Idealizadora do Movimento Voto 70 , Cléa Klouri cita desigualdade social e etarismo entre principais preocupações Gabriel Reis/Valor - 27/4/2026 A disputa acirrada nesta eleição presidencial e o envelhecimento da população brasileira deram protagonismo, no pleito de 2026, aos eleitores de 70 anos ou mais, faixa etária em que o voto deixa de ser obrigatório. O número de brasileiros com 70 anos ou mais aptos a votar cresceu 15,8% desde o último pleito presidencial, em 2022, e atingiu 17,25 milhões. Na média do eleitorado, o aumento foi de apenas 1,46%. Com isso, a fatia dos 70+ no eleitorado brasileiro passou de 9,5% para 10,9%. Ao mesmo tempo, a abstenção caiu entre os eleitores mais velhos. Se considerados os primeiros turnos das eleições presidenciais desde 2014, o comparecimento às urnas avança desde então e ficou em mais da metade (50,8%) dos eleitores de 70 anos ou mais em 2026, mostram dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reunidos pelo Movimento Voto 70+. Esses percentuais foram de 36,4% em 2014, 37,3% em 2018 e 41,1% em 2022. Nesse grupo, quanto maior a idade, menor é a parcela dos votantes. O Movimento Voto 70+ foi lançado em abril para ampliar a participação desse público nas decisões eleitorais. O foco inicial foi na regularização dos títulos e troca para seções eleitorais próximas das moradias, para reduzir barreiras ao voto. Desde então, foram realizados diferentes levantamentos para entender melhor esse eleitor.
Para especialistas ouvidos pelo Valor, a maior presença de idosos nas eleições está ligada a alta no número de eleitores aptos nessa faixa etária, população idosa mais ativa, polarização política e proximidade da parcela de intenção de votos nos dois principais presidenciáveis. Nesse cenário, o voto dos 70+ passou a ser mais disputado. A possibilidade de usar o voto como prova de vida do INSS também ajuda no comparecimento às urnas. A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem explorado essa bandeira. Mais recentemente, os reajustes de aposentadorias - tema de interesse desse grupo - foram incluídos nos debates das campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro (PL). “Por ser um grande segmento com voto facultativo, o comparecimento desses eleitores é elástico: depende de motivação, saúde, transporte e do sentimento de que o voto faz diferença”, afirma a doutora em ciência política Carolina Botelho, que é associada ao Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública (Doxa/Iesp/Uerj) e pesquisadora do INCT/Sani/CNPq. “Do ponto de vista dos candidatos, é um segmento cada vez mais relevante, sobretudo em eleições apertadas”, completa. Uma enquete feita pelo Movimento Voto 70+ mostra as percepções desse eleitor, com o tema “O Brasil que os 70+ sonham”. A desigualdade social foi o tema mais mencionado entre as preocupações (35%), seguido por questões relacionadas a etarismo e direitos de pessoas idosas (25%) e corrupção e polarização política (20%). Apreensões relacionadas às condições de vida e às políticas públicas também aparecem citadas nos 3.535 questionários analisados, além de 159 depoimentos espontâneos e 814 manifestações em sistema (bot) criado para a campanha. O levantamento busca dar uma visão geral dos sentimentos desse eleitor, mas não é uma pesquisa amostral, que reproduz o perfil da população brasileira. Um dos fenômenos observados foi a chamada baixa autoestima eleitoral, segundo a idealizadora do Movimento Voto 70+ e cofundadora do data8, Cléa Klouri: “As pessoas sentem que não são ouvidas e seus votos não têm importância. Há também quem acha que o resultado da eleição não terá impacto na sua vida e quem quer votar, mas enfrenta barreiras físicas.” Vou votar enquanto estiver viva. A urna é depósito de sonhos” Esse sentimento de baixa autoestima política observado em parte dos idosos, no entanto, não é unânime. A baiana Sonia Maria Rodrigues de Menezes, de 77 anos, é uma eleitora entusiasmada. Hoje mora em Lucena (PB) e tem se dedicado a debates na comunidade para conscientizar sobre a importância do voto dos idosos: “Vou votar enquanto estiver viva. Políticas públicas são diferentes de política partidária. É preciso debater educação, saúde e cultura. Tem idoso que não sabe seus direitos. E a urna é depósito de sonhos”. Essa perspectiva foi justamente a inspiração para o lançamento da enquete “O Brasil que os 70+ sonham”, com o objetivo de mostrar o que os 70+ têm em termos de ambicões e necessidades. “Desigualdade social e o etarismo aparecem de maneira ampla entre preocupações. Isso demonstra a invisibilidade nesse grupo. Também são uma lembrança de que o envelhecimento é muito desigual. O Brasil está envelhecendo e envelhecendo pobre”, diz Klouri. Como referência, o Mapa da Desigualdade 2026 aponta que moradores da periferia de São Paulo vivem até 24 anos a menos do que quem reside em regiões nobres. Na questão do etarismo, Cléa Klouri nota que isso pode aparecer no exercício do direito ao voto. A própria família desincentivaria a participação na eleição numa tentativa de poupar o idoso do esforço de deslocamento, por exemplo. Para o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Hilton Cesário Fernandes, há um movimento diferente neste pleito, diante de um placar apertado, que é a maior importância dos votos dos mais velhos: “A concorrência entre Lula e Flávio está forte e há sentimento de que cada voto conta. A campanha de Lula tem incentivado a mobilização das famílias para levar para votar mesmo quem não é obrigado. Temos visto mobilização nas redes sociais de militantes do PT.” Um alerta, segundo Fernandes, é um possível aumento de agressividade na reta final da campanha que desmotive a participação de quem tem 70 anos ou mais. “Essa agressividade não significa risco de violência, mas de entrar em conflito com outras pessoas, especialmente da família”, nota.
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