Dono do Pão de Açúcar aprova plano de recuperação extrajudicial e prevê corte de mais de 50% da dívida
O GPA, dono do Pão de Açúcar, aprovou seu novo plano de recuperação extrajudicial. A varejista obteve o aval de 57,49% dos credores. Há quase dois meses, a companhia vinha negociando com os bancos a redução de suas dívidas de R$ 4,568 bilhões.
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De acordo com o plano aprovado, o GPA vai cortar sua dívida em mais de 50%. Em nota, o grupo disse que "o plano celebrado nesta data permitirá uma solução estruturada para os desafios financeiros da companhia, endereçando simultaneamente a liquidez de curto prazo e a sustentabilidade financeira de longo prazo".
O plano aprovado prevê a reestruturação da dívida e a emissão de debêntures. Haverá uma primeira emissão no valor de R$ 1,5 bilhão. Depois, uma outra de R$ 1,1 bilhão, que poderá ser convertida em ações no primeiro semestre de 2027, 2029, 2030 e 2031. Os R$ 2 bilhões restantes terão um corte de 70%, somando R$ 600 milhões, que serão emitidos em novos títulos em 2036. Segundo a empresa, cerca de 70% da dívida começa a ser paga a partir de 2031.
Haverá ainda um financiamento de até R$ 200 milhões, que será integralmente realizado pelos credores que desejem conceder novos recursos à companhia, informou a empresa. Segundo Alexandre Santoro, CEO da empresa, o objetivo do plano é melhorar o fluxo de caixa e o perfil de endividamento da empresa.
-- Tínhamos passivos estruturais, com dívidas de R$ 1,7 bilhão vencendo entre maio e junho e um total de R$ 2,3 bilhões vencendo em 2026. Temos um negócio com marcas fortes, mas as dívidas eram desproporcionais. Em dois meses tivemos uma adesão de 57% dos credores, e agora esse número pode crescer - avalia Santoro.
Assim, o prazo médio de vencimento da dívida passou de 2,1 anos para 6,4 anos. "Como resultado dessas medidas, o plano de recuperação extrajudicial proporcionará liquidez relevante e reduzirá em mais de R$ 4 bilhões os desembolsos a serem realizados pela companhia nos próximos dois anos, aliviando o fluxo de caixa no período", disse a companhia em nota.
Com a renegociação, o total das dívidas cai para R$ 700 milhões até 2028, trazendo mais previsibilidade para o processo de recuperação da empresa.
-Vamos focar no dia a dia, melhorando as vendas e a rentabilidade. A aprovação do plano é o primeiro passo de uma série de mudanças com foco na melhoria do caixa e em vendas rentáveis. Não vamos abrir novas lojas e sim melhorar a experiência nas lojas atuais - diz Santoro, lembrando que a companhia tem 728 espaços.
A recuperação extrajudicial, como o próprio nome diz, não precisa de aval da Justiça. Ela é negociada diretamente com os credores e visa a reestruturar a dívida de uma empresa. A companhia suspende o pagamento dos débitos por um tempo para ganhar fôlego e manter as operações.
Os principais credores aprovaram a nova versão do plano, em uma lista que inclui o Itaú Unibanco (titular de debêntures da 20ª emissão, com saldo de R$ 707,7 milhões), o banco holandês Rabobank (com dois contratos em euro que somam aproximadamente R$ 917 milhões), o BTG Pactual (R$ 225,7 milhões) e o HSBC (R$ 206,3 milhões).
O plano de recuperação extrajudicial abrange todos os créditos quirografários (sem garantia) não decorrentes de operações correntes com fornecedores, locadores ou prestadores de serviço.
Fundado em 1948 e presente em todo o território nacional, o grupo tem 37 mil colaboradores diretos. Além das redes Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar e Pão de Açúcar Fresh, o GPA também controla as bandeiras Extra e Mini Extra. O grupo possui também marcas próprias de produtos vendidos em suas lojas, como Qualitá, Taeq, Pra Valer e Club des Sommeliers.
Para Pedro Albuquerque, vice-presidente Financeiro e CFO da companhia, ainda está sendo definida a data para a emissão das debêntures.
-Esperamos ainda aumentar o número de credores. Os canais estão abertos.
Segundo analistas, as varejistas do país têm sido impactadas pelo ambiente macroeconômico, com as altas taxas de juros e o elevado nível de endividamento das famílias. Além disso, o grupo vem passando por um processo de reestruturação desde 2021, focado em vender ativos não essenciais para reduzir seu endividamento e simplificar a operação.
Vendeu 71 pontos comerciais do Extra para o Assaí, sua participação no Grupo Éxito, da Colômbia, e se desfez de imóveis e postos de combustível, arrecadando mais de R$ 1,5 bilhão nesse processo. No entanto, o desinvestimento não foi suficiente para tirar a empresa da crise, afirmam especialistas.
