A aposentada Tetiana tenta limpar um tapete retirado dos escombros de seu apartamentoHanna Sokolova-Stekh Num pátio cercado por prédios residenciais bombardeados, um tapete empoeirado está pendurado na estrutura metálica de um balanço. A aposentada Tetiana o retirou de seu apartamento coberto de escombros e começou a limpá-lo.Há alguns dias, três bombas aéreas russas atingiram a área residencial na periferia oeste de Sloviansk, cidade ucraniana que desde 2022 sofre as consequências da guerra.
Uma delas destruiu parte de um prédio de cinco andares, deixando sete feridos.Tetiana, que mora no edifício em frente, cozinhava quando ouviu a explosão. "As janelas voaram na minha direção, mas não me atingiram, nem sequer me arranharam", lembra.
"A bomba atingiu o segundo andar. No quarto, morava uma mulher que gritava muito.
Conseguiram resgatá-la antes que toda aquela parte do prédio desabasse".No segundo andar moravam inquilinos. "Eu conseguia ver da minha janela quando havia luz no apartamento.
Naquele momento, aparentemente, eles não estavam em casa", conta Tetiana.Apesar da oferta de evacuação, ela ainda não deixou Sloviansk. Desde o verão europeu, a cidade integra a lista de áreas com combates ativos.
"Não sei para onde ir. Minha aposentadoria é de 3.400 grívnias [cerca de R$ 430].
Mesmo com um auxílio de mudança de 2.000 grívnias [R$ 250], eu teria pouco mais de 5.000 grívnias por mês [R$ 640]. Não dá para viver com isso em lugar nenhum.
Hoje em dia, um apartamento custa até 20 mil grívnias por mês [R$ 2.550]."Em seu bairro ainda há eletricidade e água, mas o fornecimento de gás foi interrompido. "Nós vamos sobreviver", diz esperançosa.
"Vai ficar tudo bem. É isso que digo a todos.
Eu desejo isso do fundo do coração.""Caças no céu!", grita um socorristaMesmo dias após o ataque, os poucos moradores dos edifícios danificados continuam limpando seus apartamentos. Um homem trabalha na janela de um apartamento próximo à parte destruída do prédio.
Aparentemente, ele está sozinho.Um carro chega ao local. Dentro, está um casal de idosos que tem um apartamento em um prédio vizinho.
Eles haviam sido evacuados para a região de Kiev, mas, ao saberem dos bombardeios pelas notícias, voltaram para recolher pertences e proteger as janelas com placas de madeira.Durante os trabalhos de limpeza, ocorre um novo ataque. Desta vez, as bombas atingem um edifício que abriga um centro estatal de atendimento emergencial e uma unidade da Cruz Vermelha.
Enquanto os bombeiros combatem o incêndio, equipes de resgate e voluntários retiram objetos que restaram entre os escombros e removem estilhaços de vidro. Oito pessoas ficam feridas."Caças no céu!", grita de repente um socorrista.
Todos abandonam o prédio. Os moradores estão assustados, mas hesitam em se refugiar nos porões.
Preferem esperar o fim do alerta em bancos próximos aos conjuntos habitacionais."Parecia que alguém tinha me golpeado na cabeça"A aposentada Natalia descreve um dos ataques recentes: "Eu estava na varanda quando ouvi uma explosão enorme. Parecia que alguém tinha batido na minha cabeça.
O barulho era ensurdecedor." Ela estava na região para cuidar da irmã gêmea. "Ela não consegue mais se locomover.
Hoje não consegui comprar pão e levei torradas para ela."Embora ainda existam lojas e algumas bancas no mercado que foi parcialmente destruído por ataques, pão não está disponível todos os dias. Natalia tentou convencer a irmã a partir.
"Eu iria para uma casa de repouso e ela para um hospital. O cachorro dela está doente, e eu também tenho um."Ela critica o fato de que animais de estimação não podem acompanhar os evacuados.
"Tenho que ficar aqui porque não posso abandonar minha irmã e o cachorro dela. Ela está preocupada e desconta a raiva em mim, como se eu fosse culpada de tudo.
