Paulo Peruchetti: elevação da renda média está vinculada à educação Leo Pinheiro/Valor O mercado de trabalho brasileiro passou por uma reconfiguração estrutural nos últimos anos que vai além da queda do índice geral de desocupação. Conforme mostra um estudo inédito elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o contingente de pessoas presas no desemprego de longa duração, que buscam uma colocação há dois anos ou mais, despencou de 3,8 milhões no auge da pandemia em 2021 para cerca de 1 milhão de pessoas no segundo trimestre de 2026 - o número total de desocupados estava em 5,9 milhões no mesmo período. A fatia dos desocupados há mais de dois anos em relação ao total de desempregados recuou de quase 30% no início de 2021 para cerca de 18% no segundo trimestre de 2026, atingindo um dos menores patamares da série histórica iniciada em 2012, segundo o pesquisador do FGV Ibre responsável pelo estudo, Paulo Peruchetti, feito a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Para efeito de comparação, no início da série, essa proporção girava em torno de 20%. “A composição do número de desocupados no Brasil melhorou de forma muito clara. Tínhamos quase 4 milhões de pessoas nessa situação crítica de desemprego prolongado e hoje estamos perto de 1 milhão. Esse é um resultado que deve ser muito comemorado, pois quanto mais tempo o indivíduo fica fora do mercado, maior é a depreciação do seu capital humano”, afirma Peruchetti ao Valor. Para explicar o ritmo acelerado dessa absorção de mão de obra, Peruchetti observa uma conjunção de fatores. De um lado, o maior dinamismo da atividade econômica observado depois da pandemia de covid-19. De outro, a expansão acelerada das ocupações por conta própria e das atividades intermediadas por plataformas digitais, como motoristas de aplicativos e entregadores. O pesquisador do FGV Ibre explica que, embora não seja possível medir exatamente o tamanho da influência da mão de obra que migrou para atividades intermediadas por aplicativos, a correlação entre o avanço do trabalho por conta própria e a redução do desemprego de longa duração é evidente. “À medida que a pessoa passa muito tempo sem trabalhar, o conhecimento fica defasado. Ao tentar voltar, é natural e esperado que ela inicialmente migre para ocupações de menor produtividade e renda, em que a barreira de entrada é menor, como é o caso de grande parte do trabalho autônomo e de aplicativos, que são tipicamente informais", pondera Peruchetti. Mas o economista reforça que a dinâmica atual tem características próprias quando comparada a ciclos econômicos anteriores. Na recuperação pós-recessão de 2016, por exemplo, a reação do mercado de trabalho ocorreu quase inteiramente via informalidade. Já no ciclo pós-pandemia, o comportamento se inverteu e o emprego formal com carteira assinada passou a liderar a expansão das vagas, reduzindo a taxa de informalidade geral do país de volta a níveis observados em meados de 2015. Correlação entre avanço do trabalho por conta própria e a redução do desemprego de longa duração é evidente, afirma Paulo Peruchetti De acordo com Peruchetti, ainda que se observe uma suave desaceleração na taxa interanual de crescimento do emprego, a carteira assinada continua sendo o principal motor do mercado de trabalho formalizado. O estudo do FGV Ibre também joga luz sobre o comportamento dos rendimentos do trabalho. No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego geral no país atingiu 5,4% - equivalente a 5,9 milhões de pessoas desocupadas -, enquanto o rendimento médio manteve-se em patamares elevados. Um dos pontos principais da pesquisa de Peruchetti é a demonstração de que a elevação da renda média no país está diretamente vinculada ao avanço do nível educacional da população trabalhadora nos últimos anos. Em simulações que controlam o efeito da escolaridade, o FGV Ibre constatou que, caso não tivesse ocorrido uma melhora estrutural na composição educacional da mão de obra, a renda real praticamente não teria crescido. Contudo, apesar de indicadores macroeconômicos positivos relacionados ao mercado de trabalho como desemprego em queda, renda em alta e menos desocupados de longa duração, esse cenário positivo não tem se traduzido integralmente em uma percepção de melhora de bem-estar na população. Segundo o pesquisador, esse desacoplamento ocorre por uma soma de gargalos estruturais no orçamento das famílias. “Temos de um lado indicadores ótimos no mercado de trabalho, mas do outro um endividamento das famílias ainda muito elevado, que consome parte relevante da renda para o pagamento de juros e dívidas. Além disso, a inflação de alimentos nos últimos anos continuou pesando no orçamento dos estratos de menor renda, em que o comprometimento com itens essenciais é muito maior”, pontua Peruchetti. Ele acrescenta que a predominância de ocupações de baixa produtividade na estrutura de empregos do país contribui para a sensação de sufoco financeiro.
Arte/Valor A parte final do estudo reforça que a qualificação profissional é a única alternativa sustentável contra a precarização e o desemprego crônico. A disparidade do mercado brasileiro fica evidente quando cruzados os dados de informalidade e renda por grau de instrução no segundo trimestre deste ano. Na média nacional, a taxa de informalidade ficou em 37,4% com renda média de R$ 3.738. Os dados comprovam que um trabalhador com ensino superior completo ganha, em média, mais de três vezes o rendimento de quem não concluiu o ensino médio, além de ter uma exposição significativamente menor ao mercado informal. Diante do avanço acelerado de novas tecnologias e ferramentas como a inteligência artificial, que transformam as exigências do setor produtivo a passos largos, o estudo alerta que, no Brasil, cerca de 7 milhões de jovens de 14 a 29 anos continuam sem concluir o ensino médio, seja por evasão, seja por nunca terem frequentado a escola, em grande parte impulsionados pela necessidade precoce de trabalhar. "Se a economia enfrentar novas fases de desaceleração no futuro, o desemprego de longa duração voltará a subir. Sem uma agenda sólida de aprendizado contínuo e qualificação educacional, o trabalhador que perde o emprego e fica defasado arrisca-se a entrar em espiral de depreciação permanente de seu capital humano, empurrado de forma crônica para a informalidade ou para fora da força de trabalho", conclui Peruchetti.
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