Do Jardim América até Harvard e MIT: estudantes brasileiros da rede pública chegam a conferência internacional
No ensino médio, Ludmila Ramos Chagas, de 18 anos, começou a reparar em um descompasso ao seu redor. Muitos alunos de cursos técnicos, como o que ela mesma fazia, não pretendiam seguir nessa área. A constatação trouxe uma pergunta que atravessa a vida de muitos jovens: por que tantas pessoas chegam à vida adulta sem ter ideia de que caminho seguir profissionalmente?
Ludmila decidiu não ficar apenas na dúvida. Ao lado de colegas, fundou a startup “Fora da Caixa”, uma plataforma gamificada de orientação profissional. Não era um trabalho escolar, mas uma iniciativa que nasceu da própria realidade da sala de aula. Sua proposta é simular o cotidiano de diferentes profissões e permitir que jovens testem caminhos antes de fazer uma escolha.
O projeto foi desenvolvido por Ludmila e outros três estudantes da Escola Técnica Estadual Juscelino Kubitschek, no Jardim América, na Zona Norte do Rio. E teve resultados: a equipe conquistou medalha de prata na Olimpíada de Empreendedorismo 2025 e chegou à final do Inova Jovem, competição nacional organizada pela Unicamp:
— É um assunto importante para muitos. Às vezes a pessoa só descobre o que quer fazer com 30 anos — diz Ludmila.
A experiência com o “Fora da Caixa”, somada a outras iniciativas, como sua atuação voluntária no projeto “JK Sustentável”, que prepara alunos da rede pública para ingressar no ensino técnico, colocou Ludmila entre os dez estudantes de escolas públicas selecionados para a conferência internacional Brasil Project, organizada por alunos brasileiros de Harvard e do MIT, que acontece neste mês.
O evento reunirá cerca de 500 participantes em Cambridge, nos Estados Unidos, a partir do dia 10 de abril. Entre eles estão Ludmila e outros nove jovens de diferentes partes do Brasil com trajetórias que começam em escolas públicas e ganham novos horizontes a partir de projetos próprios.
— São estudantes que sonham em estudar fora e que já combinam excelência acadêmica, liderança em suas áreas e impacto real em suas comunidades. Queremos que seja tanto uma oportunidade para eles se conectarem com alunos, professores e admission officers (responsáveis pela admissão) das universidades de Harvard e MIT, quanto para trocarem ideias com grandes líderes brasileiros e globais que estarão na conferência — explica Helena Fernandes, estudante de graduação em Harvard e uma das responsáveis pela organização do Brasil Project.
Fazem parte do grupo alunos como Paulo Eduardo Ferreira Junior, da ETEC de Hortolândia (SP), que liderou a criação do OTTO, uma IA para a educação, voltada ao auxílio dos professores em tarefas operacionais, e Danilo Lima, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), que, entre vários projetos, liderou o desenvolvimento de um jogo educacional em realidade virtual sobre sustentabilidade, o Siren STEAM.
— O convite representa para mim uma grande conquista e a realização de um verdadeiro sonho, dado que desde pequeno sonhava e planejava o momento de conhecer Harvard e o MIT — conta Paulo Eduardo, que conquistou prêmios como melhor projeto da Região Sudeste na Feira Brasileira de Iniciação Científica (X FEBIC 2025) com o OTTO.
Paulo Eduardo Ferreira Junior com um dos prêmios que conquistou com seu projeto OTTO, uma IA voltada para professores
Arquivo pessoal
Para Danilo, que já passou por experiências como o CVT Espacial, projeto da Agência Espacial Brasileira com o qual criou e ministrou workshops de Astronomia para milhares de estudantes, suas iniciativas extracurriculares — que o ajudaram a conquistar a vaga na conferência — também são uma forma de retribuir à sua própria comunidade:
— Sempre fui aluno da rede pública, desde a creche. Quando entrei no IFRN, vi a oportunidade de retribuir as pessoas da minha comunidade, da mesma realidade de onde eu vim, espalhando aquilo que eu mais gosto de fazer: ciência, tecnologia e conscientização.
Danilo Lima Gomes, formado pelo IFRN: ele participará da conferência internacional organizada por alunos de Harvard e do MIT
Arquivo pessoal
Participantes de peso na conferência
Todos esses estudantes estarão lá presencialmente para ouvir e dialogar com nomes como o empresário Jorge Paulo Lemann, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), além de professores das duas universidades, como Jonathan Gruber, Vikram Patel e Mitchel Resnick, criador da linguagem de programação Scratch.
A proposta do Brasil Project vai além da conferência. O grupo também se organiza como um think tank, com a intenção de aprofundar os debates iniciados no encontro e efetivamente buscar por soluções para o país.
É nesse cenário que a trajetória de Ludmila ganha novos contornos. Moradora da Vila da Penha, na Zona Norte do Rio, ela concluiu o Ensino Médio Técnico em Administração no ano passado e agora se dedica à preparação para tentar uma vaga em universidades no exterior. Quer estudar engenharia industrial.
Mais do que assistir às discussões, pretende aproveitar a oportunidade para fortalecer um compromisso que já aparece em seus projetos:
— Quero fazer ferramentas que ajudem a resolver problemas reais.
O plano no curto prazo é aproveitar ao máximo o evento. No médio, o objetivo é cursar uma universidade no exterior. No longo, ela evita respostas definitivas, mas já sabe o que quer construir:
— Acredito em pequenas mudanças. Se cada pessoa fizer um pouco, conseguimos mudar realidades maiores.