Eu simplesmente não tenho mais forças."Natalia começa então a caminhada de volta para o centro da cidade. "Preciso chegar antes de escurecer." São quase quatro quilômetros a pé.
O transporte público deixou de funcionar após um ataque a dois ônibus na vizinha Kramatorsk, no qual que deixou 30 mortos."Estamos acostumados a viver sob fogo"O centro de Sloviansk está muito destruído. Ainda existem algumas lojas abertas, mas poucas pessoas circulam pelas ruas.
Dos cerca de 100 mil habitantes que a cidade tinha antes da guerra, restam aproximadamente 20 mil. A maioria são idosos que não conseguem partir.O aposentado Vasyl, morador da vila de Maiaky, ao norte de Sloviansk, almoça numa cafeteria do centro.
"Já estamos acostumados a viver sob bombardeios", diz. Mas acrescenta: "É um hábito ruim do qual deveríamos ter nos livrado há muito tempo."Vasyl tem dificuldades auditivas e aparentemente não percebe os drones que sobrevoam a área e são alvejados por soldados.
Ele deseja a paz para sua terra natal, mas rejeita a ideia de entregar a parte da região de Donetsk controlada por Kiev à Rússia, como exige o presidente russo, Vladimir Putin.Dormir se tornou impossívelDuas idosas conversam numa rua coberta por redes de proteção contra drones. "Nem sei quando foi a última vez que tive uma noite inteira de sono", lamenta a aposentada Iryna.Ela toma valeriana para tentar relaxar.
"Mas não ajuda muito. É terrível.
Não posso ir para lugar nenhum." O motivo: "Tenho dois gatos. Dizem que devo deixá-los para trás.
Mas eu os amo demais. Eles são tudo o que me resta."Ela resume a sensação de viver perto da linha de frente: "Só resta se esconder, tremer e rezar a Deus para que tudo dê certo.
Quando vou ao mercado, não sei se vou chegar viva. Enquanto caminho, fico olhando para o céu para ver se há algo voando."O mercado central para onde ela se dirige foi atacado por drones russos algumas semanas atrás.
Pelo menos três pessoas ficaram feridas. Desde então, há menos comerciantes e clientes."Sonhamos em permanecer aqui"A vendedora de lingerie Valeriia levou a filha de cinco anos, Sofia, para o trabalho porque as creches estão fechadas.
A rua onde vivem em Sloviansk ainda não está sujeita à evacuação obrigatória de famílias com crianças. "Já estamos acostumados a essa vida.
Fomos evacuados em 2022, voltamos depois e agora esperamos novamente ser evacuados."Sofia corre pelos corredores da loja com a amiga Ania, de seis anos. A mãe de Ania é soldado e participa da defesa da cidade.Ao lado da menina está sua avó, Tetiana, que vende roupas masculinas e também precisa levar a neta para o trabalho.
Tetiana já começou a enviar seus pertences para a região de Dnipropetrovsk, onde pretende se estabelecer. Lutando contra as lágrimas, ela diz: "É muito triste ver nossa Ucrânia sendo destruída."E questiona: "Quem vai reconstruir nossas cidades?".
Apesar disso, mantém uma esperança: "Espero que possamos voltar. Mas quando penso em Bakhmut, já não restam casas para as pessoas retornarem.
Confio nos nossos rapazes para manterem nossas cidades, embora saiba que isso é muito difícil."Sem esperança de cessar-fogoA comerciante Mariia, que também trabalha no mercado, compartilha do sentimento. "Sonhamos em permanecer aqui." Mas reconhece: "Não queremos ir embora, mas provavelmente teremos que partir.
A situação é crítica."Ela espera pelo marido, que combate na linha de frente. Sua irmã também é soldado.
O irmão morreu na guerra, deixando cinco sobrinhos órfãos.As duas mulheres não acreditam em um cessar-fogo próximo. "Putin não vai querer isso.
E então nossa geração mais jovem nos perguntará pelo que lutamos", afirma Tetiana. Na opinião dela, as tropas russas deveriam deixar o território ucraniano.Enquanto fala, ouvem-se drones e disparos sobre o mercado.
"É difícil para nossos rapazes abatê-los, mas eles realmente estão fazendo todo o possível", conclui.
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