Quando você olha para as capas de revistas superconceituadas e as campanhas de grifes de luxo, logo imagina o glamour que envolve a vida de uma modelo. Muitos logo pensam: “Deve ser tão fácil! Só precisa ser bonita”.
Mas raramente passa pela cabeça das pessoas quantos “nãos” essa profissional pode ter recebido, além da pressão estética rigorosa e do desgaste emocional que essa carreira pode trazer, tudo isso para conquistar um lugarzinho entre os milhares de rostos bonitos que existem pelo mundo afora.
Essa é uma realidade que Bianca Balsini Mueller conhece bem. Natural de Tubarão, no Sul de Santa Catarina, a modelo de 24 anos conquistou espaço no mercado da moda nacional e internacional.
Aos 14 anos, quando morava em Florianópolis e dava os primeiros passos na profissão, Bianca recebeu a proposta de trabalhar por três meses no Japão. A viagem, contudo, foi cancelada porque seu corpo não se enquadrava nas medidas exigidas pelo mercado japonês da época.
Em entrevista ao ND Mais, a modelo relembra como lidou com a frustração e o impacto dessa experiência para a sua formação profissional: “Não consegui viajar pois o mercado de lá exigia medidas de quadril muito específicas, e eu estava ‘acima’ do padrão exigido.
Isso me deixou um pouco mal na época, mas, hoje, olhando para trás, percebo que esse período também foi importante para entender que uma carreira não pode ser construída às custas da nossa saúde física e emocional”, disse a modelo. O mercado da moda japonês é conhecido por exigências rigorosas de medidas corporais, especialmente para trabalhos de passarela.
Algumas agências, por exemplo, estabelecem limites de cintura e quadril para selecionar modelos. Essas cobranças refletem a pressão por corpos muito magros, que pode afetar a autoestima e a saúde emocional das profissionais, especialmente quando ainda são adolescentes.
Bianca entrou no mundo da moda aos 13 anos, de forma bastante despretensiosa. A modelo conta que as pessoas na rua costumavam dizer que ela deveria tentar a carreira de modelo.
Com o apoio da mãe e da irmã, fez um primeiro teste em uma agência local, até então sem grandes expectativas, além da curiosidade despertada pelos desfiles que assistia na televisão. Quando a indústria começou a notar o potencial da jovem catarinense, a família sentiu o impacto e teve receios legítimos em relação aos desafios do mercado fashion.
A preocupação principal dos pais era proteger a rotina e a identidade de uma adolescente que precisaria amadurecer rápido. Após conversas em família, entenderam que a profissão ofereceria independência e aprendizado.
Como relembra Bianca ao ND Mais, os familiares perceberam que ela poderia “aprender a morar sozinha, desenvolver independência pessoal e financeira, e conhecer lugares incríveis”. Quem não acompanha de perto o mercado da moda tende a pensar que a carreira de modelo, seja no Brasil ou no exterior, é um conto de fadas perfeito.
Essa percepção foi muito alimentada pela estética dos filmes dos anos 2000 que, embora frequentemente mostrassem os bastidores cruéis da profissão, envelopavam tudo em um visual tão deslumbrante que “fundiram” no imaginário popular a ideia de que a rotina é feita apenas de glamour diário e enriquecimento imediato.
A realidade é que a profissão envolve muitos testes exaustivos, chamados no meio de castings, longos períodos de incerteza, solidão e adaptação a novas culturas e idiomas. É um lado da carreira que as redes sociais tendem a esconder, mostrando apenas os momentos de sucesso e glamour, como se a vida de modelo fosse perfeita.
Porém, essas imagens representam apenas um pequeno recorte da realidade, muitas vezes distante dos desafios enfrentados nos bastidores. Bianca Mueller destaca que uma fotografia pronta em uma revista esconde um trabalho coletivo intenso e uma preparação mental pesada.
As rejeições em seleções para marcas e semanas de moda (fashion weeks) são frequentes e exigem maturidade emocional. “A carreira internacional exige aprender a lidar com a rejeição, espera e muita incerteza”, aponta a modelo.
“Muitas pessoas não sabem que tem muito estudo, dedicação e preparação para trabalhar em editoriais. Também é super difícil ocupar esses espaços: recebemos muito mais ‘não’ do que ‘sim’.
A beleza, sozinha, não é o mais importante”, comentou a modelo. Bianca conta, ainda, que levou tempo até compreender que não ser selecionada em um teste não significa falta de capacidade profissional, mas sim uma busca do cliente por um perfil estético específico para aquela coleção.
A capacidade de se adaptar a momentos de crise, superar adversidades e acumular experiência profissional levaram a modelo catarinense a alcançar patamares altos na indústria. No Brasil, ela integra o casting da agência Mega Model e já desfilou para 11 marcas na SPFW (São Paulo Fashion Week).
No exterior, é agenciada pela IMG Models, a mesma agência que representa grandes ícones globais como Gisele Bündchen, Gigi Hadid e Hailey Bieber. Sua trajetória inclui editoriais para publicações internacionais como Elle e Cosmopolitan na China, além da Vogue Brasil.
Um dos marcos mais marcantes de sua carreira aconteceu na Austrália, quando conquistou um trabalho para a Vogue Australia focado na grife italiana Fendi. A oportunidade veio acompanhada de um desafio, já que profissionais do meio consideravam o teste extremamente difícil para quem recém havia chegado ao país:
“Estava tendo conversas sobre editoriais por lá e me disseram que conseguir um editorial com a Vogue era ‘praticamente impossível’. Alguns dias depois, recebi a confirmação de que faria o trabalho.
Para mim foi uma virada de chave enorme”, disse Bianca. Outra conquista marcante foi trabalhar com os fotógrafos ítalo-suíços Luigi & Iango, responsáveis por mais de 300 capas da Vogue no mundo.
Sobre a experiência, Bianca ressalta que aprendeu a enxergar a fotografia como arte e expressão, entendendo que “uma fotografia vai muito além de uma pose bonita.” Para lidar com a pressão da profissão, Bianca percebeu que precisava olhar também para o próprio bem-estar.
Depois de passar um período afastada da moda, ela aproveitou o tempo para se conhecer melhor e se dedicar a práticas como Ayurveda e Reiki. Também passou a incluir pilates, yoga e tênis na rotina semanal.
Bianca conta que cuidar da saúde mental foi um dos maiores desafios de sua trajetória, uma dificuldade que nem sempre aparece para o público, que costuma ver apenas o lado bonito da profissão nas telas e nas revistas. “A minha aparência é apenas uma parte de mim.
Por trás dela, também existem desafios internos, inseguranças e experiências pessoais e profissionais difíceis. Mesmo com tudo isso, estou aqui: de pé, confiante no meu processo e grata por tudo que vivi”, reflete.
Olhando para os próximos passos, a catarinense projeta consolidar sua estabilidade financeira para investir em causas sociais e ambientais. Entre seus objetivos estão o apoio a ONGs, projetos sustentáveis e iniciativas voltadas ao bem-estar e à meditação, ajudando pessoas que enfrentam desafios emocionais semelhantes aos que ela superou.
Em uma indústria que tantas vezes valoriza a aparência acima de tudo, a trajetória de Bianca Mueller mostra que, por trás de cada rosto nas capas de revistas, existe uma pessoa com sonhos, sentimentos e desafios. Hoje, ela segue explorando novos caminhos, realizando sonhos e mostrando que é possível construir uma carreira de sucesso sem abrir mão daquilo que realmente importa: o respeito por si mesma.
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