Economia limpa depende de troca de maquinários - QTU Questões do Universo

Economia limpa depende de troca de maquinários

Fonte: Bandeira da fonte

A transição energética vive uma fase de rápida expansão, movida por investimentos, novas tecnologias e metas climáticas ambiciosas.
O mundo que ela pretende transformar, porém, foi construído ao longo de mais de um século em torno dos combustíveis fósseis.
Petróleo, gás e carvão ainda movem parte dos transportes, alimentam processos industriais e sustentam uma infraestrutura que levará décadas para ser renovada.
Apesar da urgência climática, a convivência entre novas e antigas fontes de energia será longa.
Na geração de eletricidade, as renováveis avançam rapidamente.
Em 2024, essas fontes e a energia nuclear responderam por 80% do aumento da geração mundial e, juntas, chegaram pela primeira vez a 40% da produção global.
Ao mesmo tempo, cresceu o consumo de petróleo (0,8%), carvão (1%) e gás natural (2,7%), segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).
A velocidade da substituição esbarra, em grande parte, na vida útil de equipamentos, muitas vezes superior aos prazos estabelecidos para a transição energética.
Carros, caminhões, maquinário agrícolas, navios e equipamentos industriais não serão substituídos da noite para o dia.
“A gente tem que descarbonizar a frota que já existe, que vai estar aí por 20 anos.
Pra fazer isso não é com eletrificação”, diz Glaucia Souza, professora da USP e líder da Força-Tarefa de Bioenergia para a Descarbonização do Transporte, da IEA.
Ela defende duas frentes de trabalho: ampliação do uso de etanol, biodiesel, biometano e outros combustíveis já disponíveis; e o desenvolvimento de alternativas para os setores mais difíceis de eletrificar, entre elas combustível sustentável de aviação (SAF), biometanol e combustíveis sintéticos.
Aviões, navios e parte da indústria estão entre os casos mais difíceis.
Altos-fornos, caldeiras, entre outros equipamentos, são projetados para permanecer décadas em operação.
Na siderurgia e na produção de cimento, a substituição dos fósseis pode exigir novos processos, hidrogênio, combustíveis de baixa emissão ou captura de carbono.
O ritmo também será diferente entre países.
Economias que já dispõem de matriz elétrica mais limpa partem de uma posição distinta daquelas que ainda dependem de carvão e gás para gerar eletricidade.
Para o climatologista Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e um dos cientistas mais respeitados no mundo quando o assunto é aquecimento global, não há tempo a perder.
“Temos que zerar o uso de combustível fóssil, idealmente até 2040.
No máximo, em 2045”, afirma.
Nobre classifica a abertura de novas frentes de exploração de petróleo como um “ecossuicídio” e afirma que não há justificativa para ampliar a produção enquanto o mundo precisa reduzir rapidamente o consumo de fósseis.
Algumas tecnologias necessárias à transição já estão disponíveis comercialmente, enquanto outras ainda precisam ganhar escala e reduzir custos.
“Você faz o que é mais fácil e mais barato primeiro”, defende Timothy Searchinger, pesquisador sênior da Universidade de Princeton.
Para ele, a prioridade deve estar onde os recursos conseguem reduzir mais emissões, começando pela eletrificação dos carros e pela geração de eletricidade.
A gente tem que descarbonizar a frota que já existe, que vai estar aí por 20 anos”
Nem todos os usos, no entanto, podem esperar.
A frota que continuará em circulação e setores como aviação e transporte marítimo abrem espaço para combustíveis de menor emissão.
O Brasil é pioneiro no uso de biocombustíveis em larga escala e construiu uma alternativa para reduzir as emissões da frota existente.
Mas sua expansão esbarra na discussão sobre o uso da terra.
Cada hectare destinado à produção de energia tem usos alternativos, da produção de alimentos à recuperação da vegetação.
O debate sobre o uso da terra é controverso.
Searchinger avalia que a disponibilidade de terra é um limite para essa expansão.
O pesquisador lembra que o Brasil ainda perde áreas de floresta para atividades agropecuárias.
Destinar mais terras à produção de energia aumentaria a pressão sobre um recurso que, segundo ele, já é escasso.
“Cada hectare de terra dedicado a biocombustíveis tem um custo de oportunidade muito, muito alto”, afirma.
Souza contesta esse cálculo a partir das características da agricultura brasileira.
“Não é o que a gente planta, é como a gente planta”, afirma.
Ela cita ganhos de produtividade, recuperação de pastagens degradadas e o cultivo de duas safras na mesma área.
Em parte do país, a soja colhida dá lugar ao milho de segunda safra, que também abastece a produção de etanol.
Para a pesquisadora, esse uso mais intensivo permite ampliar a oferta de alimentos e biocombustíveis sem uma expansão equivalente da área cultivada.
As dificuldades para substituir totalmente os fósseis ainda esbarram na infraestrutura e no custo da mudança.
A IEA estima que os investimentos anuais em redes elétricas, hoje próximos de US$ 400 bilhões, precisam crescer cerca de 50% até 2030.
Carregadores, armazenamento e adaptações na distribuição exigem investimentos adicionais.
Na indústria, acelerar a transição pode significar substituir equipamentos que ainda teriam anos de operação.
A conta será distribuída entre empresas, consumidores e governos.
No Brasil, investimentos das distribuidoras reconhecidos pela regulação são recuperados por meio das tarifas, enquanto a indústria pode recorrer a linhas públicas de crédito, como o Fundo Clima, do BNDES.
O custo e o tempo necessários para renovar essa infraestrutura ajudam a explicar por que petróleo, gás e carvão ainda devem permanecer na matriz por muitos anos.
Para Nobre, o Brasil está em posição privilegiada para encurtar esse caminho.
Em sua avaliação, a expansão da geração solar, a experiência acumulada com os biocombustíveis, o potencial do hidrogênio verde e o avanço dos veículos elétricos permitem ao país avançar mais rapidamente na substituição dos fósseis.
“O Brasil tem condições de ser o primeiro país a gerar 100% da energia com baixíssima emissão de gás”, diz o cientista.