Documentário sobre sistema prisional dos EUA emociona detentos em presídio de Nova York

Documentário sobre sistema prisional dos EUA emociona detentos em presídio de Nova York - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando os detentos do complexo penitenciário de Rikers Island, em Nova York, entraram em um ginásio para assistir à exibição de um documentário na semana passada, alguns dos que se sentaram nas primeiras fileiras ainda comemoravam a vitória recente de sua liga de basquete. Outros circulavam entre as cadeiras de plástico, à procura de alguém com quem conversar.

Poucos pareciam imaginar que, em menos de uma hora, a sessão da tarde levaria vários deles a conter as lágrimas. O filme “Crime and punishment in America” (“Crime e castigo na América”, em tradução livre) estreia em 16 de novembro na PBS, rede pública de televisão dos Estados Unidos.

Dividida em quatro partes, com duração total de oito horas, a produção percorre a história do sistema de Justiça criminal americano desde o período colonial. Narrada em ordem cronológica, por meio de materiais de arquivo e entrevistas com especialistas e pessoas que já estiveram presas, a série documental examina tanto o panorama geral quanto os detalhes de como o país construiu suas leis e definiu as punições para quem as infringe.

O documentário aborda as origens americanas do sistema penitenciário moderno — “A ideia de encarcerar tanto para punir quanto para reabilitar era algo que nenhum país havia experimentado” — e os legados da escravidão. “A maioria das prisões foi inspirada no modelo de Nova York, baseado em empresas privadas contratadas e trabalho forçado”, afirma a produção.

O filme também analisa a expansão de políticas criminais de tolerância zero, conhecidas pela postura de serem “duronas contra o crime”. “Em 50 estados, em 3 mil condados, uma série de agentes, a maioria desconhecida para nós, tomou pequenas decisões que apontavam na direção de punições cada vez mais severas.”

A documentarista Lynn Novick conversa com detentos de Rikers Hiroko Masuike / The New York Times

A ideia do documentário surgiu há mais de uma década, quando Lynn Novick, experiente documentarista conhecida por suas parcerias com Ken Burns, ministrou uma palestra na Bard Prison Initiative. O programa, mantido pelo Bard College, oferece formação em artes e humanidades a pessoas encarceradas e foi tema da série documental de Novick “College Behind Bars”, de 2019.

— Ao longo daquele projeto, eu era constantemente lembrada de como sabia pouco — ou melhor, nada — sobre a história do sistema de Justiça e sobre as razões pelas quais nossas prisões são como são — disse Novick. Ela se interessou particularmente por entender como os Estados Unidos se tornaram um dos países que mais encarceram pessoas no mundo, com uma política marcada por punições severas e frequentemente desiguais.

— Acreditamos na redenção, no perdão e na misericórdia — afirmou. — Mas não para todos.

Ao realizar “Crime and Punishment in America”, acrescentou a diretora, sua intenção era investigar uma questão fundamental: “Como chegamos a este ponto?”. Em Rikers, Novick não pôde exibir as oito horas completas do novo documentário.

Em vez disso, apresentou aos detentos uma montagem de trechos com 48 minutos de duração. O complexo penitenciário, localizado em uma ilha no East River e marcado por um histórico de violência e problemas estruturais, tem fechamento previsto para agosto do próximo ano, por determinação das autoridades.

A cidade, porém, dificilmente conseguirá cumprir o prazo. O plano é substituir Rikers por quatro unidades prisionais menores, distribuídas pelos distritos de Nova York.

Os detentos acompanharam os trechos com atenção. Durante a conversa que se seguiu à exibição, mostraram-se mais abertos e emocionados do que Novick esperava.

Eles falaram do desgaste provocado pelas condições desumanas enfrentadas pelos presos, da frustração com a aparente indiferença de juízes responsáveis pelas sentenças e da tristeza diante de circunstâncias fora de seu controle que contribuíram para o encarceramento. Joel Clapp, que havia sido libertado recentemente, mas voltou a ser preso no mês passado, falou sobre a infância conturbada e a sensação de que nunca conseguiu superar as dificuldades daquele período.

— As circunstâncias fizeram com que a gente fracassasse e acabasse destruído. Não sabíamos como lidar com aquilo.

Não sabíamos como pedir ajuda, porque continuamos sendo julgados pelo nosso passado, repetidas vezes, sem parar — afirmou Clapp. Niko Willer concordou.

— Depois que você entra nesse sistema, ele vira uma porta giratória — disse. Condenado por roubo em maio, Willer entra e sai do sistema prisional desde os 9 anos de idade.

Vários detentos balançaram a cabeça negativamente durante um trecho do documentário dedicado às leis conhecidas como three strikes (“três infrações”, em tradução livre). Embora tenham sido promovidas por políticos como uma forma de combater criminosos violentos e reincidentes, essas leis também atingiram duramente pessoas que cometeram delitos sem violência.

Quando Stanley Richards, comissário do Departamento de Correção de Nova York, pegou o microfone, aconselhou os detentos a não se deixarem aprisionar pelo ressentimento. — Não deixem que essa raiva se transforme em uma âncora presa aos seus tornozelos — disse Richards, primeiro ex-detento a comandar o departamento.

Ter conversas difíceis sobre esses sentimentos, acrescentou, pode se transformar em “um trampolim para a esperança”. Vários presos disseram ter se sentido fortalecidos tanto pelo evento — que descreveram como parte de um trabalho de apoio à reabilitação que nem sempre esteve disponível para quem está encarcerado — quanto pelo fato de Richards também já ter passado pela prisão.

— As coisas realmente melhoraram — afirmou um dos detentos, Rohan Brown. Rahsaan Thomas esteve preso em Rikers diversas vezes no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, período em que sua mãe e seu padrasto trabalhavam no complexo.

Ele contou ao público que, enquanto cumpria pena no complexo penitenciário de San Quentin, na Califórnia, tornou-se escritor, podcaster e cineasta. Thomas havia sido condenado a uma pena de 55 anos e seis meses até prisão perpétua por homicídio em segundo grau e acusações relacionadas, mas o governador da Califórnia, Gavin Newsom, comutou sua sentença, reduzindo a pena.

Atualmente, Thomas é produtor consultor do documentário de Novick e também aparece no filme. Alguns detentos o reconheceram na tela.

— Eu deveria nunca mais ter voltado para casa — disse ele.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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