Dia da Amazônia: microrganismos 'invisíveis' ajudam a manter a floresta em pé

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Quando se fala em Amazônia, é comum imaginar grandes árvores, rios extensos e animais como onças, botos e araras. Mas uma parte essencial da vida na floresta não pode ser vista a olho nu. Fungos, bactérias e outros microrganismos desempenham funções fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas e ajudam a manter a biodiversidade do maior bioma brasileiro.

A Amazônia abriga cerca de 40 mil espécies de plantas, 300 espécies de mamíferos e 1,3 mil espécies de aves. A região também está associada à maior bacia hidrográfica do planeta e concentra uma parcela significativa da água doce disponível no mundo.

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Por trás de toda essa diversidade, existe uma rede de organismos microscópicos que atua, entre outras funções, na decomposição da matéria orgânica e na ciclagem de nutrientes. Sem esse trabalho, a própria dinâmica da floresta seria comprometida.

“A maior parte das plantas e animais não sobrevive sem os microrganismos, que decompõem a matéria orgânica. Sem eles, o bioma amazônico não existiria”, explica Márcio Miranda, um dos fundadores do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), instituição que reúne milhões de registros científicos de biodiversidade, e diretor-geral do Centro de Bionegócios da Amazônia.

Seca, queimadas e cheias afetam a vida microscópica

Os chamados eventos climáticos extremos também atingem organismos que não podem ser vistos facilmente. Períodos prolongados de seca, queimadas e grandes cheias podem modificar as comunidades de microrganismos e interferir em processos importantes para o funcionamento dos ecossistemas.

Segundo Miranda, essas alterações atingem diferentes níveis da biodiversidade.

“Esses extremos impactam diretamente a dinâmica das populações de plantas, animais e microrganismos. Os ecossistemas têm limites para sua adaptação a esses eventos, tendo como condição básica a recomposição da diversidade”, afirma.

O especialista alerta ainda para o risco de desaparecimento de espécies que possuem populações pequenas e distribuição restrita. “Pequenas populações de espécies endêmicas podem levar à sua extinção, com perdas irreparáveis para o meio ambiente”, acrescenta.

Início da época de seca no Rio Negro, Amazonas. (Natasha Olsen)

Conservação da Amazônia envolve biodiversidade e economia

A conservação da Amazônia também está relacionada às discussões internacionais sobre biodiversidade e mudanças climáticas. Para Miranda, a aproximação entre essas agendas amplia o debate sobre formas de financiar a conservação e estimular o uso sustentável dos recursos naturais.

Nesse cenário, a valorização econômica da biodiversidade pode contribuir para fortalecer cadeias produtivas locais, gerar renda e reduzir a pressão sobre a floresta.

“Quanto mais valor de mercado é atribuído a esses ativos, maiores são as chances de conservação do core florestal na Amazônia”, avalia.

Para o especialista, Ciência, Tecnologia e Inovação precisam caminhar junto aos conhecimentos tradicionais e aos modos de vida das populações amazônicas. A conservação da biodiversidade, a redução da dependência de combustíveis fósseis e o fortalecimento da sociobioeconomia são apontados como caminhos que precisam avançar de forma integrada.

Dados ajudam a identificar áreas prioritárias

Transformar informações sobre a biodiversidade em conhecimento também é uma ferramenta para a conservação. Sistemas desenvolvidos e gerenciados pelo CRIA reúnem registros sobre espécies, ambientes e distribuição da biodiversidade, ajudando a identificar áreas de maior diversidade e regiões prioritárias para proteção.

Segundo Miranda, os dados fazem parte de uma cadeia que começa com os registros científicos e pode resultar na elaboração de políticas públicas e estratégias de conservação.

A integração dessas informações com dados climáticos permite ainda acompanhar os efeitos das mudanças ambientais sobre a Amazônia e outras regiões.

Amazônia influencia o clima e as chuvas

A importância da floresta ultrapassa os limites do bioma. A umidade liberada pela vegetação participa da formação dos chamados “rios voadores”, grandes fluxos de vapor d’água que contribuem para o regime de chuvas em diferentes áreas do continente.

Esse processo influencia regiões importantes para a produção agropecuária, incluindo áreas da Amazônia e do Centro-Oeste. A floresta também está diretamente relacionada aos ciclos hidrológicos e climáticos em escala regional e global.

Apesar disso, a distância entre os grandes centros urbanos e a floresta pode dificultar a compreensão sobre a dimensão desses processos e sobre a importância de conservar a biodiversidade.

Para Miranda, preservar a Amazônia não significa impedir o desenvolvimento econômico da região. Ao contrário, a geração de emprego e renda, a agregação de valor aos produtos da biodiversidade e o fortalecimento do extrativismo sustentável podem ser estratégias para reduzir a pressão sobre a floresta.

“A tarefa de manter a floresta em pé não concorre com o desenvolvimento econômico e social. Sempre que os mecanismos voltados para o aumento de emprego e renda não funcionam, a floresta paga um preço alto”, conclui.

O Dia da Amazônia é celebrado em 5 de setembro. A data faz referência à criação da Província do Amazonas, em 1850, durante o reinado de Dom Pedro II.

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