Desembargador no prédio, banho e troca de roupa após disparo, ligação para os bombeiros e novos exames: as novidades do caso da PM morta pelo marido tenente-coronel

 

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Áudios de ligações de emergência e novos depoimentos obtidos revelam detalhes ainda não esclarecidos sobre o caso da soldado da Polícia Militar Gisele Alves. Materiais obtidos pelo Fantástico mostram os momentos que antecederam a morte da policial, que foi baleada na cabeça no apartamento onde morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, no bairro do Brás, na região central de São Paulo, em meados de fevereiro.

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As gravações mostram os momentos logo após o disparo e incluem chamadas feitas pelo oficial aos serviços de emergência, além do registro das câmeras de segurança do andar do prédio. O primeiro pedido de socorro foi feito por Geraldo Neto à Polícia Militar. Na ligação, ele afirma que a esposa teria cometido suicídio.

— Alô. É o tenente-coronel Neto, estou no Brás. A minha esposa é policial feminina, ela se matou com um tiro na cabeça. Manda um resgate, uma viatura aqui agora, por favor — diz ele.

Minutos depois, o oficial também entra em contato com o Corpo de Bombeiros.

— A minha esposa se matou com um tiro na cabeça. Ela ainda está viva, ela está respirando — afirma.

As imagens das câmeras do prédio mostram o tenente-coronel no corredor do andar. Às 8h02, ele aparece ao telefone, sem camisa. Três minutos depois, faz outra ligação. Às 8h13, três bombeiros chegam ao local.

Um dos socorristas, com 15 anos de experiência, disse em depoimento ter estranhado a cena. Segundo ele, a arma estava encaixada na mão de Gisele "de uma forma que nunca havia visto em casos de suicídio".

O sangue também já estava coagulado e o cartucho da bala não foi encontrado. Outro ponto é que embora o tenente-coronel tenha afirmado que estava no banho quando ouviu o disparo, ele estaria seco e não havia água no chão do apartamento.

— Eu entrei no banho. Fazia um minuto que eu estava debaixo do chuveiro quando escutei o barulho. Achei que fosse ela batendo a porta. Quando abri o box, ela estava caída no chão, no sangue. Ela deu um tiro na cabeça — afirmou.

Os socorristas conseguiram reanimar a policial no local. Enquanto tentavam salvá-la, disseram que o marido não demonstrava desespero e permaneceu ao telefone com superiores. Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida, em uma maca. O tenente-coronel aparece sentado no corredor.

Ligação para desembargador

Entre os contatos feitos por Geraldo Neto naquela manhã, houve uma ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. O magistrado chegou ao prédio às 9h07, depois que a policial já havia sido retirada do local. Ele e o tenente-coronel subiram juntos para o apartamento. O advogado da família de Gisele diz querer entender por que o desembargador foi acionado.

Às 9h18, o desembargador reaparece no corredor. Onze minutos depois, o tenente-coronel surge com outra roupa.

Testemunhas disseram que, nesse intervalo, ele teria tomado banho, mesmo após orientação de policiais para que não fizesse isso. Policiais militares que participaram da ocorrência afirmaram ainda que o oficial voltou com forte cheiro de produto químico.

Laudos da Polícia Técnico-Científica indicam que a cena do crime não foi preservada corretamente, o que teria prejudicado o trabalho pericial para determinar a dinâmica do disparo e quem efetuou o tiro.

Intervalo entre disparo e socorro

Outro ponto levantado pelos investigadores aparece no depoimento de uma vizinha. Ela afirmou ter acordado às 7h28 com um estampido forte. A primeira ligação do tenente-coronel pedindo socorro foi registrada apenas às 7h57 — cerca de 29 minutos depois.

Em nota, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo e que, desde o início, tem colaborado com as autoridades. A defesa diz ainda confiar nas investigações e afirma que o oficial está à disposição para prestar esclarecimentos.

Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia.

Nos desdobramentos do caso, o tenente-coronel pediu afastamento das funções na Polícia Militar enquanto as investigações estão em andamento, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Perícias feitas até agora apontam que o disparo ocorreu encostado no lado direito da cabeça da vítima. Os exames que analisam resíduos de pólvora nas mãos de Gisele e do marido deram resultado negativo para ambos.

O caso segue sob investigação no 8º Distrito Policial, na Mooca.