Dirceu vê avanço de Lula entre jovens e defende renovação do PT

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O ex-ministro José Dirceu avalia que o crescimento do apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os jovens e a eleição de novas lideranças progressistas representam uma oportunidade de renovação para o Partido dos Trabalhadores. Em artigo intitulado “A juventude empurra o PT para o futuro”, o ex-presidente da legenda afirma que a aproximação das novas gerações com a esquerda contraria a tese de que a sigla perdeu definitivamente sua capacidade de mobilização nesse segmento do eleitorado. “Um partido que nasceu para transformar o Brasil não pode ter medo de se transformar”, escreveu. O texto foi publicado nesta segunda-feira (19) no Metrópoles.

No texto, Dirceu argumenta que os resultados das eleições de 2026, as pesquisas de intenção de voto e a participação de jovens na campanha do segundo turno demonstram que Lula e o PT recuperaram espaço em uma disputa política que, nos últimos anos, também favoreceu a direita e a extrema direita. 

Segundo o ex-ministro, essa mudança precisa ultrapassar o calendário eleitoral e resultar na formação de novas lideranças, na modernização das estruturas partidárias e na construção de propostas capazes de responder às expectativas da juventude.

O dirigente petista reconhece que o partido enfrentou dificuldades para acompanhar mudanças na comunicação, nas formas de organização política e nas relações de trabalho. Segundo ele, essas limitações alimentaram a percepção de que o PT havia envelhecido e perdido contato com as novas gerações.

Mas Dirceu considera que o diagnóstico não explica integralmente a realidade política demonstrada pela eleição presidencial deste ano. “A tese de uma ruptura irreversível entre a juventude, Lula e o PT não se sustenta”, afirma no artigo.

Dirceu destaca crescimento de Lula entre jovens nas pesquisas

Um dos principais argumentos apresentados por José Dirceu é a evolução das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos. De acordo com os dados do Datafolha citados pelo ex-ministro, Lula registrava 46% das intenções de voto nesse segmento às vésperas do primeiro turno, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) alcançava 32%.

Após a primeira etapa da eleição, o cenário mudou. Na pesquisa inicial do segundo turno, Flávio aparecia numericamente à frente, com 50%, contra 43% de Lula. O levantamento divulgado em 15 de outubro, por sua vez, mostrou uma inversão desses percentuais. O presidente passou a registrar 50% das intenções de voto entre os jovens, enquanto o adversário caiu para 43%. Ao considerar apenas os votos válidos, Lula alcançou 54%, contra 46% de Flávio Bolsonaro.

A margem de erro de seis pontos percentuais para esse grupo indica empate técnico. Dirceu destaca, mesmo assim, a variação de sete pontos a favor do presidente e de sete pontos negativos para o candidato do PL no intervalo entre as pesquisas. “Pesquisa não é voto, sobretudo em recortes menores. Mas, combinadas com o que vemos nas ruas, as pesquisas revelam um movimento que precisa ser compreendido pela esquerda”, escreveu.

Juventude exige mudanças na organização política do PT

O ex-ministro observa que movimentos estudantis, organizações sociais, artistas e grupos independentes passaram a atuar em conjunto durante o segundo turno, sem necessariamente reproduzir os métodos históricos de mobilização partidária. Ele defende que o partido reconheça a autonomia desses movimentos e acompanhe as transformações provocadas pelas plataformas digitais e pelas novas relações de trabalho.

Na avaliação do dirigente, a experiência dos jovens das periferias, dos trabalhadores de aplicativos e dos estudantes que precisam conciliar a formação acadêmica com atividades remuneradas deve orientar a formulação de políticas públicas. Dirceu também rejeita a ideia de que a aproximação com a juventude dependa apenas de investimentos em redes sociais ou da contratação de influenciadores. “Comunicação é fundamental, mas ninguém sustenta uma relação política sem projeto”, afirma.

Nova bancada do PT apresenta redução na média de idade

Outro ponto destacado por José Dirceu é a renovação da representação parlamentar petista nas eleições de 2026. O partido elegeu 70 deputados federais, enquanto a idade média de sua bancada passou de 55,2 anos, em 2022, para 52,6 anos neste ano.

Segundo o ex-ministro, trata-se da primeira redução desse indicador desde 1998. Embora o PT ainda mantenha uma das bancadas com maior média de idade da Câmara, Dirceu considera que o resultado aponta para uma mudança na composição de seus representantes.

Entre os parlamentares citados estão Ana Elisa, eleita por Minas Gerais aos 21 anos, Ana Júlia Ribeiro e Pedro Rousseff, ambos com 26 anos, Diego Quaquá, de 28, Rosa Amorim, de 29, e Camila Jara, de 31.

