Eleições nos EUA podem favorecer Bolsa e real, mas riscos domésticos limitam ganhos, dizem especialistas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira, podem abrir espaço para uma valorização do real e da Bolsa brasileira, caso o resultado reduza as expectativas de expansão do déficit fiscal americano e de alta dos juros por lá. A possibilidade de os democratas conquistarem o controle de uma ou das duas Casas do Congresso é vista como um potencial freio à agenda econômica do presidente Donald Trump.

Especialistas alertam, no entanto, que o efeito sobre os ativos brasileiros dependerá da reação dos investidores e das incertezas domésticas. Entrevista: ‘Fazenda precisa de alguém capaz de dar um choque de expectativas’, diz economista

Semana de Copom: Disparada do dólar e incerteza fiscal pós-eleições elevam apostas em pausa no corte da Selic Os democratas chegam à votação em vantagem nas pesquisas, impulsionados pela insatisfação dos americanos com o custo de vida, a guerra no Irã e a baixa popularidade de Trump.

Levantamento da Reuters/Ipsos divulgado nesta segunda-feira mostrou que 46% dos eleitores preferem os democratas no controle do Congresso, contra 38% que apoiam os republicanos. A aprovação do presidente americano está em 32%, próxima do menor patamar de seus dois mandatos.

O cenário alimenta as expectativas de uma mudança no equilíbrio de forças em Washington. Atualmente, os republicanos controlam tanto a Câmara dos Representantes quanto o Senado.

Para conquistar a maioria na Câmara, os democratas precisam obter um ganho de quatro cadeiras. A disputa pelo Senado, por sua vez, é considerada mais incerta.

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, são realizadas na metade do mandato presidencial e renovam toda a Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado. O resultado definirá a composição do Congresso nos dois últimos anos do governo Trump, com possíveis consequências para a aprovação de medidas econômicas, tributárias e orçamentárias.

Projeções para as eleições legislativas nos EUA Editoria de Arte

Uma eventual vitória democrata poderia dificultar a aprovação de novas reduções de impostos defendidas pelos republicanos, segundo Mauro Miranda, professor de finanças do Insper e sócio-gestor da Stellaris Investimentos. Como essas medidas não costumam ser acompanhadas por cortes equivalentes de despesas, sua implementação poderia ampliar o déficit fiscal americano e pressionar os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os chamados Treasuries.

— O benefício para o mercado brasileiro seria justamente que os juros nos Estados Unidos não aumentariam tanto em um cenário de vitória dos democratas, porque o déficit fiscal seria contido. E, se os juros lá não aumentam tanto, isso é bom para o real perante o dólar.

Ou seja, não veríamos uma depreciação tão grande do real — explica Miranda. Ofensiva às cripto: Mercado Bitcoin tem perdas de US$ 40 milhões com ataque hacker, estima empresa de segurança

A relação ocorre porque os juros americanos influenciam o fluxo internacional de capitais. Quando os rendimentos dos Treasuries sobem, os investidores podem reduzir suas aplicações em países emergentes, como o Brasil, para buscar retornos nos Estados Unidos, considerados um mercado de menor risco.

Esse movimento aumenta a demanda por dólares e pode pressionar o real, além de prejudicar o desempenho da Bolsa brasileira. Cristiano Correa, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação em Negócios do Ibmec São Paulo, explica que o movimento também afeta as operações de carry trade, estratégia na qual investidores buscam aproveitar as diferenças entre as taxas de juros de diferentes países.

— Se você tem um aumento da taxa de juros americana, os mercados emergentes acabam ficando menos atraentes. Os investidores olham para o mercado lá fora e veem uma condição de juros melhor, então acabam retirando recursos do Brasil.

Para sair daqui, precisam comprar dólares, o que acaba tendo impacto no câmbio — explica Correa. Trump discursa no Memorial Lincoln às vésperas das eleições de meio de mandato

Getty Images via AFP O professor concorda que uma composição do Congresso capaz de limitar a expansão fiscal americana poderia favorecer os mercados emergentes.

Correa pondera, porém, que uma eventual derrota republicana não seria necessariamente positiva para os investidores. Isso porque um Congresso dividido também poderia intensificar os conflitos políticos e dificultar a aprovação do orçamento federal, aumentando as incertezas sobre o funcionamento do governo americano.

— O efeito vai depender de como os investidores vão interpretar as consequências desse novo equilíbrio econômico e político — acrescenta. Mais investimento: Anthropic prevê quase US$ 900 bilhões em gastos com IA nos próximos anos, diz FT

Para o professor do Ibmec, mais importante do que identificar o partido vencedor será observar como o resultado eleitoral afetará as expectativas para os juros americanos, o dólar e o apetite dos investidores por ativos de risco. — Um cenário de maior previsibilidade fiscal, redução das incertezas e estabilidade dos juros americanos tende a favorecer mercados emergentes como o brasileiro.

