Logo pela manhã havia fila no balcão, e quem chegava com a pasta debaixo do braço podia esperar longos minutos para saber do andamento de um processo. A rotina seguia no escritório, pesquisando jurisprudência em repertórios impressos, controlando os prazos à mão e, logo, era hora de voltar ao fórum para obter o carimbo que ratificava o cumprimento do prazo. Durante muito tempo, advogar significou lidar com grandes volumes de papel e com deslocamentos frequentes para cumprir etapas rotineiras da esteira jurídica. Em 2010, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontou que 70% do tempo de tramitação dos processos era ainda consumido por atos cartorários – um cenário que começou a mudar com a regulamentação do uso de meios eletrônicos no processo judicial. Ainda que abrisse caminho para uma Justiça menos dependente do transporte e do manuseio de autos físicos, a inovação enfrentou resistências, questionamentos e a lei chegou ao ponto de receber uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). Mesmo assim, o saldo é, sem dúvidas, positivo. Ao final de 2023, os processos físicos em andamento acumulavam, em média, 12 anos, contra apenas 3 dos eletrônicos. No ano seguinte, 99,4% dos novos processos ingressados no Judiciário brasileiro eram digitais. A história da inovação no mercado jurídico, porém, começa muito antes. Em 1959, por exemplo, o xerox simplificou a reprodução de documentos com o simples toque de um botão. Mais tarde, o fax ampliou a capacidade do sistema de Justiça com menor dependência da presença física. Vieram depois os sistemas de gestão, o e-mail, o próprio Processo Judicial Eletrônico (PJe), as audiências por videoconferência e o Balcão Virtual. O fato é que as tecnologias que hoje compõem a rotina de um advogado já suscitaram dúvidas e inseguranças sobre o futuro, mas trouxeram benefícios incontestáveis para o exercício da profissão.
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Mais recentemente, a inteligência artificial surge como a tecnologia da vez com potencial para proporcionar o próximo salto da advocacia. Combinando confidencialidade, governança e segurança de dados, a IA amplia espaço para julgamento e trabalho intelectual do profissional. Em países mais maduros na adoção de tecnologia, essa transformação é uma realidade consolidada no setor jurídico. Observar o que acontece lá fora importa porque oferece um panorama claro do que podemos esperar que aconteça aqui. Historicamente, o Brasil implementa inovações com uma defasagem temporal em relação aos Estados Unidos – com atraso, elas chegam e se estabelecem no país. Um exemplo disso é a própria popularização da internet. Em 2002, mais de 50% da população norte-americana era conectada, enquanto o Brasil atingiu esse patamar apenas em 2013. Mais recentemente, as corridas por aplicativo reforçaram essa relação. A Uber chegou ao Brasil quatro anos depois da primeira viagem realizada nos Estados Unidos e, atualmente, são realizadas aqui mais viagens pelo aplicativo do que em qualquer outro país do mundo. No setor jurídico, uma pesquisa da Thomson Reuters de 2026 com 27 países mostrou que o uso de IA generativa praticamente dobrou em relação ao ano anterior, tanto em escritórios de advocacia quanto em departamentos corporativos. Ao mesmo tempo, o número de advogados mantém um ritmo de crescimento estável nesses países. Uma pesquisa realizada em parceria com a Bain & Company mostrou que no Reino Unido e na França, por exemplo, o número de profissionais aumentou 3% e 2%, respectivamente. Se a tendência histórica se confirmar, é questão de tempo para que o uso de inteligência artificial se consolide em escritórios de advocacia e departamentos jurídicos no Brasil. É por isso que o compromisso com a responsabilidade deve orientar qualquer tecnologia construída em prol da advocacia, colocando o advogado em uma posição central na estratégia, no relacionamento com o cliente e na tomada de decisão. O xerox, o fax, as audiências virtuais e o processo eletrônico trouxeram profundas mudanças na advocacia, mas não há quem defenda carregar pastas cheias de papéis, acompanhar andamentos no cartório ou voltar às filas do balcão. Avaliar os riscos é preciso; o que não pode ser ignorado é o valor que é perdido quando preservamos uma rotina apenas porque ela é familiar.
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