O ex-ministro também menciona Luna Zarattini e Dandara Tonantzin, ambas com 32 anos, e Miguel Ângelo, de 35. No campo progressista, Dirceu cita o deputado Guilherme Cortez, do PSOL, e Erika Hilton, de 33 anos, como integrantes de uma geração que amplia sua presença nos espaços de representação política.

Na Assembleia Legislativa de São Paulo, o dirigente identifica o mesmo movimento entre parlamentares como Duda Hidalgo, de 27 anos, Leonardo Grandini, de 24, e Thainara Faria, de 31.

Lula diz a Dirceu que seu sucessor será o PT

O ex-ministro também relata uma conversa com Lula sobre a continuidade do projeto político representado pelo Partido dos Trabalhadores. Segundo Dirceu, o presidente afirmou: “O meu sucessor é o PT”.

O dirigente interpreta a declaração como uma defesa da formação de novas lideranças e do fortalecimento da organização partidária para além da trajetória individual do atual presidente. Dirceu menciona que, após o primeiro turno, Lula reuniu parlamentares eleitos e participou de gravações com jovens lideranças, entre elas Ana Elisa, Rosa Amorim, Luna Zarattini e Guilherme Cortez.

Na avaliação do ex-ministro, o encontro do presidente, aos 80 anos, com políticos que estão na faixa dos 20 e 30 anos representa um esforço de integração entre diferentes gerações. O dirigente recorre ainda a versos de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, para ilustrar a importância dessa renovação. “Com o novo todo o velho contagia”, escreveu o poeta, em passagem reproduzida por Dirceu.

Trabalho, educação e tecnologia entram no centro do debate

Ao discutir o futuro do PT, José Dirceu afirma que a aproximação com os jovens dependerá da capacidade de oferecer respostas às dificuldades econômicas e sociais enfrentadas pelas novas gerações. O ex-ministro argumenta que a precarização do trabalho, o endividamento e a instabilidade de renda comprometem a possibilidade de milhões de brasileiros planejarem suas vidas.

O dirigente lembra que programas como o Prouni, as políticas de cotas, a expansão das universidades e dos institutos federais e o Pé-de-Meia ampliaram o acesso à educação e criaram oportunidades para estudantes de diferentes origens sociais. Ele ressalta, entretanto, que essas conquistas não podem servir como argumento para exigir apoio político das gerações beneficiadas. “Direitos não são favores. Uma geração que teve mais oportunidades tem todo o direito de exigir o próximo passo”, afirma.

Na avaliação de Dirceu, esse novo ciclo precisa combinar investimentos em educação, ciência, tecnologia, reindustrialização, transição ecológica e geração de empregos de qualidade. O ex-ministro também defende uma discussão sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho e sobre a distribuição dos ganhos de produtividade associados às novas tecnologias.

A redução da jornada de trabalho aparece no artigo como uma medida que dialoga com as expectativas de trabalhadores jovens. Para Dirceu, o avanço tecnológico precisa resultar em melhores condições de vida, e não apenas no aumento da produção.

Dirceu defende que PT recupere capacidade de contestação

Na parte final do artigo, José Dirceu aborda a disputa entre a esquerda e a extrema direita pela identificação política da juventude. Segundo o ex-ministro, movimentos ligados ao bolsonarismo conseguiram apresentar suas lideranças como representantes da contestação às instituições e às estruturas tradicionais de poder.

O dirigente argumenta que o PT também nasceu de uma mobilização contra desigualdades econômicas e sociais e que a experiência acumulada em governos não deveria afastar o partido dessa origem. Dirceu reconhece a existência de uma contradição entre a participação prolongada nas instituições e a necessidade de preservar uma agenda de mudanças, mas considera que a atuação no Estado pode contribuir para transformar a sociedade quando existe mobilização popular.

“Um partido de transformação não deve pedir aos jovens que abandonem sua rebeldia para entrar nele. Precisa oferecer espaço para que transformem rebeldia em organização, projeto e mudança”, afirma.

O ex-ministro também reconhece que a direita e a extrema direita desenvolveram lideranças jovens, conquistaram espaço nas redes sociais e souberam explorar insatisfações que a esquerda nem sempre conseguiu compreender. Para ele, os resultados eleitorais demonstram que nenhum campo político detém o apoio permanente das novas gerações.

O desafio do PT, segundo Dirceu, consiste em transformar a aproximação registrada durante a campanha em uma relação duradoura, com participação efetiva dos jovens nas decisões partidárias e na formulação de políticas públicas.

O ex-ministro conclui que o futuro do partido dependerá da capacidade de combinar experiência política, renovação de lideranças e propostas que enfrentem as dificuldades da população mais jovem. “A aproximação que vemos nesta eleição será duradoura apenas se formos capazes de responder à pergunta essencial que toda nova geração faz à política: qual futuro vocês têm para nos oferecer?”, escreveu.

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