Poderíamos observar uma maior entrada de capital estrangeiro no Brasil, uma eventual valorização do real e um desempenho mais positivo da Bolsa — explica Correa. Olhar estrangeiro: 'No fiscal, importante é ter estratégia na direção correta', diz CEO da BlackRock no Brasil

Por outro lado, uma eventual manutenção do controle republicano nas duas Casas poderia dar maior liberdade para a agenda econômica de Trump, abrindo espaço para medidas de expansão fiscal e aumento do endividamento americano. Nesse cenário, a perspectiva de juros mais elevados nos Estados Unidos poderia fortalecer o dólar e provocar uma saída de recursos dos mercados emergentes.

Histórico favorável após as eleições Apesar das incertezas sobre o resultado, o histórico das bolsas americanas após as eleições de meio de mandato oferece sinais positivos aos investidores.

Segundo uma análise da Bloomberg, o S&P 500, principal índice do mercado americano, costuma registrar valorização após as eleições de meio de mandato, independentemente de seu desempenho anterior. Os retornos nos períodos posteriores à votação geralmente superaram os observados em períodos sem eleições, enquanto a divisão do controle do governo entre os partidos pouco interferiu na trajetória de alta.

Eleitor na Califórnia segura as cédulas de votação antes das eleições de terça-feira MARIO TAMA/AFP

Dados do Morgan Stanley também mostram que, desde 1982, as fabricantes de semicondutores foram o grupo com melhor desempenho no S&P 100 nos 12 meses seguintes às eleições de meio de mandato, seguidas pelas empresas de software e hardware. Decolando: Embraer fecha acordo para fornecer até seis aeronaves para Força Aérea da Grécia

Segundo Miranda, esse comportamento está relacionado, em parte, à maior previsibilidade proporcionada pela divisão do poder entre a Casa Branca e o Congresso, que tende a moderar as iniciativas do governo. — Nas eleições de meio de mandato, costuma haver essa situação de governo dividido, o que é bom porque traz previsibilidade, um pouco mais de calmaria e moderação.

O governo federal pretende fazer alguma coisa, mas encontra um Congresso de oposição — explica. O professor acrescenta que, embora o resultado eleitoral possa provocar volatilidade no curto prazo, os efeitos positivos sobre o mercado acionário americano historicamente tendem a se prolongar pelos meses seguintes.

Pessoas aplaudem enquanto o candidato democrata ao Senado, James Talarico, discursa durante um comício de campanha para as eleições de meio de mandato em Weslaco, Texas GABRIEL V.

CARDENAS/AFP A expectativa de uma recuperação das Bolsas, entretanto, enfrenta obstáculos neste ano.

Segundo a Wolfe Research, as preocupações com os investimentos bilionários em inteligência artificial podem limitar os ganhos do mercado mesmo após a definição do controle do Congresso. O alerta ocorre depois de uma sequência de perdas nas ações de tecnologia.

Nesta segunda-feira, o Nasdaq 100, índice com forte participação de empresas do setor, entrou em território de correção técnica, após acumular queda de 10% em relação ao pico registrado em outubro. As dúvidas dos investidores se concentram na capacidade das gigantes de tecnologia de transformar os elevados gastos com infraestrutura de inteligência artificial em receitas e lucros.

Riscos brasileiros podem limitar benefícios Embora um cenário internacional mais favorável possa beneficiar os ativos brasileiros, Miranda ressalta que os fatores domésticos continuarão sendo determinantes para o comportamento da Bolsa, do câmbio e dos juros.

— Muito do que estamos vendo no mercado financeiro brasileiro, seja na Bolsa, nos juros ou no câmbio, é por conta dos nossos próprios problemas. São monstros da nossa própria criação — afirma o professor do Insper.

Na avaliação dele, as discussões sobre os rumos da política econômica brasileira devem manter os mercados domésticos sujeitos a oscilações no curto e médio prazos, mesmo que o resultado das eleições americanas favoreça os países emergentes. Miranda cita como exemplo as discussões em torno de propostas de redução dos juros por meio de medidas do governo, que, segundo ele, alimentam preocupações dos investidores sobre a condução da política econômica.

— Somos contumazes e frequentes em perder oportunidades, mesmo quando o mercado mundial nos oferece um momento benigno — afirma. Correa também ressalta que não existe uma relação automática entre a vitória de determinado partido nos Estados Unidos e a valorização dos ativos brasileiros.

Para ele, o comportamento do mercado dependerá principalmente das consequências econômicas e fiscais do resultado, além das expectativas que já estão incorporadas aos preços. Assim, a definição do controle do Congresso americano poderá trazer algum alívio aos mercados brasileiros, mas não será suficiente, por si só, para afastar a volatilidade provocada pelas incertezas econômicas internas.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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