Despedida do Sepultura e bandas da nova geração marcam 'passagem de bastão' no dia do metal no Rock in Rio

Despedida do Sepultura e bandas da nova geração marcam 'passagem de bastão' no dia do metal no Rock in Rio - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O heavy metal é tão tradicional no Rock in Rio que o termo “metaleiro” (que já foi considerado pejorativo, mas hoje é abraçado com carinho pelos adeptos) teria sido cunhado pela TV Globo nas transmissões do festival em sua primeira edição, em 1985, quando Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Scorpions e Whitesnake vieram desbravar os trópicos pela primeira vez. De lá para cá, vários desses medalhões, assim como o Metallica, voltaram ao festival, estabelecendo o dia do metal como uma instituição. Em 2026, ele está presente, em pleno sabadão, mas sem artistas com 40 ou 50 anos de carreira no elenco. A exceção é o Sepultura, outro freguês frequente, que passa pelo Rock in Rio pela última vez antes da aposentadoria. Rock in Rio 2026: nova experiência permite sobrevoar Cidade do Rock a bordo de aviões acrobáticos; saiba quanto custa Destaques: Críticos do GLOBO elegem os melhores shows do primeiro dia — A história do Sepultura no Rock in Rio é riquíssima — conta Andreas Kisser, guitarrista da banda fundada em Belo Horizonte em 1984. — Antes de ser da banda, eu fui ao festival de 1985 ver o Ozzy, com 16 anos. no dia 19 de janeiro. Não pude ver o Iron no dia 11 porque fiquei em recuperação na escola. Em 1991, já estávamos no palco, no mesmo dia que Megadeth, Guns N’ Roses e nossos ídolos do Judas Priest. De lá para cá, o Sepultura tocou no Mundo, no Sunset, dividiu o palco com artistas como Zé Ramalho eo grupo de percussão francês Tambours du Bronx, lançou disco, gravou clipe, participou como poucos do Rock in Rio. Para o último show no festival — a despedida definitiva está marcada para o dia 7 de novembro no Pacaembu, em São Paulo —, o quarteto tocará apenas o material gravado com o cantor Derrick Green, que entrou em 1997. Sinal de que a fila anda. — Iron Maiden e Metallica estão em momentos espetaculares, tocando para públicos até maiores do que os do Rock in Rio — analisa Andreas. — É legal porque abre espaço para bandas de outra geração, como o Avenged Sevenfold e o Bring Me The Horizon, que são nossos amigos, caras que a gente encontra em festivais pelo mundo. É bonito ver como o Sepultura influenciou essa galera. Show da banda Sepultura no Palco Sunset do Rock in Rio VII, em 2017, na Cidade do Rock Marcelo Theobald / Agência O Globo Fundado em 1999 (ou seja, 14 anos depois do Rock in Rio) em Huntington Beach, na região de Los Angeles, nos EUA, o Avenged Sevenfold chega para seu terceiro Rock in Rio tendo comprovado sua popularidade por aqui com uma chuva de camisetas com seu logotipo de morceguinhos em 2024. Em 2013, ainda jovens, os rapazes tocaram no Palco Mundo espremidos entre os medalhões Slayer e Iron Maiden. O SEU ROCK IN RIO: MONTE O SEU LINE-UP IDEAL EM JOGO INTERATIVO 12,8 mi de ouvintes mensais Com seus integrantes enfeitados por nomes artísticos malvadinhos, como o cantor M. Shadows (“M. Sombras”, nascido Matthew Sanders) e o guitarrista Synyster Gates (“Portões sinistros”, ou Brian Haner), o Avenged faz um metal de tintas tradicionais, profundamente influenciado por Metallica e Iron Maiden. Assim, conquistou os filhos dos fãs dessas bandas, a ponto de atingir 12,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify. O show desta noite no Rock in Rio (marcado para pouco depois da meia-noite) será o único por aqui: a banda esteve no Brasil em janeiro, quando tocou para 50 mil pessoas em São Paulo, em seu maior show solo. Influência de Linkin Park Não por coincidência, o nome que vem logo abaixo do Avenged no pôster do dia do metal também fez seu maior show da carreira em São Paulo, no mesmo Allianz Parque (hoje Nubank Parque). Porém, diferentemente dos californianos, os ingleses do Bring Me The Horizon fazem um som mais moderno, ainda que igualmente pesadão, ou até mais. Influenciado por bandas como o Linkin Park e os Deftones, o quarteto usa bases eletrônicas em prol da barulheira, o que lhes rendeu popularidade no mundo todo, especialmente no Brasil, casa do cantor Oli Sykes, casado com uma brasileira e pai de gêmeos nascidos por aqui. Ele se diz um tanto “assustado” com a importância dada à banda, mas faz uma reflexão. Show da banda Avenged Sevenfold no Palco Mundo Guito Moreto / Agência O Globo — É difícil imaginar o dia em que as bandas que ouvimos e amamos e vida toda vão parar de fazer shows, mas, ao mesmo tempo, esse momento está