'El Mencho': Cartéis incendiam carros e fecham rodovias em represália por morte de líder; operação contou com apoio de inteligência dos EUA
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como "El Mencho", líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), considerado o mais violento do México, provocou aquela que já considerada uma das reações mais generalizadas por parte de grupos criminosos na História recente do país. Estradas foram bloqueadas, veículos, prédios públicos e estabelecimentos comerciais foram incendiados e uma série de eventos pré-agendados, como partidas de futebol e apresentações culturais foram suspensas, enquanto atos de violência eram registrados em pelo menos 13 estados. A operação que resultou na morte de "El Mencho" foi conduzida pelas Forças Especiais do Exército do México, e recebeu apoio da inteligência dos EUA.
Medo de retaliação: Vídeo mostra pânico entre passageiros em aeroporto após morte de narcotraficante no México
'El Mencho': Saiba quem foi o ex-policial que fundou cartel mais violento do México e morreu em operação militar
Os cartéis mexicanos costumam reagir violentamente após a captura de seus principais chefes, em um tipo de gesto para demonstrar força e dissuadir as autoridades de confrontá-los novamente. Mas a proporção da resposta após a morte de El Mencho no domingo foi grande mesmo para os padrões do país. Somente em Jalisco, autoridades informaram que 20 agências bancárias foram incendiadas ou danificadas, enquanto grupos atearam fogo em carros para bloquear mais de 20 estradas. Shows e partidas de futebol foram cancelados. Voos foram desviados. E pelo menos um porto suspendeu suas operações. Em alguns estados, as aulas foram canceladas nesta segunda-feira, enquanto companhias aéreas e de ônibus suspenderam algumas rotas ao longo da semana.
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Grande parte da violência foi registrada em Guadalajara, capital de Jalisco, um centro urbano com 1,4 milhão de habitantes que será sede da Copa do Mundo deste ano. O pânico tomou conta do Aeroporto Internacional de Guadalajara no domingo, com vídeos publicados nas redes sociais mostrando funcionários e passageiros fugindo do prédio. A administração do aeroporto e o governo federal mexicano afirmaram que a zona estava segura, apesar do tumulto, e operava normalmente.
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Paulina, uma moradora de Guadalajara de 32 anos, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome por temer por sua segurança, disse que estava viajando com o marido e o filho de 3 anos quando ficaram presos em um dos bloqueios do cartel. Enquanto tentavam escapar e voltar para casa, viram uma família ferida à beira da estrada.
— Estou implorando para que as pessoas não saiam de casa — disse Paulina. — Depois do que vi, percebi que essas pessoas não têm consideração por ninguém. Não desejaria a ninguém o que presenciei.
Foto aérea mostra carros e caminhões queimados em uma rodovia perto de Acatlán de Juárez, estado de Jalisco, após morte de líder do cartel CJNG
Ulisses Ruiz/AFP
Morte de 'El Mencho': Qual é a história do cartel mais violento do México e quão poderoso ele é no país?
A megaoperação contra El Mencho — um ex-policial que fundou uma das principais organizações de narcotráfico do México — foi realizada pelas Forças Especiais do Exército Mexicano com o auxílio de aeronaves da Força Aérea e da Força de Reação Imediata da Guarda Nacional, segundo o Ministério da Defesa do país. Autoridades mexicanas e americanas confirmaram que os EUA auxiliaram a missão com informações de inteligência, mas a Casa Branca apontou que não enviou efetivo ao país vizinho.
Ainda de acordo com as informações divulgadas pela Defesa mexicana, as tropas do Exército foram alvejadas enquanto avançavam para prender membros do Cartel Jalisco Nova Geração e responderam "em legítima defesa". Quatro integrantes do cartel morreram no local e outros três ficaram feridos, incluindo Oseguera, que morreu a caminho do hospital. Dois suspeitos foram presos e armas, incluindo lançadores de foguetes capazes de derrubar aeronaves ou destruir veículos blindados, foram apreendidas.
Loja incendiada em San Francisco del Rincon, Guanajuato, supostamente por grupos criminosos em represália à morte de El Mencho
Mario Armas/ AFP
A operação pode marcar o início de uma nova ofensiva do México contra os cartéis de drogas, desde o aumento da pressão do presidente americano, Donald Trump, sobre realizar ataques contra o território mexicano para combater as organizações que equiparou a terroristas. É possível que a ação diminua a pressão imediata da administração Trump.
Contudo, analistas afirmam que as organizações criminosas mexicanas têm um histórico de resistir aos melhores esforços das autoridades para enfraquecê-los, e que detêm poder, riqueza e domínio territorial demais para serem erradicados completamente. Apontam também que o assassinato de "El Mencho" pode abrir disputas internas pelo controle do cartel ou a perda de espaço para outras organizações.
A extensão da turbulência pode depender de os líderes do cartel terem estabelecido uma linha de sucessão clara, capaz de manter a organização unida. Caso contrário, a morte de Oseguera pode desencadear uma fragmentação e uma nova onda de derramamento de sangue, de acordo com Vanda Felbab-Brown, especialista em grupos armados não estatais da Brookings Institution.
Em entrevista à rede americana CNN, o consultor segurança pública mexicano David Saucedo afirmou que o CJNG enfrenta uma iminente batalha pela sucessão, uma vez que o filho do então líder já está preso nos EUA, e os parentes que ainda estão em liberdade não têm o mesmo peso dentro do grupo. O vácuo de liderança, argumentou Saucedo, pode desencadear uma guerra interna pelo poder, como já aconteceu com outras organizações criminosas no país. (Com NYT e AFP)
