Meu pai fez da vida um exercício diário de aprendizado, descoberta e entrega. Ele já tinha 62 anos quando resolveu passar dez meses mergulhado em Vigário Geral, favela que tinha sido cenário em 1993 da maior chacina até então ocorrida no Rio e que abrigava o traficante mais procurado do estado, Flavio Negão. Aos 90 anos: Carlos Alberto de Nóbrega recebe Padre Antônio Vieira no hospital após cirurgia cardíaca; entenda 'Nunca foi nossa intenção': Marco Nanini se explica depois de ser vaiado em peça que teve intérprete de Libras retirada Àquela altura da vida, poderia ter reduzido o ritmo de trabalho e se aquietado. Já havia enfrentado a ditadura militar brasileira; coberto a Revolução dos Cravos, em Portugal; passado 24 dias em bolsões de miséria acompanhando a primeira Caravana da Cidadania de Lula, no Nordeste; colecionado prêmios, como o Jabuti pelo livro “1968 — O ano que não terminou”; e se embrenhado por um mês no Acre para uma série de reportagens sobre o assassinato de Chico Mendes. Tinha trabalhado como repórter, repórter especial, editor e colunista em alguns dos principais veículos do país. Mesmo com essa bagagem, ao escutar a notícia do massacre em Vigário fez o que costumava fazer: saiu de casa e foi se aventurar no desconhecido. Aos 40 anos de profissão, exibia o entusiasmo de um iniciante. Não planejava escrever um livro — o que acabaria acontecendo mais tarde, quando lançou “Cidade partida”. O que o movia era a vontade de conhecer aquele universo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante para quem mora no “asfalto”. Misturavam-se a curiosidade do jornalista e o interesse do cidadão. Para ele, a preocupação social era uma obrigação e uma dívida que todos temos, num país em que a desigualdade é tão gritante. Ter feito da vida esse movimento em direção ao outro é muito bem retratado no documentário “Mestre Zu”, de Zelito Viana, que estreia quinta-feira (22) nos cinemas. O filme entrelaça a trajetória pessoal com o cenário cultural, social, comportamental e político do país dos anos 1960 para cá. Mostra, por exemplo, como ele captou as mudanças dos costumes, os modismos e as novas tendências do Rio e do país. A escuta atenta, a inquietude e a abertura para o novo também estão bem documentadas no filme. “Meu tempo é hoje”, ele costumava dizer, citando Paulinho da Viola. O jornalista Marcos Sá Correa, que foi seu chefe no JB, dizia, com propriedade: “Zuenir é um eterno principiante, que faz da reportagem a única aventura genuína do jornalismo. Ele acumula num só currículo as idades que a maioria das pessoas vai deixando para trás.” Talvez por isso conseguisse dialogar com todas as gerações. Tanto que, logo após uma sessão especial de “Mestre Zu”, um menino de 11 anos, Guilherme, aproximou-se de mim e disse: “Seu pai é muito divertido.” Foi Sá Correa quem o escalou para ir à Amazônia cobrir a morte de Chico Mendes — logo ele, um ser urbano que morria de medo de cobra. O resultado foi uma reportagem premiada, além do livro “Crime e castigo” e da “adoção” de um menino de 13 anos, testemunha-chave do assassinato do líder seringueiro. Era 1989 quando ele voltou do Acre com Genésio, que ficou sob a nossa responsabilidade até completar 21 anos. Meu pai disse que cometeu na ocasião uma transgressão contra uma lei básica do jornalismo — a de que não se deve interferir nos acontecimentos. Mas a alternativa era bem pior: a morte de Genésio. Pois foi Genésio quem disse: “Zuenir foi o pai que nunca tive na vida.” Citando Míriam Leitão, a paternidade de meu pai era múltipla, e se estendia para muito além dos filhos e se espraiava para amigos, jornalistas, alunos. Tanto que Arnaldo Jabor afirmou, certa vez: “Zuenir é o pai de todos nós.” Tinha uma vocação para a felicidade que não esmoreceu nem durante o cárcere nem em meio ao câncer que o afetou 30 anos atrás e que foi superado. Ele costumava dizer: “No meu DNA, estava escrito que eu seria careca e otimista.” E acrescentava: “Sempre fui muito alegre. A alegria também é revolucionária.” A tal ponto que, logo após sua morte, um amigo de minha irmã, Edhen, surpreendeu-se: “Nunca vi um velório com tanta gente sorrindo.” De fato, a tristeza era amenizada pelas lembranças. O humorista Marcelo Madureira me disse: “Vocês perdem, nós perdemos, mas quem mais perde é o Brasil.” Os amigos recordavam a leveza com que ele escrevia e levava a vida, sempre encontrando brechas para a brincadeira, o bom humor, a gaiatice, a doçura, a lucidez, o acolhimento. Teria ficado feliz de ser lembrado com aquele sorriso franco que era uma de suas marcas registradas. Esse lado solar se refletia, por exemplo, nas meias coloridas que colecionava e usava até em ocasiões mais formais, como numa sabatina, em 2010, organizada pelo GLOBO com o então candidato José Serra. Naquele ano, Verissimo escreveu: “Não há dúvida: o melhor candidato à Presidência é a meia do Zuenir.” Coerência entre vida pessoal e profissional Zelito Viana tinha um desafio, que era retratar um amigo de mais de 60 anos sem cair na armadilha do documentário chapa-branca. Como filho, eu não tenho essa preocupação ao escrever sobre essa trajetória marcada pela coerência entre vida pessoal e profissional. Durante mais de 40 anos como professor, ele formou inúmeras gerações de jornalistas. Graças ao filme, os atuais estudantes têm a chance de conhecer a história de um homem que cultivava os laços familiares e de amizade, mantinha a humildade, escutava e se interessava pelas pessoas comuns, prezava a diversidade, não transigia com a ética, combatia com coragem toda forma de autoritarismo e reafirmava a todo momento os ideais democráticos. Meu pai adorava a canção “Gracias a la vida”, de Violeta Parra, imortalizada na voz de Mercedes Sosa. Aquela que diz agradeço à vida, que tem me dado tanto. E ele realmente tinha muito o que agradecer. Aproveitou cada minuto, dedicando-se às amizades, colhendo afetos, fazendo conexões, estabelecendo diálogos, cultivando paixões — pela família, pelos amigos, pelo jornalismo, pela literatura, pelo Fluminense, pelo Império Serrano, pelo Rio de Janeiro, e sobretudo pelas pessoas, fossem elas conhecidas ou anônimas. Nesse um mês de sua morte, aos 95 anos, quem talvez tenha dado a melhor definição foi um colega de ABL, o poeta Carlos Nejar: “Seu pai era um grande escritor e jornalista, mas sobretudo era um homem bom.”
Documentário sobre Zuenir Ventura estreia e seu filho, Mauro, escreve sobre o homenageado: 'Fez da vida um exercício diário de aprendizado'
Fonte da notícia:
O Globo
O Globo
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site O Globo