Entre discursos de perseguição política e outros em defesa de pacificação do Brasil, aliados de Flávio Bolsonaro (PL) se dividiram nesta terça-feira nas redes sociais após circular a informação de que o senador teria ido para os Estados Unidos depois da derrota sofrida para o presidente Lula na eleição de domingo.
O entorno do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro vinha atuando para convencê-lo a reconhecer o resultado nas urnas e virar a página. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi um dos que se manifestaram.
No domingo, ele acompanhou a apuração ao lado do senador, em Brasília, mas manteve o silêncio nas horas seguintes, enquanto Flávio previa a apresentação de um pedido de anulação do pleito em função da prorrogação do tempo de votação, que também havia sido solicitado pela sua campanha, ou da cassação da chapa de Lula por abuso de poder político e econômico.
O discurso do senador, depois de perder por uma diferença de mais de 4 milhões de votos, não foi encampado por Tarcísio. No vídeo publicado ontem, o governador afirma por seis vezes que “a eleição passou”, agradece ao aliado pela “caminhada” e aos eleitores pelos quase 60 milhões de votos, diz que agora é hora da “união” da oposição como “fiscal do governo” e critica “excessos do Judiciário e uso da máquina” durante a campanha.
— A eleição passou, mas não passou o desejo de ministérios com nomes técnicos e sérios, de um país que não gaste mais com os juros da dívida do que com saneamento básico, saúde e educação, que corte privilégios antes de pedir sacrifícios e que combata o crime de verdade, não só no discurso.
Esse desejo tem nome: chama-se projeto de país — disse o governador na gravação. ‘Aprender a perder’
Em tom semelhante, o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ) afirmou, em entrevista ao colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco, que “é preciso aprender a ganhar e a prender”. Em nota publicada na segunda-feira, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também reconheceu a derrota de Flávio após apagar uma publicação nas redes sociais na qual se recusava a dar respaldo à votação.
Na primeira versão do texto, o PL dizia que “reconhecia a dimensão do resultado presidencial”. Mais tarde, o trecho foi substituído por “reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)”.
Na tarde de ontem, Valdemar se reuniu com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e registrou o momento nas redes sociais. Na legenda do post, o dirigente diz que os dois conversaram sobre o futuro do partido e os desafios que têm pela frente.
Antes de o ex-presidente anunciar Flávio como seu sucessor nas urnas, o presidente do PL demonstrou preferência pela candidatura de Michelle ao Planalto — ela acabou concorrendo e sendo eleita ao Senado pelo Distrito Federal. A derrota de Flávio também foi reconhecida por lideranças evangélicas que apoiaram sua candidatura, como o apóstolo Estevam Hernandes, líder da igreja Renascer em Cristo.
Pelas redes sociais, ele disse que “não lutará contra a vontade de Deus” e que “o papel dos servos é prosseguir”. Escolhido como vice na chapa presidencial do PL, o senador Alfredo Gaspar também reconheceu a derrota em um vídeo publicado ontem nas redes.
Na gravação, agradeceu os votos recebidos e disse que os dois enfrentaram “muitos obstáculos e perseguições”, mas conseguiram “vencer” o primeiro turno em uma eleição “completamente atípica”. — Nossas bandeiras continuam e nós não vamos desistir do Brasil.
Nós lutamos até o fim, permanecemos de pé, mantivemos nossos princípios. Têm vitórias que representam derrotas e têm derrotas que são verdadeiras vitórias — disse Gaspar.
Junto ao vídeo, Gaspar também publicou uma nota em que dizia prestar "solidariedade" a Flávio e sua família “diante da perseguição implacável”. O senador também foi defendido pelo deputado Nikolas Ferreira e por Sergio Moro, governador eleito do Paraná.
“Em que tipo de país o candidato da oposição à presidência, que teve 59 milhões de votos, tem o seu passaporte apreendido no dia seguinte à eleição?", questionou em um post no X. O ex-juiz da Lava-Jato afirmou que “nesse contexto, Flávio deixar o país é compreensível”.
Carlos Jordy (PL), eleito para o Senado pelo Rio, disse que Flávio foi para os EUA “para não ser usado como moeda de troca contra o impeachment de Moraes”. O ministro determinou a entrega dos documentos do candidato derrotado no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio.
Eleita para o Senado por Santa Catarina, Caroline de Toni (PL) também afirmou que o aliado poderá ser preso se voltar ao país, assim como o pai, tendo “o mesmo destino de quem ousa enfrentar o PT e disputar o poder no Brasil”.
O Globo