepção de que a eleição terminou e de que é necessário seguir adiante.

Eleitores defendem aceitação da derrota para Lula Segundo Esther Solano, duas expressões sintetizaram o comportamento dos entrevistados, independentemente do grau de identificação com o bolsonarismo.

“Apareceram muito duas expressões nos grupos, que eram ‘vida que segue’ e ‘bola pra frente’. E que não faz nenhum sentido que Flávio tente modificar alguma coisa, que agora é esperar daqui a quatro anos”, diz Solano.

A avaliação contrasta com as declarações de Flávio Bolsonaro após a eleição. Em seu primeiro pronunciamento depois da derrota, o senador se recusou a reconhecer o resultado e anunciou que buscaria contestá-lo judicialmente.

Posteriormente, recuou da possibilidade de apresentar uma ação para anular a eleição, mas manteve o discurso de não reconhecimento da vitória de Lula. Já em território estadunidense, chegou a se apresentar como presidente eleito e, depois, como líder do Brasil.

A postura provocou reações negativas nos grupos pesquisados. Segundo o levantamento, a autoproclamação de Flávio como presidente foi considerada ridícula inclusive por participantes identificados com as posições mais radicais do bolsonarismo.

Debate na Globo e condução do segundo turno receberam críticas As pesquisas também identificaram diferenças importantes entre os segmentos mais moderados e os mais radicalizados do eleitorado de Flávio.

Entre os chamados bolsonaristas “light”, predominou uma avaliação negativa do desempenho do senador no último debate presidencial, realizado pela TV Globo. Esses eleitores também consideraram que ele conduziu de maneira insatisfatória a campanha durante o segundo turno.

Já entre os apoiadores mais radicalizados, continuam presentes desconfianças sobre a lisura do processo eleitoral. Uma das principais suspeitas envolve a ampliação do horário de votação, apresentada por alguns participantes como possível elemento de irregularidade.

Entretanto, as dúvidas perderam força entre os entrevistados menos radicalizados quando receberam informações adicionais sobre o processo eleitoral. Parte dos participantes desconhecia que o próprio PL havia solicitado a prorrogação da votação.

Também não sabia que a quantidade de votos registrados depois do horário originalmente previsto para o encerramento era proporcionalmente muito pequena e insuficiente para modificar o resultado. Após terem acesso a esses esclarecimentos, eleitores menos radicais passaram a questionar a consistência das acusações de fraude.

Apesar das diferenças de interpretação, os dois segmentos convergiram em um ponto: a disputa presidencial deve ser encerrada, sem novas iniciativas destinadas a modificar o resultado das urnas. Fuga para os Estados Unidos divide apoiadores

A decisão de Flávio Bolsonaro de deixar o Brasil também foi examinada nos grupos de discussão. As respostas revelaram uma combinação de desconfiança em relação ao Judiciário e reconhecimento de que o senador pode enfrentar problemas decorrentes de investigações.

Parte dos entrevistados interpretou a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que Flávio entregasse seu passaporte como um possível sinal de perseguição judicial. Ao mesmo tempo, participantes admitiram que o parlamentar pode ter responsabilidades em fatos investigados, incluindo episódios relacionados ao Banco Master e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Essa percepção apareceu como uma das possíveis explicações para a decisão de Flávio de permanecer em território estadunidense. Os resultados indicam que a identificação política com o senador não impede que seus próprios apoiadores considerem a possibilidade de envolvimento dele em irregularidades.

A pesquisa, contudo, não estabelece responsabilidade criminal nem apresenta conclusões sobre as investigações mencionadas. Salário de senador sem trabalhar provoca indignação

Uma das críticas mais contundentes identificadas por Esther Solano diz respeito à manutenção da remuneração parlamentar de Flávio Bolsonaro enquanto ele permanece fora do Brasil e não exerce presencialmente suas funções no Senado. A situação provocou questionamentos entre os participantes, que consideram inadequado o recebimento de recursos públicos sem a correspondente prestação de serviços.

“Apareceu muito forte a ideia de que se ele quer receber o salário, vai ter que vir aqui, vai ter que dar as caras, vai ter que trabalhar”, afirma a pesquisadora. A cobrança pelo retorno ao trabalho parlamentar apareceu mesmo entre eleitores que mantêm simpatia política pelo senador.

Nesse aspecto, o levantamento revela que o apoio eleitoral não se traduz necessariamente em aceitação irrestrita de suas decisões pessoais e políticas. Os entrevistados demonstraram disposição para cobrar responsabilidades relacionadas ao mandato, inclusive diante da permanência do parlamentar nos Estados Unidos.

Pesquisa revela limites da mobilização bolsonarista após a eleição Os resultados apresentados por Esther Solano apontam dificuldades para transformar a insatisfação com a derrota presidencial em uma mobilização permanente contra o resultado eleitoral.

Embora persistam suspeitas de fraude entre os segmentos mais radicalizados, a disposição predominante nos grupos é de encerrar a disputa e acompanhar os próximos passos do governo Lula. A rejeição à autoproclamação de Flávio como presidente, as críticas ao desempenho eleitoral e a cobrança pelo retorno ao Senado indicam que o senador enfrenta questionamentos dentro de sua própria base de apoiadores.

Por se tratar de pesquisas qualitativas, os resultados descrevem percepções identificadas entre os participantes e não permitem estabelecer percentuais representativos de todo o eleitorado de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, os relatos mostram que, entre os eleitores consultados, a prioridade deixou de ser a contestação da vitória de Lula e passou a ser a normalização da vida política, com a expectativa de que Flávio cumpra as responsabilidades do mandato para o qual foi eleito.

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