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Com venda para a China, já falta sucata no Brasil

Fonte: Bandeira da fonte

Produto intensivo no uso de energia, o alumínio tem na reciclagem um dos principais caminhos para a descarbonização dessa indústria.
A economia energética na fabricação chega a 95% com o reaproveitamento do material.
A produção de um alumínio mais limpo, no entanto, tem esbarrado em dificuldade de acesso ao seu principal insumo, a sucata, devido, sobretudo, ao apetite chinês pela matéria-prima.
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Hoje, cerca de 80% das exportações brasileiras de sucata de alumínio têm como destino a Ásia, segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal).
Sozinha, a China, responde por quase um quarto do total.
Os embarques cresceram tanto nos últimos anos — o salto foi de 590% desde 2022 — que os produtores nacionais já temem perda de competitividade e da sustentabilidade da produção.
A Novelis, líder em reciclagem de alumínio no Brasil, fechou as portas de um centro de coletas de sucata em Juiz de Fora (MG), no ano passado, por falta de oferta do insumo e acredita que a causa foi a competição com exportadores.

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Já a Alumini1, do mesmo segmento, conta ter ficado uma semana sem acesso ao produto, em março deste ano, quando a cobrança temporária de PIS e Cofins sobre a sucata vendida internamente levou fornecedores a preferirem o mercado externo.
A menor disponibilidade do produto atrapalha os planos de transição energética das empresas.
Se tivesse acesso a mais sucata, o índice de reciclagem da Novelis, no país, poderia se aproximar de 100%, com a ajuda de parceiros.
Hoje, as suas chapas de alumínio têm 80% de conteúdo reciclado.

Transição energética
Criação O Globo
A empresa possui capacidade de laminação de 750 mil toneladas por ano e de reciclagem de 500 mil toneladas anuais, e ainda mantém 13 centros de coleta de logística reversa distribuídos por diferentes regiões.
— Falta sucata no mercado.
O que a gente tem observado é um volume cada vez maior de exportação de sucata, entre elas, a de lata de bebidas.
A gente entende que isso está impactando negativamente os produtores locais, transferindo sustentabilidade e competitividade para outros países.
A gente não é contra a exportação.
Mas o desenvolvimento do país passa por exportar produtos de maior valor agregado — advertiu Eunice Lima, diretora de Comunicação e Relações Governamentais da Novelis América do Sul.
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Marina Leite, diretora administrativa da Alumini1, negocia semanalmente a sucata para a sua unidade em Itaquaquecetuba (SP), de 4 mil toneladas de capacidade, e diz que para garantir que a fábrica não pare em períodos críticos, como foi o mês de março, mantém um estoque de insumo de cerca de 30 dias.
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Por enquanto, a indústria brasileira de alumínio mantém vantagem em relação ao resto do mundo, segundo o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marco Antonio Rocha.
O alumínio primário (fabricado a partir da bauxita) é produzido no país majoritariamente com hidroeletricidade, energia limpa, enquanto a versão reciclada reduz ao mínimo as emissões.

Ele ressalta que esse é um ativo importante, num cenário em que a Europa passou a cobrar pelo carbono do produto importado.
Rocha lembra que o Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio em 2024.
Foram quase 34 bilhões de unidades, mais de 400 mil toneladas.
Esse é o melhor índice do mundo, superior às marcas da Europa e dos Estados Unidos.

A reciclagem já responde por 57% da oferta de alumínio no Brasil, segundo dados da Abal e da Associação Brasileira de Fábricas de Latas de Alumínio (Abralatas).
Comisso, o uso de energia cai assim como as emissões de carbono.
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— Entretanto, há duas ressalvas.
Primeiro, a reciclagem é limitada pela sucata disponível.
Ela complementa, mas não substitui a descarbonização da rota primária.
A segunda ressalva é que há hoje uma disputa global pela sucata, com Estados Unidos e Ásia comprando material brasileiro.
Nós precisamos discutir, assim como em outros casos relacionados à economia verde, se queremos exportar esse recurso estratégico bruto ou reter e transformar aqui — afirmou Rocha.
Uso em carros elétricos
O International Aluminium Institute (IAI) projeta um crescimento de cerca de 40% do consumo global de alumínio, entre 2020 e 2030, e quem puxa a alta são as tecnologias limpas, como molduras e estruturas de painéis solares, cabos de transmissão e carros elétricos.
A demanda por alumínio para renováveis e veículos elétricos deve quintuplicar até 2035.
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— Nós vamos precisar de muito mais alumínio para descarbonizar o mundo.
A pergunta é de onde ele vem.
Se vier tudo da rota primária, multiplicamos a carga elétrica e as emissões.
A reciclagem é a forma de atender a essa demanda — acrescentou o professor da Unicamp.
O aumento da capacidade de oferta de alumínio exige capital intensivo e ativos estratégicos — bauxita (o minério que dá origem ao produto), energia limpa e sucata, no caso da indústria secundária.
E, neste ponto, o Brasil sai na frente, por contar com todos esses ativos.
Mas é preciso também ser comercialmente competitivo.
O país já passou por um processo de desindustrialização no segmento de alumínio primário, nos anos 2000, por conta da concorrência com a China, que saiu de uma participação de mercado de 10% para 60% em 20 anos.
A indústria brasileira voltou a respirar somente a partir de 2022, com a reabertura de fábricas.
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Agora, o país asiático volta a preocupar.
A China percebeu, assim como o Brasil, que é mais fácil ampliar a capacidade produtiva e atender às exigências ambientais de redução de carbono por meio da reciclagem.
A disputa passou a ser, então, pela sucata.
A preocupação da Abal é que ocorra uma nova desindustrialização diante da competição com o gigante asiático.
A presidente da associação defende algum tipo de controle à exportação da sucata, como a adoção de um imposto de exportação, a exemplo do que acontece em outros países.
Outra alternativa é garantir que a oferta do insumo aconteça primeiro internamente e que apenas a sobra seja exportada.
O Brasil é, atualmente, uma presa fácil na disputa internacional por sucata, segundo o advogado especializado em Comércio Internacional Welber Barral.
Ele explica que a Europa adota o imposto de exportação, enquanto os Estados Unidos restringem a saída do produto por completo.
— A gente tem uma série de políticas nacionais que visam fortalecer a economia circular, estabelecendo metas de reciclagem, e, por outro lado, a gente tem uma política comercial que precisa estar atuando de maneira coerente com essas outras políticas.
A sucata é importante, desde que ela fique no país, para alimentar uma vantagem competitiva que o Brasil construiu.
Se não, o investimento serve para descarbonizar outro país — disse Janaina Donas, presidente executiva da Abal.