Dia dos Professores: conheça profissionais que fazem a diferença na educação de jovens e adultos da EJA

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é uma modalidade de ensino destinada a pessoas que não concluíram os estudos na idade considerada adequada. Prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, oferece a oportunidade de retomar a formação escolar e concluir etapas da educação básica, como o ensino fundamental e o médio, além de ampliar as possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Prefeito de cidade do RN pede respeito à filha de 14 anos encontrada em Portugal e repudia ataques nas redes O caminho da fumaça: veja as rotas de ventos que transportaram fuligem das queimadas do Pará e do Amazonas até Manaus Uma pesquisa realizada em 2025 pela Fundação Roberto Marinho em parceria com Itaú Educação e Trabalho aponta que, entre jovens de 19 a 29 anos, concluir a EJA aumenta em 7 pontos percentuais as chances de conseguir um emprego formal e eleva a renda mensal do trabalho, em média, em 4,5%. Entre a a faixa etária de 19 a 24 anos, o impacto é maior: a probabilidade de formalização do emprego aumenta até 9,6% , enquanto a renda mensal cresce 7,5%. O GLOBO foi até o Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos (CREJA), no centro do Rio, para conhecer as histórias dos alunos que ilustram esses resultados. — Tivemos uma aluna que enfrentava o vício em álcool e encontrou na escola a oportunidade de mudar de vida. Ela concluiu o ensino fundamental, terminou o ensino médio em outra instituição e conseguiu um emprego de secretária. Depois, voltou para agradecer e dizer que tudo havia começado ali. Para nós, esse é o maior prêmio — conta a professora Karla Freitas. Estudo: Brasil tem 37,3% da população acima de 15 anos sem concluir a educação básica Professora da EJA desde 2018, Karla ressalta a importância da modalidade e seu impacto na trajetória dos estudantes. — A gente lida com diversas realidades: pessoas que voltam a estudar para realizar um sonho e outras em situação de vulnerabilidade social, que precisam da escola para melhorar de vida, conseguir um emprego e até se alimentar. A EJA realmente faz muita diferença na vida das pessoas. Eu diria até que transforma a sociedade — afirma. O resgate de um sonho — Para mim, os professores são cirurgiões. Eles curam pessoas, entendeu? Eles libertam as pessoas. A gente fica preso dentro de uma gaiola, mas, na escola, essa gaiola se abre e, quando isso acontece, você ganha o mundo. Podem tirar tudo da gente, menos o conhecimento. O relato é de Thaylla Werneck Arguellens, mulher trans de 36 anos e ex-moradora de rua que encontrou na EJA uma oportunidade de recomeçar. Atualmente, vivendo em um abrigo, ela frequenta o CREJA de segunda a sexta-feira. Com o apoio das professoras, começou a resgatar um direito que, segundo ela, havia deixado para trás: o de sonhar. Diretora do CREJA, Isabel Lopes explica que o trabalho dos educadores vai além do ensino das disciplinas. A escola também incentiva os estudantes a reconhecerem seu direito de ocupar espaços culturais e de lazer, ampliando suas experiências para além da sala de aula. — Os estudantes realizam atividades fora da sala de aula, como ir ao teatro, ao cinema, a exposições e museus. Isso permite que acessem espaços de arte e cultura que antes achavam que não eram para eles. Acreditavam que só podiam ficar aos arredores desses lugares para vender uma bala, pedir dinheiro ou dormir. Quando acessam a educação, acessam também outros direitos. Isabel Lopes, diretora do CREJA(à esq), e Thaylla, aluna (à dir) Arquivo pessoal Diante dessas mudanças, Thaylla define as professoras como "heroínas". Neste Dia dos Professores, celebrado nesta quinta-feira, ela defende maior reconhecimento da profissão e destaca o papel dos educadores na construção de novas possibilidades para os alunos. Carteira assinada Colega de turma de Thaylla, Júlio César Santos da Silva, de 45 anos, também se emocionou ao falar sobre a escola e sua relação com as educadoras. Foi nas conversas com as professoras que encontrou