'Ele não é francês, mas virou o símbolo de Roland Garros', diz Christopher Clarey, autor da biografia de Rafael Nadal
Poucos tiveram a chance de acompanhar de perto um dos feitos mais icônicos do esporte: os 14 títulos de Roland Garros de Rafael Nadal, que encerrou a carreira com 22 Grand Slams. Entre eles está o americano Christopher Clarey, autor das biografias de Roger Federer e Nadal, que “está considerando” escrever sobre Djokovic para completar a trilogia do Big 3.
O jornalista americano Christopher Clarey, autor da biografia de Rafael Nadal
Divulgação
Nadal ganhou muitos títulos, mas não buscava recordes. Por quê?
A forma como o Rafa cresceu e sua mentalidade o ajudaram a permanecer no presente, focado no torneio e na partida em que estava. Ele jamais gostou de falar sobre recordes e dizia que só falaria disso quando a carreira acabasse. Mesmo agora, não parece muito confortável com o tema, o que torna isso curioso. Djokovic, por exemplo, nunca teve esse tipo de preocupação com recordes.
Como explicar Nadal em Roland Garros?
A maioria dos jogadores estreia em torneios como azarões, ainda em fase de aprendizado; Rafa chegou a Roland Garros em 2005, com 18 para 19 anos, depois de lesões em 2003 e 2004, já sendo visto como favorito. Ele entrou com uma aura especial e acabou se tornando o símbolo do torneio, algo raro no tênis. Não há outro caso em que um jogador fique tão ligado à identidade de um torneio. Ele não é francês, mas virou o símbolo de Roland Garros, algo raro no esporte.
Esportes-tenis-Rafael Nadal
AFP
Existem mais semelhanças ou diferenças entre Nadal e Federer?
Em um primeiro momento, há muitas diferenças entre eles: Rafa é canhoto, muito intenso e físico, enquanto Federer é destro, mais fluido e elegante. Mas, conhecendo mais de perto, ficam claras as semelhanças. Ambos têm uma base familiar forte e muito respeito pela história do tênis. Pense em Jimmy Connors e John McEnroe ou em Agassi e Sampras. Federer e Nadal mudaram a dinâmica das rivalidades, criando uma relação de respeito que virou referência e hoje se reflete em jogadores como Alcaraz e Sinner.
Rafael Nadal e Roger Federer durante treino antes da partida pela Laver Cup que marcará a despedida do suíço das quadras, em Londres
Glyn KIRK/AFP
Como mostrar o lado humano dos atletas?
São livros independentes. Não sou amigo deles, tudo é decisão minha, o que me dá total liberdade, mas também responsabilidade. Eu quis que o livro mostrasse que todos têm falhas, porque não acredito em retratar ninguém como um deus. No caso de Nadal, era importante mostrar toda a dinâmica, incluindo as histórias de doping (em que jamais se envolveu), porque ele aparece como um atleta dominante e havia muita suspeita em torno dele.
Como foi sua relação com Nadal durante a produção do livro?
Rafa e a equipe dele sabiam do projeto, mas não havia controle direto sobre o conteúdo. Eu não sou amigo deles nem parte do círculo íntimo, sou jornalista. Mantive contato ao longo dos anos, entrevistei Federer e Nadal várias vezes e também falei com treinadores e pessoas próximas. Isso me deu tempo suficiente para observá-los de perto e construir uma visão própria, sem depender de uma narrativa oficial.
Por que a relação entre Nadal e seu tio Toni funcionou tão bem?
Houve altos e baixos, mas foi uma combinação perfeita para formar um campeão. Toni tinha autoridade equilibrada por ser tio e experiência como treinador. O grande diferencial foi o lado mental: ele entendeu a personalidade do Rafa e ajudou a construir sua força competitiva. Nesse sentido, foi decisivo na formação desse “gigante mental”.
Rafael Nadal durante o atendimento médico
MANAN VATSYAYANA / AFP
Como foi ver Nadal lutar contra o próprio corpo?
As lesões marcaram a carreira dele. A síndrome de Müller-Weiss (condição rara no pé) trouxe limitações e dores constantes, mas também fez com que ele elevasse ainda mais a intensidade e o foco. Ele passou grande parte da carreira convivendo com a dor.
