Discussões acaloradas, denúncias de racismo e registro policial: clima esquenta nas sessões na Câmara de Niterói

 

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Em meio às articulações partidárias e ao reposicionamento de lideranças em um ano eleitoral que terá desdobramentos em outubro, a Câmara de Vereadores tem sido palco de embates cada vez mais acirrados. Nas últimas semanas, o plenário registrou discussões ríspidas, troca de acusações e até o registro de ocorrência policial envolvendo parlamentares da base governista e da oposição. Ao menos três vereadores que participam desses confrontos já confirmaram a intenção de disputar vagas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj) ou na Câmara dos Deputados.

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O clima de tensão ganhou novos contornos após uma sequência de declarações públicas e reações nas redes sociais. Durante uma sessão, a vereadora Benny Briolly (PT) foi alvo de críticas por faltas ao plenário e respondeu de forma direta às cobranças, ampliando o tom do debate em meio às discussões sobre um pedido formal para a perda de mandato. “Se Vossa Excelência acha que tem que descontar R$ 800, que desconte, porque eu não vivo do salário da Câmara dos Vereadores. Tenho diversos outros trabalhos, inclusive faço publi, já desfilei no Fashion Week e dou consultoria de comunicação e marketing de gênero e diversidade”, respondeu.

Sobre a situação, em nota, Benny afirmou que a trajetória dela é marcada pelo trabalho: “não dependo de salário público — dependo da minha trajetória, da minha profissão e da luta que me trouxeram até aqui”. Sobre as faltas, ela disse que foram justificadas por atestado e que a Mesa Diretora fará a correção no sistema na próxima semana. “Sigo firme, apesar dos ataques. Não vão nos calar”, afirmou.

Apesar da tentativa de defesa, a fala foi vista internamente como um movimento que deixa a situação da vereadora mais delicada. Autor do pedido de cassação, o vereador Allan Lyra (PL) afirmou que o documento está na Procuradoria do Legislativo. Segundo o documento, Benny teria se ausentado, sem justificativa, de ao menos 33 das 99 sessões ordinárias realizadas ao longo de 2025, o que corresponde a cerca de um terço do total. Uma pessoa próxima ao parlamentar disse que, diante dos fatos, dificilmente o processo não vai avançar.

— Ela chegou a dizer que as faltas estavam justificadas em ata, algo que não aconteceu. Se aparecer alguma justificativa tardia, é de causar estranheza, visto que, ao receber nosso memorando, a Mesa Diretora não nos informou de nenhuma pendência em relação a atestado médico no sistema. Alguém vai ter que se explicar —afirmou Allan.

Em outro momento polêmico, também envolvendo Benny, o vereador Fabiano Gonçalves (Republicanos) fez um discurso que gerou forte repercussão ao abordar o papel histórico de europeus na formação das Américas, o que acabou provocando reações dentro e fora do plenário.

“Da mesma forma que Vossa Excelência (Benny) falou em defesa dos seus, eu quero fazer dos meus portugueses, brancos, europeus, que vieram desbravar não só o Brasil, mas o mundo. Hoje nós temos um continente desenvolvido como as Américas graças a esses europeus”, declarou.

A fala motivou reação imediata de Benny, que publicou um vídeo nas redes sociais classificando o posicionamento como inaceitável e associando o conteúdo a uma leitura histórica marcada por violência e opressão.

“Você está fazendo apologia ao crime. Isso aqui não é opinião, isso aqui é crime. A ONU já reconheceu que a escravidão foi o maior crime da humanidade, e ainda assim você se coloca a defender colonizadores que submeteram o povo negro a violência, tortura e exploração”, retrucou a vereadora.

Vídeo na 76ª DP

Sem citar diretamente o nome da parlamentar, Fabiano Gonçalves respondeu dias depois com a divulgação de um vídeo em frente à 76ª DP (Centro), onde registrou ocorrência alegando ter sido alvo de acusação injusta. No registro, ele nega qualquer prática de apologia ao racismo e afirma que buscará responsabilização judicial para esclarecer o caso.

“Repudio todo tipo de discriminação, racismo e segregação. Isso não faz parte do que acredito enquanto cristão. Vou até as últimas consequências para provar que não cometi tal ato, e quem fez essa acusação vai responder por isso”, afirmou na gravação.

Em outro momento mais tenso, também envolvendo a parlamentar, ela discutiu com o colega Douglas Gomes (PL). Durante uma das sessões, ele alegou que a vereadora o chamou de “babaca”. O vereador Anderson Pipico (PT) ainda fez gestos para que os microfones fossem cortados.

“A gente fala aqui sobre falta de medicamento, que é o que dói na população. Vem para cá só para chamar a atenção. A população quer saber: de 99 sessões, faltou a 33. A Lei Orgânica do município é clara. Parlamentar que falta a um terço das sessões automaticamente perde o mandato. Agora, é claro, vai dar carteirada. Se perder o mandato, é racismo. Se perder o mandato, é transfobia”, disse.

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