incentivo para buscar um emprego com carteira assinada. Hoje, trabalha como zelador em um prédio e afirma que se tornou mais responsável e passou a enxergar a si mesmo de outra maneira. Júlio César Santos da Silva, aluno do CREJA Eduardo Moure/O GLOBO — São pessoas que realmente mudam a tua vida. São seres humanos incríveis, não só dentro da sala de aula. Elas me demonstraram que a leitura faz a gente alcançar grandes objetivos, por exemplo. Com mais confiança, Júlio se prepara para perseguir outro objetivo: trabalhar embarcado em uma empresa do setor petrolífero. — Eu pretendo chegar à Petrobras. Eu tenho que chegar lá. E tenho certeza de que vou voltar aqui e agradecer às pessoas que ainda vão permanecer aqui, porque a minha mente mudou muito. Hoje, leitor quase assíduo, Júlio considera a oficina de leitura uma de suas atividades favoritas. Ministrada pela professora Márcia Cazer, conhecida como “Marcinha”, a iniciativa estimula o hábito da leitura e proporciona a muitos estudantes o primeiro contato com os livros. — O trabalho de um professor, antes de ensinar a ler, é psicológico. Primeiro, você tem que fazer o aluno acreditar nele mesmo. Depois, todas as outras coisas virão. Nosso papel é lembrá-los o tempo todo de que são capazes de voar muito longe — explica a professora. Desafios para uma educação do afeto Apesar de ampliar oportunidades, a EJA enfrenta obstáculos para garantir o acesso e a permanência dos estudantes. No Brasil, 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais abandonaram a escola antes de concluir a educação básica, segundo o estudo realizado pela Fundação Roberto Marinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), divulgado no último mês de julho. Mesmo diante dessa demanda, as matrículas na modalidade caíram de 2.391.319, em 2024, para 2.252.069, em 2025. Em 2024, a EJA já havia perdido 198 mil alunos em relação a 2023, alcançando o menor número de matrículas da série histórica. Os dados são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação. Tathiana Barbosa, pedagoga, pesquisadora da EJA e integrante do Fórum de Educação de Jovens e Adultos do Rio de Janeiro, aponta a dificuldade de conciliar trabalho e estudo como um dos principais entraves à permanência na escola. Ela também chama a atenção para o perfil dos estudantes: 66% das matrículas são de pessoas negras e 53%, de mulheres. — Eu falo que não é um aluno trabalhador, é um trabalhador aluno, muitas vezes. A EJA precisa estar aberta, esperando esse aluno, que muitas vezes precisa ir e voltar, porque tem que interromper os estudos por um período para conseguir se sustentar. A pesquisadora destaca o empenho dos profissionais na construção de um ambiente acolhedor e inclusivo. Para ela, a educação oferecida pela modalidade envolve não apenas o cuidado, mas também a possibilidade de transformar a maneira como os estudantes enxergam a si mesmos e o mundo ao redor. — A educação da EJA é uma educação do afeto, mas não do afeto somente do carinho, do aconchego, mas do afetar o outro. Nós afetamos vidas, nós modificamos vidas com o nosso trabalho. Para Thaylla, o acolhimento foi decisivo para que se sentisse segura ao retornar à escola. Depois de experiências difíceis, ela chegou com receio de enfrentar novamente a discriminação. — A primeira coisa que pensei foi: vou sofrer bullying, vou passar pelo que sofri antes. Mas, ao chegar, encontrei um acolhimento magnífico da diretora e dos professores, que são maravilhosos e atenciosos. Quando disse que era uma mulher trans e perguntei se teria algum problema, me responderam que a escola era aberta e que, ali dentro, também havia leis, assim como lá fora — conta. Thaylla e Júlio são dois entre os muitos estudantes que encontraram na EJA incentivo para reconstruir seus caminhos e investir em novos projetos de vida. No Dia dos Professores, ambos destacam uma palavra para resumir o que sentem por Karla, Márcia, Isabel e os demais educadores que os acompanham nessa jornada: gratidão * Estagiário sob supervisão de Daniel Biasetto

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