chegando, sabe? — diz ele. — Acho que os festivais e seus promoters estão se tocando disso, e depositando a confiança em nomes como nós. Acho que o dia pesado do Rock in Rio tem um grande line-up. Além do monolito Sepultura, o sábado tem nomes nacionais como o trio mineiro Black Pantera, que convida as moças do Nervosa para um show no Palco Sunset, o Korzus, companheiro de geração do Sepultura, no Global Village, e o rapper carioca Major RD, no Palco Favela. — O dia 5 vai ser o dia mais pesado e acho que o mais afrontoso também, com bandas da cena nacional como o Black Pantera, MC Taya, Supercombo e o histórico Sepultura — diz Roberta Dittz, do Canto Cego, também atração do Favela. A gente fez um show pra entregar bastante peso, misturado também a delicadeza das letra com o visceral da performance. ‘O rap e o rock sempre andaram juntos’ Uma das “provocações” de Zé Ricardo, vice-presidente artístico e curador do festival, foi a escalação de Major RD, um dos rappers de maior destaque atualmente, para o Espaço Favela, neste dia do heavy metal mutante. O artista, nascido na comunidade Vilar Carioca, em Campo Grande, Zona Oeste, volta ao Favela (onde se apresentou em 2019, com o vizinho Xamã) para estrear o show do recém-lançado álbum “Alfa”. A fim de estreitar as suas ligações com os sons pesados (nos shows, seu público costuma pular alto e abrir rodas, como se estivesse na plateia de um Slipknot), Major estará acompanhado por uma banda de rock. — Quando eu comecei a cantar dessa forma, me chamavam de doido, de estranho, de louco, disseram que isso não tem nada a ver com rap. E várias vezes eu bati nessa tecla ao falar: “Não, mano, tem a ver, sim! Olha aqui, ó, são movimentos que a gente criou, que vêm dos negros, mas que em algum momento tomaram da gente”. A indústria botou dinheiro e deixou tudo muito bonitinho — diz o rapper. — O rock nasceu do protesto, nasceu daquela parada de dizer “eu não sigo regra nenhuma, eu faço a minha própria regra, eu tenho meu próprio bando”. E o rap também veio disso, ele e o rock sempre andaram juntos. Graças a Deus eu consegui misturar tudo, fazer isso muito bem, e a galera entendeu. Vocalista do Canto Cego, Roberta Dittz pode tirar onda de veterana do Palco Favela (o canto cego do nome da banda é uma referência ao trecho da Maré tapado para não ser visto por quem passa na Linha Amarela). — Fomos um dos primeiros artistas anunciados para o palco em 2019, tivemos até matéria no Jornal Nacional no mesmo dia do anuncio do Iron Maiden! — vibra ela.— A gente viu o Espaço Favela nascer, e criamos todo um carinho com os produtores, que nos dão uma atenção especial, muito calorosa. Turnê de despedida Feliz com a turnê de despedida do Sepultura, que já passou “pelo mundo todo”, Andreas Kisser lembra a relação da banda com o Rio. — Pô, além de tantas edições do Rock in Rio, tocamos muitas vezes no Circo Voador, no Canecão, né? É uma relação longa e estreita — diz ele. — Nós gravamos aí o disco “Beneath the remains” (1989), em muitas madrugadas no estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico. A foto que está na contracapa do disco foi tirada no Arpoador. Enfim, temos um carinho gigantesco pela cidade. Com a despedida realmente se aproximando, Andreas diz que não tem planos concretos para 2027, a não ser seguir com projetos que já existem, como o programa de rádio “Pegadas de Andreas Kisser”, na Rádio 89, de São Paulo, a banda Kisser Clan, com o filho Yohan, e o festival Patfest, com que homenageia a mulher, Patrícia, morta de câncer em 2022. — Também vou me dedicar a fazer nada um pouco, né? — brinca ele, que também advoga pela eutanásia e pelo suicídio assistido. — Afinal, são 42 anos dedicados ao Sepultura. Onde e quando assistir ao Rock in Rio 2026? O Rock in Rio conta com transmissão ao vivo nos dias 4, 5, 6, 11, 12 e 13 de setembro, a partir das 15h15, pelo Multishow, e a partir das 15h50, pelo Canal Bis. No feriado do dia 7, a transmissão começa às 14h45 no Multishow e às 16h20 no Canal Bis. O Globoplay oferecerá sinal aberto para acompanhar os cinco palcos do Rock in Rio todos os dias, a partir das 15h30. Assinantes do plano Premium da plataforma de streaming também terão acesso à transmissão do Multishow em 4K, por meio de um sinal extra. A TV Globo exibirá flashes durante a programação e um especial todas as noites — às sextas (4 e 11/9), após o Globo Repórter; aos sábados (5 e 12/9), após o Altas Horas; aos domingos (6 e 13/9), após o Boletim Estrelas da Casa, e na segunda (7/9), após o Jornal da Globo. (Com a colaboração de Silvio Essinger)

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