O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá trocar o comando das Forças Armadas no seu quarto governo, abrindo espaço para que, pela primeira vez, Exército, Marinha e Aeronáutica sejam chefiadas por oficiais que terminaram a formação depois do fim do regime militar. Nesta movimentação, o atual comandante do Exército, general Tomás Paiva, pode assumir o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, também deve deixar o cargo. Após quatro anos no cargo, Paiva e os comandantes da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, e da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, já sinalizaram às tropas o desejo de deixar os postos a partir de janeiro.
Múcio, que se reuniu ontem de manhã com Lula, também está decidido a deixar a pasta que assumiu poucos dias antes de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro atacarem em 8 de janeiro de 2023 as sedes dos Três Poderes. O ministro chegou a entregar o cargo algumas vezes a Lula, que o convenceu a permanecer.
Todos os atuais comandantes das Forças Armadas concluíram sua formação nas academias militares ainda no governo João Figueiredo, o último do regime militar. Paiva foi declarado aspirante a oficial em 1981.
Kanitz e Olsen, em 1982. Por tradição, quando há troca no comando, os nomes dos três oficiais mais antigos de cada corporação são apresentados pelo ministro da Defesa ao presidente.
Mas ele não é obrigado a seguir as indicações. A expectativa é que os indicados sejam anunciados ainda este mês e a troca de comandos seja feita em janeiro.
Do governo Sarney Mesmo se a tradição não for seguida, os próximos chefes militares terão começado a servir como oficiais no governo José Sarney, o primeiro da redemocratização.
No Exército, o nome mais citado entre integrantes da Força para assumir o lugar de Tomás é o do general Francisco Montenegro Júnior, chefe do Estado Maior, que se formou em 1986. Montenegro é próximo de Paiva.
Mas os três mais antigos do Alto Comando são os generais Luciano Guilherme Pinheiro, Kleber de Vasconcelos e Hertz Pires do Nascimento, que se tornaram aspirantes em 1985. Na Aeronáutica, os dois nomes mais citados são também os mais antigos: os brigadeiros Walcyr de Castilho Araújo, atual chefe do Estado-Maior, e Ary Soares Mesquita, secretário de Economia, Finanças e Administração da Força.
Ambos concluíram sua formação como aspirantes a oficiais em 1987. Na Marinha, são cotados os almirantes Arthur Fernando Bettega, submarinista e chefe do Estado-Maior da Armada, que se tornou aspirante em 1986, e Carlos Chagas Vianna Braga, comandante-Geral dos Fuzileiros Navais.
Braga concluiu a formação de oficial em 1985. Na Defesa, Múcio deve dar lugar a outro civil.
O nome indicado pelo próprio ministro é o de Cinara Wagner Fredo, servidora pública de carreira, que é a atual secretária-geral da pasta e já trabalhou nos ministérios da Previdência, da Fazenda e da Cidadania. Cinara já costuma representar o chefe em reuniões no Palácio do Planalto.
Outro nome cogitado é o do atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa. Com perfil técnico, considerado habilidoso e tendo atuado como promotor e secretário de Justiça do Estado de São Paulo, Rosa tem conhecimento na área de Defesa.
As duas pastas têm projetos em comum. Paiva, Kanitz e Olsen chefiaram as Forças em um período em que oficiais do Exército foram condenados por participar da tentativa de golpe de Estado do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre eles, Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, Augusto Heleno, que comandou o GSI, e o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira. Os três eram da reserva, mas oficiais da ativa também foram condenados, como o tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida.
O Globo